Gente & Comportamento

#SaiaDaCaixa de Helen Pomposelli apresenta o fotógrafo Gabriel Bonfim que através da sua arte vem promovendo a inclusão e a diversidade

Desde o início de março, ele está com suas obras na exposição "M", no Centro Cultural dos Correios, onde a mulher e o seu lugar no mundo são o centro dos registros dos trabalhos mostrados por lá. "M" faz referência à MULHER e, também, a MARIA, nome feminino mais popular na América do Sul. A mostra retrata mulheres que foram empurradas para as margens da sociedade, mas que lutaram para reconquistar o seu espaço. “Quero retratar na arte todo esse preconceito que vivo e focar em outras pessoas que também sofrem com isso", contou em papo com Helen Pomposelli

Publicado em 21/03/2018 | Por Junior de Paula

*Por Helen Pomposelli

Gabriel Bonfim

O mundo está em eternas mudanças sociais, filosóficas, tecnológicas  e comportamentais, cabe ao artista nessas horas tentar registrar não só os momentos do presente como também expressar sua revolta e emoções. Com tanta dor acontecendo lá fora, conversei com alguém que se propõe revelar através da arte toda a sua injustiça social. O “Saia da Caixa” de hoje conversou com Gabriel Bonfim, 28 anos, paulista e fotógrafo artista que, por conta de questões que já passou através de preconceitos, resolveu fazer da sua arte uma maneira levar as pessoas à reflexão sobre a forma que alguns tratam os outros. “Fui adventista por vinte anos até ser excluído da própria igreja por ser gay. Foi um choque muito grande, porque minha atividade era constante na igreja. E percebi que já não era mais convidado a fazer mais nada. Ai, fui juntando não só como situações como essa, mas também outras e resolvi me expressar através da fotografia”, diz Gabriel.

Andréia Marques por Gabriel Bonfim

Desde o início de março, ele está com suas obras na exposição “M”, no Centro Cultural dos Correios, onde a mulher e o seu lugar no mundo são o centro dos registros dos trabalhos mostrados por lá. “M” faz referência à MULHER e, também, a MARIA, nome feminino mais popular na América do Sul. A mostra retrata mulheres que foram empurradas para as margens da sociedade, mas que lutaram para reconquistar o seu espaço. “Quero retratar na arte todo esse preconceito que vivo e focar em outras pessoas que também sofrem com isso, como o projeto M, de não aceitar que a mulher não tenha uma situação digna ”, explica.  A mostra, que tem a curadoria de Thomas Kurer, ficará em cartaz no Rio até 22 de abril e, simultaneamente, também estará em São Paulo, no Palácio dos Correios, e em Curitiba, no Museu da Fotografia Cidade de Curitiba. “São fotografias em cores e uma videoinstalação artística com 11 telas, na qual Gabriel Bonfim retrata cenas aparentemente comuns na vida de mulheres brasileiras. No registro da transexual na escadaria Selarón, no Rio de Janeiro, ou da Ialorixá na igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Salvador, as imagens descortinam histórias que levam o espectador a perceber algumas das dificuldades enfrentadas por essas mulheres.“As imagens convidam o visitante a uma reflexão sobre a forma como tratamos as mulheres no geral e, em particular, sobre a luta de cada uma para ocupar o seu lugar na sociedade”.

Melissa Rodrigues por Gabriel Bonfim

Mas Gabriel nem sempre foi fotógrafo, o jovem estudou direito e chegou a trabalhar em escritório de advocacia. Sua família queria muito que ele tivesse um trabalho paralelo à música, ou seja, não tomando a arte como profissão. “Chegou um tempo que eu já tinha desistido de continuar na área jurídica, estava tentando abrir uma loja virtual, aí eu cai no mundo da moda contratado como modelo comercial, e percebi ali que seria interessante a fotografia, mas eu me sentia mais confortável atrás da câmera do que na frente dela” E foi em  Amsterdan, à convite de um amigo e pela primeira vez fora do país, que Gabriel começou a sua carreira. Necessitado de dinheiro, teve de começar a fotografar profissionalmente. “Eu fui chamado para fotografar garotas de programas em Amsterdan para anúncios digitais e aí comecei ter mais contatos e fui viajar pela Alemanha e Itália fazendo a mesma coisa. Voltei para o Brasil com um ensaio na Europa e consegui algumas portas abertas”, conta o jovem. Em 2016, teve a sua primeira exposição individual De Fotografia à Tactography™ – para os olhos e para os dedos – no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, onde uniu seu olhar único à tecnologia suíça Tactography™, que escaneia o objeto fotografado e mapeia as proporções e profundidade para criação de peças em 3D. Graças à Tactography™, a fotografia transforma-se em imagem para os deficientes visuais, e, ao pintá-la de branco, transforma-se em arte para os não deficientes. Em dez dias, a exposição atraiu um público de 21 mil pessoas, incluindo a cantora Anitta e sua amiga Natália Santos, blogger e youtuber (#ComoAssimCega).

Gabriel Bonfim na sua-Exposição Fotografia à Tactography

Gabriel criou uma técnica em 3D, a Tactography, para que deficientes visuais possam sentir as obras e agora vem trazendo uma exposição com mulheres “à beira” de uma sociedade machista e muito julgadora. “Fotografei o tenor italiano Andrea Bocelli em 2014 e eu não podia apresentar o meu trabalho a ele, por ser cego, e fiquei incomodado. Além disso eu tenho uma amiga que também é cega, baseado no meu ensaio com ele e nas situações que eu vivi com a Marcela na escola eu vi que era limitado o acesso deles às obras dentro um museu, por isso, eu propus para o meu curador que começasse um processo de pesquisa pra produzir imagens impressas com relevo 3D, esse processo só dá pra fazer na Bélgica”, conta.

E o seu maior desafio atualmente? “Como fotógrafo é fazer com que as pessoas percebam além das imagens, um convite à reflexão. Além disso, fazer com que as pessoas comecem a mudar as suas atitudes. Não é só de alegria que todo mundo muda toda coisa”. E para pensar “fora da caixa”? “Parte disso vem de casa,meus pais mesmo não tiveram medo e eu acabei sendo incentivado e colocando a cara no mundo. Acho que a coragem é importante para fazer a mudança, para acreditar, e sair da zona de conforto. Arriscar faz bem desde que você faça na medida certa”.

Adorei, Gabriel!

 

 

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