Roberta formalizou o nome de batismo como Roberta Gambine Moreira, afirma que não abandonou o nome profissional, mas passou a usá-lo apenas como forma de se diferenciar de perfis falsos. “Há outras meninas, que primeiro começaram a usar o Close e, depois, o Gambine – meu sobrenome. Para não haver confusão entre nomes e pessoas, eu acho melhor separar as coisas. Não quero chegar a essas pessoas e pedir para que mudem seus nomes no Instagram, mas acho que elas deveriam entender que quando você tem um nome é reconhecida por ele, não se deve entrar na vida de outra pessoa. É identidade mesmo”. Segundo Roberta, há ocasiões em que amigos acabam marcando outras pessoas na rede social em vez dela, resultado direto da apropriação indevida de seu nome.
*por Vítor Antunes
Por anos ela enfrentou preconceitos, hoje é reconhecida como pioneira. Faltava palavra definitiva para traduzi-la e, quando havia, muitas vezes era inadequada. Mas o nome artístico que sempre a definiu é Roberta Close, – primeira ícone da transexualidade brasileira, modelo internacional, atriz de novela, apresentadora de programa – embora ela jamais tenha se sentido confortável com o título que lhe atribuíram. Em 1983, já era assim chamada, ainda que não gostasse do nome, posição que mantém até hoje. A alcunha surgiu depois que posou, em 1981, para a revista Close. Hoje, em parte, sustenta a mesma opinião. “Este nunca foi o meu nome. Na época, não era nome artístico. Isso. Não estava nem com uma vida artística, mas esse foi um nome que escolheram”. Hoje, no Instagram, assina com o nome de casada: Roberta Graenacher e não descarta uma volta à TV.
Nascida na Glória e criada no Bairro de Fátima, no Centro do Rio, Roberta vive há anos na Suíça e veio ao Brasil para resolver questões pessoais. “Tenho coisas a resolver no Brasil. Apartamento, contas a pagar… Eu vivo lá, mas eu não sou de lá, eu sou daqui. O Rio de Janeiro sempre foi o meu lugar”. Neste 2026, suas ambições extrapolam o âmbito individual e tocam o clima coletivo. “O que eu espero desse ano de 2026, que eu sei que é um ano grande, polêmico”, disse, referindo-se às transformações que podem advir das eleições.
Ela relembra: “Na minha adolescência, uma coisa assim que eu sentia que eu tinha que ser artista, algo muito forte dentro de mim. E aí comecei fazer parte de teatro”. Roberta começou no teatro com um grupo de meninas — à época, transformistas — como Marlene e Camile K. Foi nesse período que a chamaram para fotografar os espetáculos que fazia com Brigitte Blair. “Eu era muito novinha, não tinha nem 18 anos, as fotos ficaram ótimas e ainda ganhei um cachêzinho.” A revista era a Close, e ela passou a ser conhecida como Roberta da Close, denominação que, mais tarde, se consolidaria como nome artístico. Era, segundo ela, um nome “meio abrangente”.

Roberta Close (E) e Alemoa em 1981, na Revista Manchete. Primeira aparição na extinta publicação da Bloch (Foto: Reprodução/Manchete/Biblioteca Nacional)
Eu tenho uma história muito bonita, comecei muito novinha. Eu queria a minha liberdade, a minha família. Então, agora, depois dos 60 anos, estou recolhendo um pouco de amor e carinho dos meus fãs, das pessoas me beijam, pedem autógrafo, querem fazer foto comigo. Nunca pensei que eu pudesse ter mais de 60 anos e continuar sendo sex simbol – Roberta Close
LUTA
Roberta lembra que as dificuldades enfrentadas por uma pessoa trans, décadas atrás, pertenciam a uma categoria quase sem nome. A própria palavra demorou a se consolidar. Levou anos até que fosse reconhecida pela mídia como transexual. Antes disso, havia silêncio, curiosidade e uma liberdade restrita ao calendário festivo. “A gente só tinha mesmo era liberdade, um pouquinho, durante o carnaval. Não tinha esses nomes, não tinha sigla, não tinha internet, porque eu vi como eu sou pré-histórica, dinossaura. Não tinha nada do que tem, mas sim, muita curiosidade”.
Na minha carreira fui convidada a fazer filmes e peças de teatro. Só que toda essa ideia, essa explicação que a gente passou a ter (sobre questões LGBT) tudo veio bem depois. Era bom naquela época, porque não tinha necessidade de explicar. A gente não tem que explicar o que é, porque não precisa explicar nada para ninguém, do que era ou não. Eu comecei no tempo que não existia nada, não tinha nada ao meu favor. Ao contrário, tudo era muito difícil e consegui transformar essa situação e hoje, quando eu vejo, estou feliz de ver as meninas que vieram após, como a Ariadna Arantes e a Pablo Vittar – Roberta Close
Ela acredita que a atual geração não aceita ser diminuída, o que é um avanço. “Elas reclamam muito. Dizem ‘me deixem viver’, ‘deixem meu corpo, me deixem viver’. Eu vejo muito isso. Só quer dizer, se existe essa replicação da parte delas, é porque existe também um problema com a sociedade, as pessoas entenderem que existe uma diversidade”.

Roberta Close: Sex symbol 60+ (Foto: Divulgação/Globo)
Roberta, que fez a cirurgia de redesignação sexual no fim dos anos 1980, em Londres, fala sobre a cirurgia: “Tudo foi feito em um grande hospital na Inglaterra, cercado de todo o conforto. Eu fui muito bem acolhida pelo médico e pelo local que eu estava”.
As pessoas me cobram que eu me posicione politicamente, mas quando eu comecei na vida artística não precisava de bandeira, nem de sinal, nem de nada, porque eu já era Roberta. Eu me sinto muito desconfortável agora sair desse meu papel para poder ser uma outra personagem, como ser política. Não existia nada que a gente pudesse querer ou pretender, mas nem por isso nem deixei de amar, de ser amada. Acho que hoje as pessoas estão mais inseguras do que naquela época – Roberta Close
Em 1998, Roberta participou de “Mandacaru”, novela da Manchete dirigida por Walter Avancini (1935–2001). À época, o diretor declarou tê-la convidado “não como atriz, mas como ‘evento’”, um movimento calculado para sacudir a audiência da emissora. Roberta recorda a experiência sem acidez. “Avancini dizia para que eu fosse o mais natural possível. Era uma novela no sertão do país. E eu fazia o papel de uma artista que chegava de fora para ir para essa cidade. Eu pedi na época uma cena de beijo e aí foi uma mídia enorme. Eu apareci nua em cena, tomando banho na cachoeira. O que ele pedia, eu fazia”. A passagem cumpriu o papel de acontecimento. Houve beijo, houve banho de cachoeira, houve manchetes. O “evento” funcionou. Antes disso, ainda no início dos anos 1980, ela também experimentara a televisão pelo outro lado da câmera: foi entrevistadora do “Programa de Domingo”, na Manchete. A possibilidade de retorno à função não está descartada. “Sempre gostei de fazer programa de TV”.
Talento é algo que as pessoas reconhecem em você – Roberta Close

Roberta Close em “Mandacaru”. Ator teria se recusado a beijá-la (Foto: Divulgação/TV Manchete)
TEMPO
No início dos anos 1980, no auge da fama, Roberta declarou à revista Manchete que se sentia sozinha. A confissão soava paradoxal para quem estampava capas e atravessava o país sob flashes. Décadas depois, o tema ainda a acompanha, mas sob outra chave. “Aos poucos eu estou vendo que há dois tipos de solidão: a solidão escolhida e a solidão obrigada. No meu momento, é um autoconhecimento. Há um momento que eu acho que a gente tem que se conhecer. O ser humano evolui muito quando ele está consigo mesmo”.
Perguntada sobre o que a Roberta dos anos 1980 diria à de hoje, ela hesita: “Há hoje um momento diferente. A convicção era outra. Não sei como seria. A mente muda, a maneira de pensar muda. A mulher de 20 anos pensava que tinha que conquistar um mundo, e eu tinha um mundo pela frente. Me colocar com a minha idade naquela situação é uma diferença muito brutal. É muito difícil querer explicar como era a vida. Muito difícil”. O passado, para ela, não cabe em retrospectiva. É uma matéria que só se entende por dentro.
Além de tudo, o passar dos anos e a moldura familiar também mudou, o que exige de Roberta ainda mais coragem. “Minha mãe e meu pai já faleceram. Alguns dos meus irmãos também, eu não tenho uma família muito grande. Infelizmente, minha família se reduziu muito. Hoje em dia estamos eu e o meu esposo, eu e ele, ele e eu. Espero que a gente viva por muitos anos”.
Roberta foi chamada de símbolo, de evento, de escândalo, de pioneira. Preferiu ser simplesmente Roberta. Inventou espaço onde não havia vocabulário, fez do próprio corpo uma biografia pública e, quando o mundo enfim aprendeu as palavras, ela já estava adiante, vivendo. Hoje recolhe o que plantou sem manual nem bandeira: afeto, reconhecimento, alguma paz. Entre a solidão escolhida e a luz dos palcos, construiu uma permanência rara, dessas que não cabem em sigla. Seu nome, que um dia foi emprestado de uma revista, tornou-se substantivo próprio da história recente do país. E segue.
Artigos relacionados
Com humor e crítica social, atriz Aquela Miranda lança livro sobre crise, ansiedade e dores dos millennials na web
Cíntia Chagas estreia no 'Domingo Espetacular' e leva debate sobre Língua Portuguesa para a TV aberta
Jorge Henrique, professor de inglês com quase 2 mi seguidores, fala sobre vontade de atuar na cena artística