*por Vítor Antunes
Uma mulher do seu tempo, uma profissional pronta para falar. Pamela Magalhães (CRP/SP 06/88376) construiu uma presença singular no debate público sobre saúde mental. Psicóloga reconhecida por seu trabalho clínico e por sua atuação nas redes — onde soma mais de dois milhões de seguidores —, ela se tornou uma voz relevante ao tratar, com naturalidade e profundidade, de temas que atravessam a vida contemporânea. Num momento em que o discurso sobre saúde mental ganhou centralidade, sua fala surge como contraponto à banalização de diagnósticos e etiquetas psicológicas que, em muitos casos, acabam sendo usadas como justificativas para estagnações pessoais.
Pamela Magalhães escolhe um caminho: o da escuta, da palavra precisa e da presença íntegra. Ao tratar de saúde mental sem concessões à superficialidade, ela ocupa um espaço raro — o de quem fala para milhões sem perder a densidade da conversa íntima. Sua trajetória combina clínica, comunicação e reflexão num tempo em que pensar sobre si tornou-se um gesto contracorrente.
Pamela observa com clareza: “Eu acredito que a informação é sempre muito importante. Falar sobre síndromes, transtornos, conhecer sobre eles é maravilhoso. Quebrar tabus, estigmas, objeções sobre todos esses temas, acho melhor ainda. Desde que eu entenda que eu nunca serei um diagnóstico. Eu não ‘sou TDAH’. Eu não ‘sou borderline’. Eu não ‘sou depressivo’. Eu posso estar. Eu posso ter um determinado conjunto de sintomas que se enquadre numa determinada síndrome, mas aquilo nunca me definirá. Caso contrário, eu estarei me reduzindo a algo que disseram ou que entenderam que definiria algum tipo de transtorno ou alguma síndrome. Então, isso pode sim me dar algum pseudoalívio e me mostrar caminhos possíveis para que eu viva melhor. Mas nunca me reduzir a uma síndrome. Nunca. Que nós nunca esqueçamos quem somos”, disse.
‘Ser’ envolve identidade. É importantíssimo que nós tentemos conhecer sobre as coisas que acontecem na nossa vida e nos informarmos. Às vezes está tão difícil a gente entender quem somos, é tão duro olhar para nossa história, para as arestas da nossa vida, perceber as camadas que temos, abraçar questões difíceis da nossa história, que quando aparece a oportunidade de uma síndrome ou de um transtorno, a gente mergulha e veste aquela carapuça como quem diz: ‘Finalmente sou algo’. E não. Nós não somos as doenças que temos. Nós não somos os transtornos que nos enquadramos. Nós podemos tê-los na nossa vida, mas nós sempre seremos aquela pessoa que nós precisamos insistentemente encontrar dentro de si” – Pamela Magalhães

Pamela Magalhães: “Que a gente nunca se reduza a uma síndrome” (Foto: Divulgação)
Essa reflexão sobre identidade se estende a um dos fenômenos mais marcantes da vida contemporânea: a dependência de validação digital. Curtidas, retuítes, repostagens e visualizações se transformaram em métricas emocionais. “As redes sociais se tornaram o meio de comunicação e de existência. As pessoas estão atrofiadas nos seus recursos emocionais mais primitivos, que para mim são aqueles que realmente alimentam, constroem os vínculos e desenvolvem a nossa autopercepção, que é o olho no olho, o cara-a-cara, a troca. Hoje em dia, as conversas são controladas através dos áudios, através do acelerar do áudio, fazendo com que as pessoas percam o realismo das conversas. Fazendo com que na hora em que a coisa acontece mesmo, a realidade, o cara a cara, haja muita dificuldade de olhar no olho, de escutar, de troca, de perceber o outro, porque as pessoas estão viciadas nas redes sociais em que tudo é editado, filtrado, estrategicamente colocado. Em que há a ilusão de que eu tenho milhares de amigos, e onde eu vejo a vida dos outros o tempo inteiro e isso faz com que muitas vezes eu me afaste da minha própria vida. Então a vida vai ficando superficializada”.
O que nos alimenta enquanto seres humanos, é a troca genuína do afeto. É a percepção visceral do afeto. É o olho no olho, o toque, o abraço, não é a curtida. Isso é uma ilusão, tanto que quando não se tem curtida, tem-se angústia. Tira-se o post, muitas vezes – Pamela Magalhães
Essa busca por um olhar interno — e não pelo reflexo nas telas — está no centro do seu trabalho e também dos seus livros. Em “Se amar, amar e ser amado”, Pamella propõe uma espécie de percurso íntimo em três tempos: amar a si, amar o outro, e permitir-se ser amado. “Neste livro, a gente fala dessas circunstâncias, desses três momentos necessários, que é primeiro me amar, que é o me reconhecer, o me perceber, honrar a minha história, abraçar cada pedacinho dela, sejam os momentos difíceis, sejam os momentos gloriosos, seja perceber os meus contornos, meu merecimento, me abraçar nas entranhas das minhas imperfeições e ainda assim me reconhecer”
Acrescenta que “entender que nos altos e baixos da vida e até nos momentos em que eu não me reconheço, ainda sou eu. Ao me amar é quando eu entendo na minha companhia o melhor lugar do mundo e, na minha solitude, o quanto eu preciso estar inteiramente comigo para nunca me sentir sozinha. A partir do momento que eu me amo, eu estou pronta para me relacionar, porque amar alguém é uma escolha e não uma necessidade. Eu só posso amar alguém direcionando o que de melhor eu posso contribuir e compartilhar com o outro, enxergando o outro como legítimo outro, porque a partir do momento que me percebo, me misturo menos à outra pessoa, podendo ouvi-la, admirá-la e dar um lugar para ela comigo. Depois disso, eu consigo receber o amor que vem de fora. Porque enquanto eu não me amo, enquanto eu não tenho esse exercício do amar de uma forma equilibrada, aquilo que vem de fora, mesmo quando é algo muito bom, eu não me aproprio”.
Em “Bem Me Quero”, seu livro mais recente, Pamela continua o caminho iniciado. “Muito se fala do amor, mas será que as pessoas sabem mesmo como exercê-lo e como ‘ser’ esse amor que elas dizem, que elas tanto querem? Eu acho que começa sendo, sendo “para mim”, não no sentido egoísta da coisa, mas no sentido necessário para a autopreservação e para o reconhecimento daquilo que sou. Neste livro, eu apresento o caminho para as pessoas desenvolverem este amor que é vital e necessário, e todo mundo tem o direito de desenvolver, não importa o momento de vida, não importa se você tá todo quebrado, se você terminou, se você tá sozinho, se você é novo, se você é velho, se você é homem, se você é mulher, não importa”.
O amor próprio é necessário, ele é a base substancial, é a base que a gente precisa ter para conseguir ser e estar no mundo. Porque se tem uma coisa que a gente veio para fazer nesse mundo é para amar e ser amado – Pamella Magalhães
Além dos livros e do número expressivo nas redes sociais, Pamela também tem 741 mil inscritos no YouTube, com o canal que leva o seu nome e com a “Liveterapia”, onde debate assuntos relacionados a bem estar e relacionamentos e está à frente do podcast “Parece Terapia”. Ela também é uma das curadoras do PSIAPP, aplicativo que oferece psicólogos 24h, objetivando uma melhoria na saúde mental. No próximo ano, a psicóloga vai seguir dando palestras, tanto nacional, como internacionalmente.

Pamela Magalhães: “É a troca genuína do afeto o que nos conecta” (Foto: Divulgação)
COMUNICAÇÃO
Num tempo em que se convencionou ser popular antes mesmo de ter algo a dizer, Pamela Magalhães escolheu remar na contramão. Psicóloga de formação e comunicadora por vocação, ela se preocupa menos com os números e mais com o conteúdo que chega a mais de dois milhões de pessoas diariamente. Sua relação com o público não foi diluída pelo alcance. “Eu continuo falo com 2 milhões e meio de pessoas tal como falava para 10, 30, 100, 1.000, 2.000, porque eu falo aquilo que eu sinto, e ao falar eu permito que as pessoas que se encontrem na minha fala, elas abracem para elas e usem aquilo da melhor maneira primeira que elas puderem”.
Comenta que tem “extrema responsabilidade na forma, no formato, nos meios, na maneira que a gente abraça essas pessoas que vêm através da equipe, através de muita gente envolvida que viabiliza com que as informações aconteçam, os cursos, as mentorias. Eu tenho um aplicativo de atendimento psicológico com quase 2.000 psicólogos, então a gente tem todo um gerenciamento disso, são mais de 50.000 pessoas que acabam fazendo as sessões. Eu sempre falei sobre o meu desejo de comunicar sentimento. E eu sempre gostei muito de trazer numa linguagem acessível, fácil, assuntos tão difíceis, complicados, dolorosos e que muita gente não consegue e não quer falar.”
Nas redes sociais, terapia tornou-se um assunto corrente — e, em muitos casos, uma bandeira. Parte dessa popularização vem de uma necessidade real; outra, de um certo exibicionismo velado, uma maneira de afirmar um suposto patamar superior: “eu sou analisado e você, não”. A prática, muitas vezes, escorrega para a fetichização ou a folclorização da terapia psicológica, reduzida a símbolo de status ou ritual performático. Pamella enfrenta o tema de frente: “Se alguém me disser que eu preciso de terapia, eu vou perguntar o porquê ele diz isso. Se ele disser que é porque eu preciso me entender melhor, eu direi que eu estou no caminho, mas que eu ainda tenho muito a percorrer”.
Pamela pontua que a “pandemia veio e com ela nós percebemos como a saúde mental, ela é muito mais importante, necessária e vital do que se imagina. Além de tudo isso, nós pudemos perceber a necessidade de dar espaço à saúde mental, tanto que a NR-1 (norma regulamentadora 1 do Programa de Gerenciamento de Riscos, e ferramenta de gestão dos riscos ocupacionais que identifica, analisa e controla os riscos aos quais os trabalhadores podem estar expostos a fim de prevenir acidentes e doenças relacionadas ao trabalho) veio com essa necessidade da atualização em que saúde mental se torna lei. As empresas que não se enquadrarem nessa atualização da NR 1 serão multadas. Isso me faz pensar que o comportamento mundial, ele se mobiliza para que se faça muito sobre a saúde mental do ser humano, porque as empresas precisarão fazer algo em prol da saúde mental.”

Pamela Magalhães: Importante que a psicologia deixe de ser associada aos distúrbios (Foto: Reprodução/Instagram)
Durante décadas, terapia foi associada a desequilíbrio mental — e o estigma, ainda que enfraquecido, persiste. Hoje, porém, começa a se consolidar outra percepção: a de que o acompanhamento psicológico não se resume a tratar transtornos. “Terapia é necessária e hoje em dia entende-se cada vez mais que a terapia é muito mais do que tratar qualquer transtorno, ela é preventiva e ela desenvolve o ser humano quanto ao autoconhecimento e inteligência emocional. Hoje, porém, apesar de tudo, há uma consciência de que só é possível lidar com os altos e baixos da vida uma vez que você se conhecer, uma vez que você se perceber, uma vez que você entender a necessidade desses pilares de autoconhecimento, inteligência emocional, que são os elementos sustentadores do seu equilíbrio emocional.”
Esse movimento de abertura, no entanto, convive com outro fenômeno: a idealização quase religiosa do psicólogo. Coloca-se o profissional num pedestal, como se fosse um ser impermeável às imperfeições humanas. “As pessoas desumanizam um pouco o profissional psicólogo, como se ele não pudesse estar de sunga na praia, não pudesse estar bebendo ou fazendo qualquer coisa que qualquer um pode fazer. Há uma necessidade de idealização e projeção sobre alguém que possa nos guiar, que possa nos cuidar, que possa nos amparar”.
“É como se aquela pessoa que nós elegemos como alguém, que nós projetamos tantas coisas, tantas possibilidades e que entendemos que aquela pessoa é a resolutiva, é aquela pessoa que vai apontar, que vai resolver, que vai cuidar, que vai fazer, ela tem que ser perfeita, ela tem que ser, é, como fala, despida de qualquer tipo de condutas ou características que a humanizassem. Então eu preciso estar idolatrando e tornando essa pessoa algo completamente distante daquilo que eu entendo que é mundano, daquilo que eu entendo que se aproxima a mim, para que ela seja então conservada daquela forma. Isso acontece também com professores, que a gente começa a idealizar. Isso acontece com psicólogos, com médicos, porque na verdade tudo que eu quero é que essa pessoa corresponda às minhas fantasias, às minhas projeções e idealizações e que de alguma forma não quebre com as expectativas que criei sobre ela.”
Para Pâmela, reconhecer a humanidade de quem está do outro lado do divã é parte do processo terapêutico. “É importante, mesmo com distanciamento, o paciente saber que a psicóloga também namora, tem as questões dela. Isso de alguma forma pode quebrar muito com aquilo que eu idealizei, mas na minha opinião, claro que conservando o necessário do distanciamento que promova a continuidade do vínculo, que conserve esse vínculo psicólogo e paciente, conservando esse distanciamento para permanecer esse vínculo protegido, para mim é fundamental a humanização. Porque isso faz com que eu me aproxime mais do profissional no sentido de um vínculo verdadeiro, de um vínculo mais concreto, porque se ficar algo muito distante, talvez eu nunca faça a terapia de fato.”
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