*por Vítor Antunes
No início deste mês, o ator Carmo Dalla Vecchia voltou a falar publicamente sobre a relação que mantém com o consumo de pornografia. Em entrevista ao jornal O Globo, ele afirmou lidar hoje com o tema “de maneira mais natural” e declarou não ver problemas em continuar assistindo a conteúdo adulto. A fala ecoa um episódio de 2024, quando o ator revelou ter se submetido a sessões de terapia sexual para enfrentar aquilo que descreveu como uma dependência. Mais recentemente, também entrou em cena o livre acesso a pornografia nas redes sociais. O X (ex-Twitter), por exemplo, não estabelece nenhum filtro sobre o livre acesso esse conteúdo.
O assunto pornografia, apesar de envolto em tabus, tem ganhado espaço no debate público — seja por meio de celebridades que compartilham experiências pessoais, seja entre especialistas que tentam decifrar os contornos de um fenômeno ainda pouco consensual. Há terapeutas que defendem a existência do chamado “vício em pornografia”; outros preferem falar em compulsão ou hábito excessivo, evitando enquadrá-lo em categorias clínicas rígidas.
A terapeuta Pamella Magalhães (CRP/SP 06/88376), especialista em relacionamentos e sexualidade, famosa por ter 2,4 milhões de seguidores e autora de livros como “Se Amar, Amar e Ser Amado” e “Bem Me Quero“, explica o fenômeno sob o prisma do voyeurismo contemporâneo, fortemente mediado por telas: “Eu acredito que esse mecanismo do voyeurismo, de você ficar passivamente assistindo, tem se tornado um comportamento. Hoje as pessoas ficam horas vendo redes sociais. Nesse tempo, elas estão em mil coisas, desconectadas delas mesmas. Então, obviamente, assistir à pornografia torna-se um vício, porque você está vendo o prazer do outro, vendo o outro fazer coisas que você faria ou que nunca faria, ou que gostaria de fazer. Vendo algo que desperta desejo, libido, mexe com hormônios, com a sensação de saciedade, com fatores fisiológicos e emocionais. É como se você estivesse num lugar protegido, em que faz sexo no sentido da comunicação atual do mundo. Você está ali assistindo, com a sensação de participar daquilo sem de fato executar.”

Pamella estabelece um paralelo entre o voyeurismo e a pornografia (Foto: Divulgação)
Para a terapeuta, essa passividade mediada cria um tipo de zona de conforto: “Quando se executa o sexo, há de se entrar em contato com muitas coisas. Não só com o envolvimento — ou não — afetivo com a pessoa, mas também com a sua própria performance. Será que eu vou corresponder tanto? Será que vou conseguir ter essa potência? Será que vou satisfazer meu parceiro ou parceira? Essa posição do voyeur, da pessoa passiva que assiste, tem sido cada vez mais alimentada. A pornografia cresce, primeiro por esse núcleo de carência: as pessoas buscam meios de saciar desejos, de nutrir um vazio existencial, mas ao mesmo tempo têm medo de se frustrar, medo de se envolver, medo de viver o real e de lidar com situações para as quais acham que não têm recursos — ou mesmo sentem preguiça de tentar.”
Pamela acrescenta que essa lógica de consumo cria uma experiência “protegida, porém sem limites”:
Como não se vive de forma real, não se está no exercício físico da coisa, facilmente pode-se perder a mão – Pamella Magalhães
Carmo Dalla Vecchia não é o único a abordar o tema de maneira franca. Em entrevistas concedidas entre 2023 e 2024 à revista Quem, o modelo e ator Lucas Malvacini relatou mudanças radicais no estilo de vida, que incluíram períodos prolongados sem pornografia. “Faço meditação, atividade física, boa alimentação, leituras, jejuns de pornografia e alimentar. Também tomo banhos frios — ducha fria todos os dias do ano — e zero álcool. Estou há nove meses sem consumir álcool”, contou. Segundo ele, trata-se de uma “mudança de filosofia de vida”, compartilhada com frequência em seu perfil no Instagram.
As experiências individuais ecoam em números significativos. No Reino Unido, segundo uma pesquisa divulgada pela BBC, 29% dos adultos acessaram pornografia online apenas no mês de maio de 2024, de acordo com o relatório Online Nation 2024, elaborado pelo órgão regulador Ofcom. No Brasil, um estudo conduzido pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP apontou que os brasileiros começam a consumir pornografia, em média, aos 12 anos. A pesquisa, com 3.650 participantes e idade média de 45 anos, mostrou ainda que os entrevistados assistiram a pornografia de duas a três vezes por semana, ao longo dos 12 meses anteriores.

Carmo Dalla Vecchia falou sobre consumir pornografia (Foto: Arquivo/Site HT)
POLÊMICA
Em agosto de 2024, o influenciador Gustavo Tubarão decidiu tratar um tema pouco habitual no universo das celebridades digitais: o vício em pornografia. Aos 24 anos, ele publicou um vídeo nas redes sociais contando aos mais de 11 milhões de seguidores que havia tido uma recaída após permanecer um ano e meio sem assistir a vídeos de conteúdo sexual. O relato, que combinava confissão e autoanálise, teve forte repercussão — não apenas pelo alcance do influenciador, mas também por tocar em uma questão cada vez mais presente no debate público: o lugar da pornografia na vida contemporânea.
Gustavo não está sozinho. O ator Terry Crews, conhecido pelas séries Todo Mundo Odeia o Chris e Brooklyn Nine-Nine, tornou-se uma das vozes mais francas sobre o tema em Hollywood. “Eu me sentia um amontoado de culpa ambulante”, disse ao comentar seu vício em pornografia e as traições que marcaram o início do relacionamento com Rebecca King, sua atual esposa.
Outro caso notório é o do rapper Kanye West (ex-marido de Kim Kardashian), que assumiu publicamente, em 2022, ter desenvolvido um vício em pornografia depois do casamento. Segundo ele, o problema foi um dos fatores que contribuíram para o fim da relação — um dado que, vindo de um dos artistas mais midiáticos do planeta, intensificou a visibilidade do tema.

Gustavo Tubarão assumiu ter vício em pornografia (Foto: Reprodução/SBT)
As consequências fisiológicas e psicológicas desse consumo também vêm sendo investigadas. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná descobriram que pessoas que consomem pornografia regularmente e tentam interromper o hábito de forma abrupta podem enfrentar sintomas semelhantes aos de abstinência de drogas: dores de cabeça, calafrios e náuseas. O estudo, publicado no Journal of Addiction Medicine em 2 de outubro, analisou o chamado Uso Problemático de Pornografia (Problematic Pornography Use – PPU), caracterizado pela compulsão em assistir a conteúdo pornográfico, mesmo diante de prejuízos emocionais ou sociais.
O vício em pornografia já foi associado a disfunções sexuais — como a disfunção erétil — e a problemas de saúde mental, incluindo depressão e ansiedade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a PPU como um transtorno de comportamento sexual compulsivo. No entanto, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) ainda não reconhece oficialmente a pornografia como objeto de vício, o que gera debates entre especialistas e pesquisadores sobre critérios diagnósticos e terminologia.
Paralelamente às pesquisas e aos testemunhos pessoais, surgem iniciativas coletivas que tentam propor uma pausa no ciclo de estímulos. Uma delas é a campanha virtual “No Fap September”, que circula principalmente no X (antigo Twitter). Todos os meses de setembro, milhares de usuários se propõem — entre juras solenes e apostas jocosas — a evitar a masturbação e o consumo de pornografia por 30 dias. O movimento nasceu em fóruns online por volta de 2011, com um caráter inicialmente ascético e comunitário. Com o tempo, transformou-se em desafio coletivo e, muitas vezes, em meme, diluindo parte de seu propósito original.
A exposição pública desses relatos — vindos de atores, músicos e influenciadores — e o surgimento de campanhas de abstinência revelam um duplo movimento característico do nosso tempo: de um lado, a tentativa de criar novas formas de autocontrole em um ambiente digital saturado de estímulos; de outro, a dificuldade de traçar fronteiras claras entre prazer, hábito e dependência. Entre confissões pessoais, dados de pesquisa e debates clínicos, a pornografia deixa de ser apenas um tema íntimo para se instalar no coração das conversas culturais e tecnológicas contemporâneas — um espelho, muitas vezes incômodo, das formas atuais de desejar.
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