*Por Brunna Condini
O vídeo de uma menina de 11 anos sendo socorrida por bombeiros, após uma crise de pânico causada por racismo escolar no Distrito Federal, viralizou recentemente. Para muitos, foi apenas mais um caso. Para Samara Felippo, foi um gatilho. Mãe de duas meninas negras, Alicia, de 16 anos, e Lara, de 12, a atriz voltou às redes sociais com um desabafo potente e urgente. Falou sobre a dor que atravessa os corpos negros desde cedo, sobre o racismo que adoece, que mata, e sobre a omissão das escolas, dos pais e da sociedade branca. “Até quando?”, questiona, ao apontar o ciclo de violências que se conectam, da sala de aula à violência letal nas ruas. “A bala tem cor. O alvo tem nome”, afirmou, ao lembrar a morte de Guilherme Dias, 26, jovem negro morto pela PM de São Paulo. “Tudo está interligado: o racismo emocional, simbólico, físico. É um sistema que não vê valor na vida preta”.
Em entrevista ao site Heloisa Tolipan, Samara vai além do post. Aponta para uma estrutura que protege os agressores e expõe as vítimas. Fala sobre o caso de racismo sofrido por sua filha mais velha em um colégio particular paulistano e critica a resposta institucional ao episódio. Expõe a dificuldade de encontrar uma escola verdadeiramente antirracista e compartilha o desafio de ser uma mulher branca disposta a romper com os próprios privilégios, começando dentro de casa. “Se a dor não bate na sua porta, você não se incomoda. E continua se beneficiando disso”. Samara faz um chamado claro: é preciso sair da sensibilização e partir para o compromisso, a ação. Especialmente se você é branco.

Samara Felippo expõe o racismo que adoece, silencia e mata desde a infância e convoca a branquitude à responsabilidade (Foto: Carlo Locatellii)
O racismo começa cedo. A omissão também
“O que mais precisa acontecer para a gente parar de tratar essas violências como exceção?”, pergunta Samara. Ela defende que pais, mães e educadores precisam, urgentemente, se comprometer com o letramento racial. E isso não significa apenas levar as crianças a museus ou assistir a peças de teatro com elenco negro. “É preciso mergulhar na história do país, na história do racismo, nas lutas de quem dedicou a vida a essa causa. A gente repete os erros por ignorância”, afirma, além de frisar que é preciso reconhecer privilégios e, principalmente, nomear o racismo desde cedo. “A criança precisa entender, independentemente da sua cor, que o racismo existe. Ele se manifesta. Ele dói. E mata”.
Ela defende que o reconhecimento do próprio privilégio branco é o primeiro passo para a mudança, e que esse processo deve começar cedo. “A condição de ser um corpo branco já carrega um potencial racista, mesmo que a pessoa ache que não. A gente não vai ser perseguido em uma loja, não vai ser mandado para o elevador de serviço, seus filhos não vão morrer com um tiro ao correr para pegar um ônibus. É isso que precisa ser entendido”. A atriz também critica a ideia, ainda propagada por muitos pais, de que “somos todos iguais”. Para ela, esse discurso desinforma e atenua a realidade.
A criança precisa entender que o racismo existe, que causa sofrimento. A linguagem pode ser adaptada à idade, os pais terão o feeling, mas a verdade tem que estar ali. E não, não somos todos iguais. Num país desigual como o nosso, essa igualdade simplesmente não existe. Fingir o contrário é manter tudo como está – Samara Felippo

Samara Felippo critica omissão em casos de racismo, da infância, nas escolas, à vida adulta (Reprodução/Instagram)
Sobre a repercussão do vídeo recente, ela diz. “Abordo essa temática há mais de dez anos, desde que minha filha mais velha pediu para alisar o cabelo. Foi ali que tirei o ‘véu’ do meu próprio racismo. Passei a enxergar o que dói, o que a sociedade insiste em normalizar”.
Quando faz esse tipo de conteúdo, a atriz conta, que junto dos comentários de apoio, chegam também os silêncios estratégicos, as acusações de ‘mimimi’ e gente dizendo que ela só quer aparecer. “Muitos pais e mães brancos privilegiados que vivem na ‘bolha’ do condomínio, da escola particular, não querem olhar. Preferem ignorar. Mas a maioria das mensagens que me chegam são de pessoas que entendem e se sensibilizam. O que me move são pessoas apoiando, compartilhando, acredito que entendendo o que estou falando. Só que não basta se sensibilizar. É preciso agir. Entender o que são, de fato, ações antirracistas”.
“Quem ficou exposta foi minha filha”
A justiça determinou que as adolescentes que atacaram a filha de Samara em episódio de racismo, em uma escola de elite paulistana, no ano passado, prestassem serviços comunitários. Para você, essa medida foi suficiente? “Na verdade, não acredito que as alunas tenham prestado nenhum tipo de serviço comunitário, não acredito que punição alguma foi dada, nem à escola, que é também responsável por essa violência, nem aos pais e às adolescentes. Elas nunca foram expostas, minha filha está exposta aí, todo mundo sabe. Minha filha voltou para a escola, o ambiente virou hostil, a escola não soube conduzir de forma alguma. As meninas saíram voluntariamente. Nunca houve acolhimento real ao ocorrido”.
Para a atriz, o episódio é simbólico de um sistema que protege agressores quando eles são brancos e de classe alta. “Se fosse um menino pego fumando um baseado, teria sido expulso. Se fosse um caso de assédio, idem. Mas quando é racismo, relativizam. E isso em um lugar onde a criança deveria encontrar proteção, pertencimento e educação”.
“A bala tem cor. O alvo tem nome”
No vídeo que viralizou, Samara também fez uma conexão direta entre as violências simbólicas e as violências letais, como a que tirou a vida de Guilherme Dias, jovem negro assassinado pela PM de São Paulo ao ser confundido com um criminoso enquanto corria para pegar o ônibus. “A bala não pega em um menino branco de condomínio. A bala vai no corpo preto. Isso é genocídio. É um sistema inteiro baseado no racismo estrutural”.
Ao lembrar de Guilherme e da menina de 11 anos socorrida na escola, Samara reforça: são manifestações de uma mesma lógica.
Tudo isso está interligado. O racismo psicológico, o emocional, o físico, é todo um sistema baseado na estrutura racial, no racismo estrutural que a gente vive. O corpo preto é o alvo da matança e do preconceito – Samara Felippo

“É preciso nomear o racismo desde cedo. A criança precisa entender que ele existe, que causa sofrimento” (Reprodução/Instagram)
Quando ser mãe exige muito mais do que afeto
“Entendi que não bastava amar minhas filhas. Era preciso mudar a forma como eu via o mundo. E como me via nele”. Foi assim que começou o processo de letramento racial de Samara. A partir de dentro, como mãe. E também de fora, como mulher branca disposta a abrir mão de silêncios confortáveis.
Há 12 anos ela criou um canal no YouTube, o ‘Muito Além dos Cachos’, buscou livros, filmes e referências para mostrar às filhas que elas pertencem, sim, a todos os espaços. “Mas a escola continua sendo um lugar de exclusão. Porque quem tem acesso à escola particular, à estrutura, ao poder econômico, é o branco. É preciso mudar isso, e é através do letramento racial. Deixou de ser um caso particular meu, para ser um caso onde não quero mais ver meninas e meninos e crianças sofrendo por causa desse racismo tão cruel”.
Entre as falas potentes da atriz está aquela que deveria ser um mantra: “A gente não devia ensinar nossos filhos a se defenderem. Vocês deviam ensinar os seus filhos a não violentarem”. Samara acredita que o combate ao racismo começa não apenas com empatia, mas com compromisso ativo. “Não adianta só se sensibilizar. É preciso agir”, reitera ela, que mantém em suas redes um espaço dedicado a mães negras empreendedoras, livros infantis antirracistas e conteúdos educativos.
Porque se você reconhece o que é o racismo, entende e continua praticando, aí não é mais ignorância, é mau-caratismo mesmo – Samara Felippo
“Entendi que não bastava amar minhas filhas. Era preciso mudar a forma como eu via o mundo. E como me via nele” (Reprodução/Instagram)
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