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Protagonista de “Black Wake”, Nana Gouvêa fala sobre novo trabalho e lembra passado de sex symbol: “Não foi questão de escolha, mas de oportunidade”

Em entrevista exclusiva ao HT, ela falou sobre o sexismo na indústria cinematográfica americana: "É real que existem muito mais protagonistas masculinos que femininos, como também mais diretores e autores homens que mulheres"

Publicado em 16/10/2015 | Por Lucas Rezende

Quando Nana Gouvêa, hoje com 40 anos, foi convidada para a “Banheira do Gugu”, onde famosos vestindo biquínis minúsculos e sungas de praia disputavam, ao vivo, quem conseguia pegar mais sabonetes numa piscina, ela teve de escolher entre mostrar o corpo no SBT ou seguir a carreira de atriz no elenco de apoio de “Malhação”. Olhando para trás, já sabemos a decisão. Mas o motivo ela contou para HT em entrevista inédita e exclusiva: “Optei pela banheira, porque me pagava por domingo o mesma salário que a Rede Globo me pagaria por mês, trabalhando seis dias por semana”.

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Hoje morando nos Estados Unidos, onde estudou inglês e interpretação, ela “definitivamente”, não se considera mais um símbolo sexual. Também pudera. É a protagonista de “Black Wake”, longa metragem de terror dirigido por Jeremiah Kipp que estreia nos cinemas americanos em 2016. Se para alguns a posição em que está é uma surpresa, para ela era questão de tempo. “Sempre vou buscar por trabalho que esteja disponível no mercado. E se não tiver eu o crio, se eu não estiver preparada para o trabalho eu me preparo”, falou. Alguns vídeos com cenas não finalizadas do filme chegaram ao Brasil, o que fez a divulgação não oficial espalhar por aqui em tom de humor e chacota.

A culpa? Da mídia. “O grande erro da imprensa brasileira é que copiam qualquer coisa que lhes interessem das postagens em mídias sociais dos artistas e transformam isso em notícia. O que obviamente não é, e gera confusão”, atacou Nana. Diz ela, que participou “de fases do Brasil que foram marcantes” e viveu “os melhores momentos delas”. Nessa entrevista, Nana mostra traquejo, conhecimento de sua área e orgulho de seu passado, que ela, aliás, não apagaria. “Eu vivi de acordo com o momento. Quando me mudei de Uberlândia para o Rio, eu precisava desesperadamente de trabalho e aquelas foram as portas que se abriram pra mim. Não foi uma questão de escolha, mas de oportunidade”. Nana sabe jogar o jogo e abaixo vocês entendem o motivo.

HT: Nesses quatro anos de preparação em Nova York, onde estudou, que cursos fez, como se preparou para a carreira de atriz?

NG: Primeiro me formei em inglês numa escola pra estrangeiros. Depois estudei Meisner Technique na escola The William Esper Studio com o professor Terry Knickerbocker. E por fim Melt & Breath, Accent Reduction e American Neutral Speech com Gail Bell, os quais continuo estudando.

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HT: Como você já disse em entrevista, tecnicamente, é sua estreia em um longa. E logo como protagonista e no cinema americano. Por que acha que teve essa chance nos Estados Unidos, que é um mercado muito mais disputado, e não no Brasil, sua terra natal?

NG: Não é uma questão de terra natal ou não. A questão é que onde quer que eu more, independente de onde quer que tenha nascido, vou sempre buscar por trabalho que esteja disponível no mercado e se não tiver eu o crio, se eu não estiver preparada pra o trabalho, eu me preparo. Essa é a minha natureza e o rumo natural das coisas. Me sinto pronta para ser protagonista. Acho que comecei fazendo cinema aqui por uma questão de mercado. Aqui faz-se muito mais cinema que TV, ao contrário do Brasil. Minha primeira novela foi em 2001 e de lá, até o momento que me mudei pra os EUA, eu sempre trabalhei para a Globo e nunca passei um ano sequer sem atuar para alguma produção da casa. Minha carreira segue um processo muito natural de crescimento a cada trabalho. Ao invés de começar logo de cara como protagonista, eu comecei devagar, humildemente, e fui crescendo aos poucos, com cautela e o fato de eu me tornar protagonista neste momento faz parte desse processo.

HT: “Black Wake” é de terror, suspense, mas a divulgação que chegou ao Brasil veio com tom de humor, chacota. A que atribui isso?

NG: Não foi feita nenhuma divulgação do filme. Não há o que julgar. No máximo o que eu postei no meu Facebook , Instagram ou os dois vídeos que postamos no Youtube, que são apenas fotos de backstage e um apanhado de cenas que colamos juntas apenas como registro, algumas daquelas cenas nem sequer farão parte do filme, não entrarão na edição final. Nada daquilo é produto final. O grande erro da imprensa brasileira é que copiam qualquer coisa que lhes interessem das postagens em mídias sociais dos artistas e transformam isso em notícia. O que obviamente não é, e gera confusão. No momento adequado, com produto finalizado, tratado, com efeitos especiais e tudo mais que tem direito, faremos o trabalho de divulgação.Todo o resto é especulação.

HT: Você já disse que há um estudo para trazer o filme para o Brasil. Agora, em outubro, a que pé anda essa conversa?

NG: A conversa de distribuição é em nível mundial e está em processo bastante avançado, mas não finalizado. Nossa primeira preocupação no momento é em finalizar o produto. Um passo de cada vez.

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HT: Emma Watson e a Meryl Streep deram declarações de tom feminista à imprensa,  questionando por que as mulheres não são tão protagonistas como os homens em Hollywood e por que não ganham o mesmo salário. O que você compartilha desse discurso? E o que rejeita?

NG: É real que existem muito mais protagonistas masculinos que femininos, como também mais diretores e autores homens que mulheres. Os salários são geralmente maiores para os homens, mas nem sempre. No caso do filme “Annie”, do Will Guck, Cameron Diaz recebeu três vezes mais que o Jamie Foxx. Acho que a arte perde por não ter o mesmo espaço de expressão para nós mulheres, que também queremos contar nossas histórias e temos muito a contribuir nesse processo. Fatos à parte, não me importa em absolutamente nada o quanto os meus colegas de trabalho ganham ou deixam de ganhar, sejam eles homens ou mulheres. Isso em nada mudaria a vida, o que realmente me importa é o quanto eu ganho e a partir do momento em que eu concordo com determinado valor, me considero na obrigação de fazer o melhor trabalho possível e é o que faço. Meu pai já dizia: ‘Combinado não sai caro’. E eu completo: ‘Também não é barato’. Tratou? Então cumpra respeitosamente.

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HT: Ser um símbolo sexual te incomoda atualmente? 

NG: Definitivamente não. Mas também não me considero um.

HT: Se pudesse voltar no tempo, teria trilhado outro caminho à fama que não seja com revistas masculinas e com a banheira do Gugu, por exemplo? Por que?

HT: Não. Eu vivi de acordo com o momento. Quando me mudei de Uberlândia (MG) para o Rio, eu precisava desesperadamente de trabalho e essas foram as portas que se abriram para mim. Não foi uma questão de escolha, mas de oportunidade. Eu era muita menina, tinha apenas 19 anos e fiz trabalhos compatíveis à minha idade, capacidade no momento e que me pagassem de forma tal que eu conseguisse me autosustentar e sustentar minhas filhas. Os trabalhos para época e para minha mentalidade de então eram muito bons. Posar para a Revista Playboy significava muito, as mulheres mais expressivas do país passavam por ali e somente elas, de atrizes a atletas a dançarinas e socialites,fazia parte do glamour da época.

HT: Mas e a banheira do Gugu?

NG: Esse também foi um trabalho que marcou época. Me lembro que era um quadro disputadíssimo onde garotas do Brasil inteiro queriam participar, assim como os convidados. Era de audiência absurda que derrubava a Globo numa época em que a emissora detinha quase que unanimidade do Ibope nacional. E fui titular do quadro por dois anos. Só tenho do que me orgulhar e agradecer. Quando fui convidada para o quadro da “Banheira do Gugu”, na mesma época, fui convidada para o elenco de apoio de “Malhação” pelo então produtor de elenco Luiz Antonio Rocha. Optei pela “Banheira” porque me pagava por domingo o mesma salário que a Globo me pagaria por mês, trabalhando seis dias por semana. Não me arrependo, o fiz porque precisava ter feito para garantir o sustento meu e das minhas filhas. E Deus me abençoou e vem me abençoando por isso.

HT: E ainda tem o Carnaval….

NG: Sabidamente uma das maiores expressões culturais brasileiras. O que também só tenho boas lembranças. Fui Rainha de Bateria de escolas que eu amava como Caprichosos de Pilares. Era tratada com muito carinho e respeito, tinha salário, segurança, fantasia paga pela escola, assistentes, credencias para mim, meus ajudantes, motorista, o que hoje em dia seria inviável. Então mais uma vez repito: considero que participei de fases do Brasil que foram marcantes e vivi os melhores momentos delas. Acho que tudo foi válido como experiência e me ajudou muito em cada momento vivido. Tudo colaborou para que eu me torna-se a mulher que sou hoje.

HT: Mudaria se pudesse voltar no tempo?

NG: É claro que eu não voltaria ao passado, o que passou, passou e hoje vivo num universo totalmente diferente.  Não só o mundo evoluiu, como a minha vida mudou muito e eu mudei muito também. Estou em constante processo de evolução. Vivo um dia de cada vez, e vou abraçando as oportunidades que aparecem tentando sempre fazer as melhores escolhas dentro das minhas possibilidades e dando o melhor de mim. Assim sigo.

HT: A Playboy americana anunciou que não publicará mais fotos de mulheres nuas, apenas sensuais. O que acha dessa mudança editorial, digamos, trilhando um rumo mais pudico?

NG: Hugh Hefner sempre foi um homem à frente de seu tempo, um visionário. Isso é indiscutível. Acho essa mudança muito inteligente. Ele claramente está acompanhando as mudanças do mercado editorial para garantir o bom rendimento dos seus negócios. A internet tornou o mercado de revistas masculinas inviável. Mas as matérias, o conteúdo inteligente e dinâmico da Playboy ainda são de alta qualidade e na minha opinião há sim mercado para eles. Bato palmas ao Hugh Hefner. Acertou mais uma vez.

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