Uma imersão no universo de possibilidades sobre a relação entre felicidade e ambiente de trabalho, com ênfase na promoção do bem-estar nas organizações. Este foi o ponto central do 1º Fórum Lideranças Sustentáveis: Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho, evento promovido pelo SENAI CETIQT, voltado a líderes empresariais, profissionais de Recursos Humanos e gestores de sustentabilidade, com o propósito de analisar como é possível construir ambientes corporativos mais saudáveis, humanos e sustentáveis – temática que assume caráter primordial diante das transformações e os desafios contemporâneos. Antropólogo e gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável da instituição, Marcelo Ramos conduziu o encontro inaugural de um projeto trimestral sobre desafios atuais enfrentados pelas empresas na atração e retenção de talentos, as mudanças na Norma Regulamentadora de Riscos Ocupacionais (NR-1), com a inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o papel do bem-estar no trabalho como uma estratégia de gestão de pessoas.
A reflexão sobre felicidade transcende a esfera individual e se impõe como um imperativo coletivo, sobretudo no mundo do trabalho. Para Marcelo Ramos, a verdadeira gestão da felicidade não se limita a pequenas ações pontuais, mas exige estruturas, culturas e práticas que promovam diversidade, equidade, inclusão, pertencimento e bem-estar real. Medir, diagnosticar e intervir são passos essenciais para transformar o ambiente corporativo em um espaço saudável e sustentável, onde a produtividade e o engajamento caminham lado a lado com a dignidade e a realização humana. Mais do que uma meta, a felicidade torna-se, assim, um compromisso estratégico: daqueles que lideram e daqueles que constroem o futuro das organizações, conscientes de que investir no bem-estar coletivo é investir no futuro de todos.

Marcelo Ramos à frente do Fórum “Felicidade Organizacional e Bem-Estar no Trabalho (Divulgação)
Há 17 anos, o antropólogo dedica-se ao estudo da felicidade dos brasileiros sob diferentes perspectivas e propôs ampliar o debate sobre o tema em uma palestra voltada para estratégias de gestão de pessoas, análise de riscos e sustentabilidade. “Na antropologia, a felicidade é pensada como bem-estar subjetivo, claro. Mas, para além do bem-estar subjetivo, como uma prática relacional, algo social, validado mais coletivamente do que individualmente. Hoje, meu foco é felicidade e trabalho. Entrei nessa área buscando compreender a gestão não apenas como um instrumento de lucro, mas também como promotora de benefícios sociais. Minha trajetória no SENAI CETIQT começou justamente em um observatório internacional de tendências, onde participamos de um estudo sobre a felicidade dos brasileiros. A partir dali, passei a enxergar a felicidade de forma mais plural e sistêmica, sempre ligada ao bem-estar coletivo”, afirma Marcelo Ramos.
O estudo, intitulado “A Felicidade Cotidiana dos Brasileiros”, foi realizado em oito capitais do país. “Tive a oportunidade de viajar pelo Brasil e conversar com diferentes pessoas. A pesquisa foi qualitativa e contou com 512 participantes, que registraram momentos de prazer, bem-estar e felicidade ao longo de uma semana em diários fotográficos e escritos. Enviávamos a cada participante uma máquina fotográfica Fuji Film e um caderno para anotações. Eles produziam as fotos, escreviam legendas e, depois, nos entregavam o material. Costumo dizer que era como um ‘Instagram analógico’”, explica o antropólogo.
Segundo ele, a experiência foi intensa: “Li 512 diários e, depois, conversei por conversei com os participantes. No total, foram 960 horas de entrevistas. Esse mergulho me permitiu compreender melhor a estrutura do discurso sobre felicidade. Um aprendizado que também nos ajuda a refletir sobre a felicidade no ambiente de trabalho”.
Os registros coletados revelaram que muitas pessoas tiveram dificuldade em registrar momentos de felicidade no cotidiano. Ao receberem a proposta de manter um diário sobre prazer e bem-estar, muitos relataram não estar acostumados a refletir sobre experiências positivas e negativas no dia a dia. Alguns chegaram a refazer o diário. Com o tempo, esse exercício de observação se tornou mais comum e as redes sociais, embora nem sempre voltadas ao registro do que realmente gera felicidade, acabaram criando o hábito de documentar momentos felizes, ainda que produzidos.
Marcelo Ramos comenta que passou a compreender a felicidade de uma forma mais sistêmica e múltipla: “A felicidade no plural mesmo mas, ao mesmo tempo, uma felicidade que depende do bem-estar coletivo, de algo que nos une, que não nos separa. Estudos recentes sobre a situação de pessoas que vivem em grupos minorizados e a consequência disso em suas vidas, mostram como as estruturas de poder geraram desigualdades, privilégios para uns e desvantagens para outros. Isso acaba gerando bastante infelicidade no mundo e nos afeta também. Assim, a felicidade deve ser pensada de forma coletiva e para o bem comum”.
Uma das frentes de atuação da Gerência de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT consiste na prestação de consultorias a organizações no que se refere ao pilar social da gestão da sustentabilidade. Essa atuação abrange, fundamentalmente, as práticas e relações de trabalho, os direitos humanos, diversidade, equidade, inclusão e pertencimento nos ambientes de trabalho. A proximidade se dá com a prática do dia a dia, por meio do conhecimento dessas realidades e da implementação de estratégias para a correção das desigualdades existentes – Marcelo Ramos
Os registros de felicidade
Durante a pesquisa de campo “A Felicidade Cotidiana dos Brasileiros”, Marcelo lembra que a felicidade aparecia quase sempre associada a momentos especiais ou extraordinários — um aniversário, uma viagem com amigos, uma promoção, uma conquista. Esses eram os registros que recebiam maior ênfase. “Algo que também chamava muita atenção era a forma como a felicidade era projetada no futuro. Quase nunca se tratava do presente. ‘Eu serei mais feliz quando…’. ‘Quando eu conquistar determinado cargo, alcançar certo salário ou adquirir algum bem…’ Um ponto chamava muito atenção: eram raríssimas menções ao trabalho como fonte de felicidade. Algo que faz refletir”.

Estruturas do discurso
Neste ponto, Marcelo Ramos lembra que a felicidade é múltipla, ou seja, não existe só uma felicidade. Dessas análises, Ramos sintetiza três grandes eixos de tensão sobre os quais repousa a forma como hoje se constrói o discurso da felicidade: “Uma das primeiras estruturas identificadas no discurso sobre felicidade refere-se às tensões entre segurança e liberdade. A percepção é de que certas práticas, conquistas ou relacionamentos proporcionam segurança, mas, ao mesmo tempo, exigem dedicação e regras que podem restringir a liberdade. Isso se reflete no cotidiano: quanto se investe no trabalho para garantir segurança e, ao mesmo tempo, quanto isso limita a liberdade em diferentes aspectos. O conceito lembra o que Zygmunt Bauman (1925-2017) descreve em ‘A Arte da Vida‘: a felicidade depende do equilíbrio entre segurança e liberdade. Focar apenas na segurança transforma a vida em uma prisão; priorizar apenas a liberdade leva ao caos. Encontrar esse equilíbrio é, portanto, um caminho mais consistente para uma vida mais feliz”.

Encaixar-se X distinguir-se: “outra tensão que também aparecia muito nas pesquisas. Fazer parte de um grupo, estar inserido, estar in ou se distinguir daquele grupo? Aqueles movimentos que você faz para ser diferente e acaba explicitando que está sendo o mais igual possível no que você faz, na roupa que veste, em como se comporta”.
E temos também uma discussão sobre tédio em oposição a uma excitação, a uma necessidade de novidades, que gera muita frustração. Esse diálogo entre tédio, excitação e dor, o que te causa essa busca essa busca recorrente pelo novo, pela excitação.
Atualmente, pode-se falar em um verdadeiro imperativo cultural: “Seja feliz”. Há uma crescente responsabilização do indivíduo por sua própria felicidade — a ideia de que não ser feliz seria resultado de falta de esforço ou vontade. Esse conceito, no entanto, carrega um peso considerável. As redes sociais amplificam essa pressão ao tornar visíveis os chamados signos de felicidade na cultura contemporânea. Exibir um corpo em forma, roupas de marca ou viagens se transforma em parte de uma lógica coletiva que, ao mesmo tempo em que celebra conquistas, gera insatisfação constante e aumenta a ansiedade – Marcelo Ramos
O trabalho hoje
O fenômeno, observa o antropólogo, conecta-se diretamente ao mundo do trabalho. Se antes a felicidade era vista como um projeto íntimo, hoje é também uma demanda corporativa, frequentemente associada à produtividade e ao engajamento. Por isso, Marcelo defende que é impossível dissociar bem-estar do ambiente laboral. “As tecnologias estão surgindo e como vão impactar o trabalho, os setores industriais e exigir novas habilidades. Mas a gente fala, também, sobre como essas novas tecnologias vão implicar em necessidade de ressignificações, de requalificar as pessoas para permanecerem empregadas”.
Segundo ele, esse cenário não é apenas tecnológico, mas humano. “Existem algumas buscas importantes: pela autenticidade, segurança e liberdade de ser quem se é. Quando a gente fala de ambientes de segurança psicológica, de ambientes profissionais que trazem a sensação de pertencimento para as pessoas, estamos falando de ambientes onde você pode ser quem você é, onde pode ser valorizado pelas suas competências. Outra questão: equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

A fala do pesquisador ecoa tendências globais. Movimentos como a priorização do “life-work balance” refletem exatamente essa mudança de mentalidade, na qual não basta apenas manter o emprego: é preciso que o trabalho faça sentido, que respeite os limites pessoais e que não esvazie o indivíduo de sua vida fora da empresa. Marcelo reforça que esse debate não pode ignorar princípios básicos de justiça e equidade. “Tem a questão de equidade e justiça. É muito importante entender que existem as diferenças, existem as desigualdades, existem os privilégios e as desvantagens. A busca por equidade, por garantir as mesmas condições de oportunidades para todos e, por isso, uma percepção de justiça, inclusive no trabalho, é algo que também é uma preocupação. E o propósito. Essas são, cada vez mais, exigências do trabalhador”.
Saúde mental e trabalho
Atualmente, as empresas enfrentam um enorme desafio para atrair e reter talentos, transformar culturas organizacionais marcadas pela toxicidade e lidar com a crescente exigência de prevenir e controlar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Trata-se de uma dificuldade já presente no dia a dia corporativo. “Como, nesse cenário, atrair e reter pessoas? Como mudar culturas já enraizadas?”, questiona o gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT. “Essas mudanças envolvem não apenas o ambiente interno, mas também influências externas. São elementos que estão internalizados em nós, como vieses inconscientes, formas de pensar o mundo, de lidar com pessoas e de compreender as relações de poder. Isso precisa ser transformado em muitos aspectos”.
Aqui é importante lembrar que a atualização da Norma Regulamentadora n.º 1 (NR-1), através da Portaria MTE nº 1.419/2024, incluiu formalmente os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), um processo que deve ser realizado pelas empresas. São obrigadas a identificar, avaliar e gerenciar riscos como assédio moral, sobrecarga de trabalho e má organização, integrando a saúde mental ao programa de gestão de riscos.
Os números revelam a gravidade do cenário. Em 2024, o Brasil registrou 470 mil afastamentos do trabalho relacionados a transtornos como depressão e ansiedade. Os benefícios por incapacidade temporária associados ao trabalho mais que dobraram, com aumento de 134% em relação à última década. Em reunião recente com o Observatório Nacional da Indústria, Marcelo ouviu de um especialista do Mapa da Saúde um dado extremamente alarmante: desde 2006, houve um aumento de 400% nos afastamentos ligados a questões de saúde mental. O impacto é global – a Organização Mundial da Saúde mostra que são 14 bilhões de dias de trabalho perdidos anualmente, ao custo de um trilhão de dólares, em função desses problemas. No Brasil, 85% dos trabalhadores relatam sintomas de burnout e quase metade precisou de afastamento. “Esses números deixam claro que o ambiente de trabalho merece cuidados e que o adoecimento mental é uma questão presente na sociedade e que afeta as pessoas, os negócios, as organizações e o futuro”, frisa Marcelo Ramos.

O gerente de Desenvolvimento Estratégico e Sustentável do SENAI CETIQT elaborou uma lista de riscos no trabalho previstos na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), destacando que eles estão diretamente ligados à cultura organizacional e precisam ser observados, compreendidos e tratados de forma estratégica para se enfrentar o desafio de reduzir os riscos psicossociais no ambiente laboral: “Extraí esses riscos de um manual do Ministério do Trabalho que os aponta como geradores de adoecimento mental. Temos o assédio e a discriminação (seja assédio sexual, moral ou qualquer outro tipo). Há também a sobrecarga e o ritmo excessivo de trabalho, baixas recompensas e reconhecimento. Outro ponto importante é a baixa justiça organizacional. Isso significa a percepção das pessoas de que os processos, a forma de reconhecer os funcionários e o desenvolvimento profissional dentro da organização não são justos. Muitas vezes, não se percebe que todos têm as mesmas oportunidades. E, por fim, há os maus relacionamentos, que dizem respeito à forma como as pessoas se tratam no ambiente de trabalho e como essas relações impactam o dia a dia dentro da empresa”.
Diante de um cenário tão complexo, marcado por diversos comportamentos e vieses inconscientes, surge a pergunta: quais seriam as oportunidades para os novos líderes? A resposta está em se dedicar a promover ambientes inclusivos, saudáveis e a construir uma cultura de pertencimento – Marcelo Ramos
Oportunizar felicidade
Marcelo Ramos propõe uma reflexão que vai além da teoria e toca diretamente na prática da gestão contemporânea: felicidade, para ele, é oportunizar. E explica: “As oportunidades que vejo para líderes hoje são de promover ambientes inclusivos e saudáveis, construir cultura de pertencimento. Dentro dos relatórios do Fórum Econômico Mundial, quando foi discutida a questão de Diversidade, Equidade e Inclusão – DEI –, havia uma tensão devido ao que os Estados Unidos estavam pautando como política, um retrocesso nesses assuntos. E o Fórum inclui, na sigla Diversidade, Equidade e Inclusão, o P de Pertencimento, muito nesse sentido de se focar na importância desse aspecto na cultura das organizações e de as pessoas se sentirem pertencendo a elas por tudo aquilo que elas possam se desenvolver plenamente como profissionais e como pessoas). Outras oportunidades: aumentar engajamento e, por que não?, ganhar em produtividade. Já vimos números que mostram o quanto se perde. E temos inúmeros exemplos do ponto de vista psicológico do que as pessoas precisam para estarem bem, engajadas, se sentirem pertencendo e se desenvolvendo como profissionais. É algo a que precisamos dar atenção para o futuro do trabalho e para organizações sustentáveis”, defende.

E como fazer para chegar lá? Segundo ele, “é essencial diagnosticar o bem-estar dos trabalhadores. Estamos observando o que acontece na nossa empresa? Os líderes estão discutindo essas questões? Estamos tratando desses temas de forma estratégica, para que possam ser efetivamente compreendidos e transformados? Também é preciso identificar os temas sociais materiais, aqueles que têm maior impacto sobre a organização. Eles devem ser avaliados com base em diagnósticos e na escuta dos stakeholders, tanto internos como externos. Uma vez identificados, esses temas orientam o planejamento de políticas, processos e programas voltados para o bem-estar, além de questões ambientais, sociais e de governança. E, claro, é sempre importante monitorar os índices de felicidade organizacional”.
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