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Rafael Losso é a sensação do momento! Em um papo com o site HT, ele falou sobre a carreira, feminismo, política e eleições em ano de Copa do Mundo

O ator que acaba de se despedir do personagem Zé Victor, em O Outro Lado do Paraíso, ainda pode ser visto na TV e no cinema com outros três personagens. Um deles, um Skinhead que levou Rafael a tomar banho de sal grosso para descarregar as energias. “Um dos produtos mais pertinentes ao mundo que eu fiz”, afirmou.

Publicado em 18/05/2018 | Por Rayssa Cerdeira

Aos 14 anos Rafael Losso subiu em um palco pela primeira vez – foi no colégio, durante uma aula de teatro. Desde então, a vontade de atuar só aumentou e, mesmo sem o apoio dos pais no início, o ator persistiu na profissão. Depois de uma longa trajetória no teatro, em peças como Léo e Bia, de Oswaldo Montenegro, e os clássicos Hamlet e Macbeth, de William Shakespeare, o ator chegou às telinhas na novela O Astro, onde interpretou o jovem Olavo Martins. Mas foi recentemente, como o garimpeiro Zé Victor, na novela O Outro Lado do Paraíso, que Rafael Losso conquistou de vez a mídia e o público.

Para Rafael, interpretar o garimpeiro contribuiu para que ele chegasse a um dos momentos mais importantes da profissão de ator. “Ele deu uma dividida na minha carreira. As pessoas puderam começar a entender e reconhecer o meu trabalho. A TV abrange muitos espectadores e, entre eles, estão também pessoas do mundo artístico. Foi muito importante para mim que o pessoal das Artes Cênicas entendesse o meu trabalho e me parabenizasse”. Contracenar com grandes nomes da dramaturgia brasileira, como Marieta Severo, Lima Duarte e Fernanda Montenegro, foi o diferencial nessa experiência de crescimento, segundo o ator. Sobre isso, ele é só agradecimentos a Marieta, que interpretou a vilã Sophia, em O Outro Lado do Paraíso – e de quem o personagem Zé Victor foi cúmplice em um assassinato. “Foi um aprendizado muito grande. A Marieta, que era minha parceira, foi de um profissionalismo inenarrável. Uma atriz desse calibre, trabalhando com vários atores jovens, e sendo muito profissional. Sempre discutindo e trabalhando as cenas, para fazer tudo da melhor forma”, afirma.

Rafael Losso diz que o personagem Zé Victor foi um divisor de águas em sua carreira como ator. (Foto: Leo Fagherazzi/Make: Vanessa Sena/ Stylist: Rafael Menezes)

Quase na mesma época em que se preparava para viver Zé Victor, Rafael também interpretou outros três personagens. No longa Virando a Mesa, que estreia em breve, ele interpreta o melhor amigo do policial protagonista Jonas, interpretado por Rainer Cadete. O filme de ação com doses de humor politicamente incorreto conta a trajetória do policial novato que precisa fechar uma boate clandestina. Em Rio Heroes, série original da Fox, o ator viveu o lutador e antagonista da história Eric.  A série, no ar desde fevereiro, fala sobre o campeonato clandestino de luta livre Rio Heroes. Mas foi o personagem skinhead Capitão, em Rotas do Ódio, série nacional do Universal, que realmente “mexeu” com o ator. A série se baseou no trabalho realizado pela Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI) de São Paulo, para mostrar o esforço da delegada Carolina, interpretada por Mayana Neiva, em combater esse tipo de crime.

Para viver o neonazista, Rafael precisou mergulhar em filmes, documentários e séries, mas afirma que a construção de Capitão foi aos poucos. “Eu fui buscando cena a cena. Fui construindo bem devagar, em doses homeopáticas. Pegava uma cena, estudava, entendia aonde ela queria chegar e o que queria dizer, para não ter que carregar os sentimentos do personagem comigo o tempo todo”. O mais difícil, segundo o ator, foi interpretar e humanizar a intolerância. “Eu tinha que chegar em casa e tomar um banho de sal grosso, para poder tirar a energia que a gente começou a carregar. Os assuntos eram muitos pesados, a gente xingava negros, orientais, toda a população LGBT. Mas existem pessoas assim e eu precisava tornar o personagem real”, explica. Levando em conta que o Brasil é o país que mais mata a população LGBT no mundo, segundo dados da TransBrasil, e inúmeros casos de racismo, Rafael defende a necessidade da discussão desses temas na televisão. “Esse assunto é pertinente não só aqui no Brasil, mas no mundo de hoje. A intolerância mata muitas pessoas todos os dias. Se a gente não começar a entender as diferenças, não vamos conseguir viver em sociedade. Nosso papel é questionar, levar à tona, para que as pessoas comecem a repensar”.

Para Rafael Losso, o personagem neonazista Capitão foi o papel mais duro da carreira de ator. (Foto: Leo Fagherazzi/Make: Vanessa Sena/ Stylist: Rafael Menezes)

O personagem Capitão representa tudo o Rafael Losso não é. De espírito livre, como se define, o ator procura viver sem preconceitos. Criado em uma família conservadora, com o pai do interior e mãe filha de alemães rígidos, Rafael atribui essa mente aberta à capoeira e ao teatro. “Meus pais tiveram que sobreviver ao tempo deles, e foi isso que eles passaram para os filhos. Certas etapas da minha vida me ajudaram a desconstruir certas coisas.  Na capoeira, a cultura brasileira veio com uma força para dentro da minha vida que foi muito importante. O teatro me possibilitou ter contato com pessoas de todos os tipos. Essas vivências me fizeram ser uma pessoa mais leve e livre, para aceitar tudo e todos”. O ator, inclusive, adora usar saias e é defensor da causa feminista. “Eu acredito em um mundo dominado pelas mulheres. Elas são muito mais leves e tem uma inteligência emocional muito maior do que qualquer homem. Para evoluir a gente precisa delas”, conta.

Nesse contexto, Rafael fala sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL, há dois meses, e que ainda não foi solucionado. A vereadora defendia os direitos humanos e lutava pelo das mulheres. “A Marielle estava sendo mais que uma pedra no sapato. Eu espero que as pessoas continuem querendo saber quem a matou. Porque parece que os políticos vão deixando o tempo apagar, mas têm coisas que não podem ser apagadas”. Além disso, para ele, o caso Marielle não foi isolado –  ele reflete todo o cenário político brasileiro. “Existe um poder no Brasil que é obscuro e que é contra as pessoas que querem mudar a sociedade. Depois que ela (Marielle) foi morta, cinco dos sete projetos dela foram aceitos. Tem muita gente que acha que isso não tem a ver com a maneira como a política é feita no Brasil, acham que isso foi só mais um dos milhares assassinatos que acontecem todos os dias. E é aí que mora o perigo. Isso é um reflexo do descontrole da nossa política; de pessoas que querem ter um controle total da nação, sem entender como se constrói uma nação melhor”, explica.

Rafael Losso fala sobre o caso da vereadora Marielle Franco e afirma que ela não pode ser esquecida. (Foto: Leo Fagherazzi/Make: Vanessa Sena/ Stylist: Rafael Menezes)

Sobre isso, Rafael fez ainda uma crítica a Copa do Mundo deste ano, que será realizada em junho, na Rússia. “A Copa do Mundo não combina com a época que mundo vive. É mais uma festa para deixar as pessoas achando que está tudo bem, e depois tudo volta ao que era”. Para o ator, os reflexos desse evento aqui no Brasil podem ser ainda piores. “Teremos eleições alguns meses depois. Se as pessoas ficarem extasiadas com isso, ainda mais se o Brasil ganhar, elas podem acabar esquecendo de levar em conta todos os problemas que estamos vivendo. Temos que estudar e tomar muito cuidado na hora de votar”, alerta. Recado dado, viu?

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