*por Vítor Antunes
“Eu acho que é bem difícil ser mulher“. A frase surge cedo na conversa com Renata Schneider e ajuda a situar o tom do que virá a seguir. Com 1,5 milhão de seguidores e uma trajetória que atravessa diferentes plataformas, a artista também se soma a um coro crescente de vozes que tentam ampliar o debate sobre a própria existência das mulheres. Enquanto esta entrevista era preparada, dois casos ocupavam o noticiário do Rio de Janeiro: o de uma menina autista, no grau 2 do espectro, abusada por um homem que se apresentou como alguém disposto a ajudá-la, e o desdobramento de outro episódio de violência em que cinco homens atacaram uma jovem. “Convivemos com o medo de podermos ser mortas a qualquer momento por um parceiro, por estar na rua caminhando, por alguém brincar com você e por isso se acha no direito de agredir — é o temor constante pela segurança”, diz.
Renata também chama atenção para a desigualdade nas cobranças cotidianas, sobretudo quando o assunto é aparência. “Há toda uma questão estética que pesa muito mais sobre a mulher. Eu sinto que a mulher tem que estar com a unha e com a sobrancelha bonitas, com o cabelo bem feito, ser simpática… Algo que não se exige dos homens”. Para ela, trata-se de uma expectativa social tão disseminada que muitas vezes passa despercebida — mas que, somada às demais pressões, ajuda a desenhar o cenário em que as mulheres seguem tentando existir com menos vigilância e mais autonomia.
No próximo dia 27 de março, Renata Schneider lança “Protagonista”, seu novo single. Em paralelo à música, ela também retorna aos palcos dos musicais. E mais: volta a duas montagens: “O Mágico de Oz”, no qual interpreta Glinda, e “Elyntra: O Resgate de Rapunzel”, espetáculo que será apresentado no Teatro das Artes. A montagem estreia em 18 de abril e permanece em cartaz até julho. A agenda cheia, segundo ela, é justamente o que dá sentido ao trabalho. “É a melhor coisa para um artista poder estar trabalhando com o que ele faz de fato. Eu estou no terceiro semestre da faculdade, fazendo aulas de dança e mantendo minha rotina de estudos de sapateado, jazz, hip-hop, circo e canto para continuar estudando e evoluindo como artista.”
Se uma mulher é mais séria, mais incisiva, ela é chamada de grosseira, mal-humorada, mal-amada. Essa expectativa já não recai sobre os homens. Um homem firme é visto como alguém de atitude, seguro. Se a mulher ocupa esse mesmo lugar, ela é considerada egocêntrica. As cantoras, nos shows, trocam de roupa, fazem performance, coreografia, usam aplique, fazem mil coisas no palco — e, ainda assim, alguém aparece para dizer: “Não dançou bem”, ou “ela estava desequilibrando no salto.” Ou que “era mais bonita antes”. O show de muitos cantores, por outro lado, consiste em um violão e um microfone — e é isso durante toda a apresentação. Às vezes, o homem nem está barbeado. Mas, se a mulher faz algo semelhante, dizem que “ela nem se esforçou”. Existe, portanto, uma pressão muito maior sobre cantoras, sobre mulheres e sobre pessoas que são mulheres na vida real. Depois dos 30, muitas vezes elas já não são vistas da mesma forma, como alguém desejável — Renata Schneider

Renata Schneider debate a questão feminina: “É difícil ser mulher” (Foto: Divulgação)
Com uma legião de pessoas acompanhando seu trabalho nas redes, Renata Schneider diz não perceber a internet apenas como um território de hostilidade — embora reconheça que ela também possa ser. Ao falar sobre eventuais pressões ou preconceitos por ser influenciadora, pondera que a relação é mais ambígua do que costuma parecer. “Eu sinto que é um pouco equilibrado. A internet não pode ser vista como uma inimiga, ela tem que ser vista como uma aliada. Eu sinto que muitos artistas não a usam, principalmente porque têm vergonha de mostrar seu trabalho, medo do julgamento da internet, que é uma coisa que acontece. Só que aí muitos artistas deixam de se autopromover por conta disso. Muitos trabalhos eu já consegui porque alguém me viu na internet, chegou até mim e falou: ‘Olha, eu estava precisando de alguém como você. Bora fazer um teste?’”. Ao mesmo tempo, ela reconhece que a lógica do mercado também produz distorções. “Eu também reconheço que muitas vezes os artistas de verdade perdem papel, perdem lugar nas novelas, nos filmes, nas séries, no teatro, para um influencer que não é artista. Contudo, eu não finjo ser artista. É a minha vida, é quem eu sou. Desde os 12 anos eu já trabalho com isso. Então, eu vivo isso na minha realidade. Por isso, eu não vejo tanta resistência.”
Renata descreve o funcionamento do meio artístico com pragmatismo. No centro da engrenagem está sempre a mesma conta. “No fim das contas, todo mundo quer vender ingresso, quer vender, quer ganhar bilheteria. Então, se o diretor tiver que colocar uma pessoa para fazer vender, vai acontecer. Cabe a nós, artistas, nos adaptarmos a essa realidade. Acho que a gente tem que lutar, mas, se a gente só ficar chorando, reclamando e jogando hate, nada vai mudar”. Desde muito jovem, ela diz conviver com a exposição permanente. “Desde que eu posto na internet, desde que eu tinha 12 anos, sempre tiveram comentários a respeito de tudo”.

Renata Schneider no clipe de “Boneca Russa” (Foto: Divulgação)
A lembrança mais marcante dessa fase veio com o lançamento de seu primeiro single, “Boneca Russa”. “Um hate que me marcou muito foi na época em que lancei ‘Boneca Russa’, minha primeira música. Havia muita gente questionando a minha trajetória, reduzindo tudo ao fato de eu ser uma TikToker lançando música. Na época isso mexeu muito comigo. Eu tive essa necessidade de ficar respondendo e me justificando.” Com o tempo, diz ter mudado de postura. “Hoje em dia eu percebo que foi um erro — mas foi um erro importante para eu entender que eu só preciso responder ao que realmente é verdade. Se não é verdade, não tem por que eu estar me incomodando. Eu percebi que, quanto mais respondia a hate, mais eu dava atenção a esse tipo de comentário e colocava foco na parte negativa”.
Apesar das críticas, a canção encontrou seu público. “’Boneca Russa’ está com quase 8 milhões de visualizações no YouTube. Foi um retorno muito bom. Mas, para mim, como pessoa, essa fase machucou muito. Eu lembro que foi um período muito bom e feliz por estar lançando música e, ao mesmo tempo, eu nunca tinha me sentido tão odiada”.
Há pessoas que não me conhecem, que são pessoas que raramente são artistas de fato, que não entendem, não fazem parte do meio, e fazem críticas muito duras. Passei a pensar: Por que eu estou me doendo com a opinião de pessoas que não estão no mesmo lugar que eu? Isso foi bom para eu amadurecer – Renata Schneider

Renata Schneider precisou lidar com o hate na internet (Foto: Divulgação)
A disciplina, conta, nem sempre vem sem esforço. “Tem dias que eu não quero treinar, que eu não quero ir para a faculdade, que eu não quero fazer aula. Mas aí entra a disciplina, que é uma coisa que eu tenho construído ao longo da vida. Como eu sou bolsista na grande maioria das aulas que faço, eu sempre vou com a dedicação de ser grata por cada oportunidade, por cada pessoa que está acreditando em mim e dando esse espaço para eu estar ali”.
Sobre os lançamentos musicais, a cantora diz que a faixa dialoga com referências que marcaram sua formação musical. “Eu estou muito animada com esse lançamento. Eu acho que realmente fiz tudo o que queria fazer, tanto com o clipe quanto com a música. Tem uma vibe meio anos 2000, meio Kelly Key, essa coisa que eu gosto, que eu cresci escutando e da qual gosto da energia”. A narrativa da canção, explica, acompanha uma personagem que coloca a carreira no centro da própria vida. “É uma coisa um pouco mais ‘girl boss’. Fala sobre uma pessoa para quem a carreira é o plano A da vida. Então ela só busca esse refúgio em relacionamentos quando o plano A não está indo bem. Fala um pouco sobre essa geração de mulheres que hoje está muito mais focada nelas mesmas, nos próprios objetivos, do que em encontrar um relacionamento”.

Renata Schieider é a Glinda de “O Mágico de Oz” (Foto: Priscila Lima)
Com presença consolidada na internet, Renata afirma que o reconhecimento digital não torna a rotina menos exigente — ao contrário. “A internet me possibilita uma flexibilidade de horários, mas, ainda assim, além de tudo isso, eu posto todos os dias pelo menos dois vídeos no meu canal, e sai um vídeo longo por semana. Eu abdico de muito tempo livre. Estou construindo um caminho que exige muita dedicação”. Ela diz que, muitas vezes, o esforço acaba sendo relativizado por causa da idade. “Tem muita gente que fala: ‘Ah, você aguenta porque é jovem’. Mas eu vejo muita gente jovem que não tem essa rotina. Às vezes as pessoas tentam diminuir o meu esforço dizendo que é porque eu ainda sou muito jovem e tenho energia para aguentar”. Para ela, a origem explica parte dessa obstinação. “Essa determinação vem de muito cedo e tem a ver com o fato de eu vir de um lugar mais humilde, de a minha mãe me aconselhar a ser grata por tudo e fazer tudo valer a pena. A energia contagia as pessoas. O jeito que a gente chega nos ambientes fala muito sobre a gente”.
Paralelamente às atividades na música e no teatro, a artista também tem investido nas artes circenses. “É um universo muito lindo, o do circo. Por mais que você possa aprender várias coisas, acaba se especializando em alguma. As diferenças são abraçadas; não existe um padrão”. Ela compara essa abertura com outros campos da formação artística. “Eu acho que o balé clássico é um pouco mais dentro de uma caixa. No circo existem técnicas e um ensinamento que passa de geração em geração — embora eu não tenha vindo de uma família de circo”.

Renata Schneider estreia peça em abril (Foto: Divulgação)
EXPRESSÃO
Renata Schneider é gaúcha, nascida no interior do Rio Grande do Sul. Hoje, o sotaque aparece suavizado pela convivência com outros ambientes e pela própria circulação profissional, mas nunca chegou a ser um obstáculo em sua trajetória. Ainda assim, ela reconhece que a questão pesa para muitos artistas vindos de fora dos grandes centros — especialmente nordestinos e interioranos. “Eu acho super que isso de ficar exigindo sotaque neutro apaga, sim, a identidade. No momento em que você começa a exigir que as pessoas falem de determinado jeito, está dizendo que aquele jeito é melhor. Ou seja, as pessoas que falam assim são naturalmente melhores.” No caso dela, a mudança veio sem cálculo. “Eu nunca parei para aprender a falar sem sotaque. Acho que foi uma coisa que foi acontecendo na minha vida de forma bem natural, e também ninguém nunca me pediu. Quanto mais a gente pudesse se livrar dessa questão de sotaque neutro, melhor”.
“O tipo de conhecimento que a gente tem no interior é um conhecimento tão importante quanto o conhecimento da capital. É eu saber como que planta o milho, é eu saber reconhecer um vegetal que tem gente da cidade que não que olha o vegetal e não faz a menor ideia de como ele nasce, de como ele cresce. Então eu sinto que tipo é isso. Existe um infelizmente um conhecimento que é tomado como o melhor, o padrão, mas que não deveria ser era assim”.
Vegana, Renata diz que o tema ainda costuma ser tratado com estranhamento, mesmo em grandes centros urbanos. Morando hoje em São Paulo, ela observa que o assunto continua cercado de equívocos. “São Paulo é uma das cidades com mais restaurantes veganos do mundo e, ainda assim, é muito comum eu chegar em um lugar, perguntar se tem opção vegana, e a pessoa falar de frango ou de presunto.” Para ela, a confusão revela o quanto o conceito ainda é simplificado ou mal compreendido. “Muita gente entende o veganismo apenas como comida saudável ou reduz tudo à crueldade animal. Claro, existem pessoas radicais dentro de qualquer movimento, mas o vegano mesmo não vai deixar de tomar vacina, por exemplo. Vale mais um vegano vivo, ativo, participando do movimento, do que alguém que não cuida da própria saúde.”

Renata Schneider tem entre as suas atividades o circo (Foto: Divulgação)
A decisão veio gradualmente. “A gente sempre fala do veganismo dentro do possível e do praticável. Para mim, isso começou há cinco anos. Primeiro eu virei vegetariana, fiquei assim por um ano, por influência de uma amiga — amiga de uma prima. Depois descobri que existiam muitas pessoas vegetarianas, páginas sobre isso no Instagram, e aí se abriu um novo universo. Comecei a pesquisar, me interessar, conversar com a minha família.” A resistência inicial acabou se dissipando. “No começo, eles não curtiram muito a ideia, mas, desde então, nunca tive nenhum problema. Meus exames de sangue sempre deram ótimos. Eu estou saudável e seguindo uma alimentação que me faz feliz.”
Diante de um cenário em que a violência contra mulheres continua atravessando o cotidiano — dos casos recentes que chocaram o Rio de Janeiro às pressões silenciosas que moldam a existência feminina — a trajetória de Renata Schneider se afirma como um gesto de persistência. Entre palco, internet e estudo, ela repete uma convicção que aprendeu a cultivar no próprio percurso: “o esforço vence o talento quando o talento não se esforça”. Em uma realidade em que, como ela mesma resume, “eu acho que é bem difícil ser mulher”, seguir criando, falando e ocupando espaço torna-se também uma forma de resistência — talvez uma das mais concretas.
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