*Por Brunna Condini
Preta Gil se despediu do mundo no dia 20 de julho de 2025, mas o que construiu com sua voz, presença e coragem permanece ecoando onde importa: na arte, na cultura e no imaginário coletivo de quem entendeu que viver é, antes de tudo, um ato político. Filha de um dos maiores nomes da música brasileira, Gilberto Gil, com Sandra Gadelha, a ‘Drão’ da música que nos arrebata até hoje; ela poderia ter seguido o caminho da reverência passiva. Mas escolheu ser barulho. E que bom. Porque onde havia silêncio ou julgamento, Preta chegou com afeto e autenticidade. Fez da própria vida palco, trincheira e espelho para outras mulheres, especialmente aquelas que não se viam nos padrões impostos. Aliás, Preta sempre foi seu próprio padrão. Viva, Preta!
Em um país onde a mulher é vigiada e constantemente silenciada, Preta foi contra todos os avisos: usou o corpo com liberdade, a voz com potência e o nome com orgulho. Cantou sobre amor, sobre o própria existência, sobre liberdade sexual, sobre respeito, sobre a beleza de ser quem se é, sem concessões.
Sua música era, sim, pop. Mas nunca rasa. Estava impregnada de mensagens de autoestima, aceitação e empoderamento. Ao se afirmar publicamente como aliada da causa LGBTQIAPN+ , ao levantar bandeiras sem se esconder atrás de discursos amenos, Preta assumiu um papel de liderança afetiva em um Brasil que ainda tropeça na intolerância.
Mais do que artista, foi símbolo de resistência. Enfrentou o câncer com a mesma coragem com que enfrentou o preconceito: sem esconder a dor, mas sem abrir mão da alegria. Compartilhou sua luta de forma pública, honesta e transformadora, mostrando que vulnerabilidade também é força. Que mesmo os dias difíceis podem ser atravessados com humor, dignidade e fé na cura, do corpo e do mundo.
Preta nos ensinou que o amor-próprio não nasce pronto, mas se constrói todos os dias, com luta, com coragem e com generosidade. Que estar viva é um privilégio, mas também uma responsabilidade. E que, mesmo quando o tempo parece curto, é possível deixar um legado imenso. Hoje, o Brasil se despede de Preta Gil. Mas não daquilo que ela provocou, inspirou, libertou. Porque sua trajetória não foi só sobre música. Foi sobre se levantar inteira, diante de um mundo que sempre quis nos ver pela metade.
E é por isso que, mesmo em luto, também celebramos. Porque Preta vive. No direito de cada mulher de ocupar seu corpo com orgulho. No sorriso de cada pessoa LGBTQIA+ que se sentiu acolhida por sua presença. No som que ainda ecoa, afirmando, com doçura e coragem: “Sou dessas que não se cala. Que ama, que dança, que luta. Que vive”.

Preta Gil, o que aprendemos com sua trajetória: “Sou dessas que não se cala. Que ama, que dança, que luta. Que vive” (Foto: Divulgação/Globo)
Um alerta e uma lembrança que o melhor lugar do mundo é aqui e agora
Digo isso também de um lugar profundamente pessoal. Há um ano, perdi minha tia querida, Silvia Paula Câmara, para um câncer. Quatro anos antes, minha cunhada, Ana Paula Peres, também partiu pela mesma doença. E há sete anos, acompanho de perto histórias de quem vive o impacto do diagnóstico oncológico, facilitando oficinas de escrita criativa no Instituto Zencancer, criado pela incrível Luciana Lobo, que idealizou o projeto durante um tratamento para um câncer de mama. São vivências que me atravessam como mulher, jornalista e cidadã. Preta nos lembrou, mais uma vez, que o câncer está entre nós. Que precisamos estar atentos, fortes, e ser rede de apoio para quem é tocado por essa realidade. Porque a luta de um corpo é, muitas vezes, a luta de todos nós.
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