Padre Reginaldo Manzotti desabafa: “O mal que assola o Brasil é a indiferença à dor do outro, à verdade e à justiça”


Hoje, o sacerdote chega ao Rio de Janeiro com a primeira edição do ‘Evangelizar É Preciso’, maior evento Católico do Brasil, neste sábado, no Maracanãzinho’. O público poderá adquirir seu novo livro ‘Maria, mais forte que o mal’. O padre e comunicador, que reúne multidões em seus encontros por todo o país, bate um papo exclusivo com site HT sobre fé, acessibilidade, intolerância, saúde mental e o papel social, inclusive crítico, da Igreja em tempos de desamparo coletivo. “É muito triste e preocupante ver o Evangelho sendo usado para propagar discursos de ódio, especialmente quando isso acontece em nome da fé. Acredito que a Igreja tem feito esforços importantes para se renovar e responder com mais clareza e coragem aos preconceitos contra a orientação sexual, a xenofobia, o racismo, a violência e a desigualdade. Claro que ainda há muito caminho a ser percorrido, afinal, somos uma Igreja composta por seres humanos em constante conversão.

*Por Brunna Condini

Padre Reginaldo Manzotti chega em solo carioca com a primeira edição de ‘Evangelizar É Preciso’, maior evento católico do Brasil, que acontece neste sábado (26) no Maracanãzinho, com entrada gratuita mediante inscrição. Com o tema ‘Livrai-nos do mal’, a iniciativa promete mais do que uma celebração de fé: será um encontro de música, oração, solidariedade e inclusão. Durante o evento, o público poderá adquirir o novo livro do sacerdote, que celebra três décadas movido pela fé: ‘Maria, mais forte que o mal’, lançado pela Editora Petra em março deste ano. “Esse projeto é profundamente atual e necessário. Vivemos tempos desafiadores, de muitas dores, inseguranças e incertezas. Quando escolhemos esse tema para o evento no Rio de Janeiro, fomos movidos por uma inspiração espiritual que reconhece o quanto a humanidade clama por libertação, não apenas de males visíveis, como a violência e a desigualdade, mas também de males invisíveis, como o medo, a desesperança e o distanciamento de Deus”, diz. Ele também fala sobre o novo livro, que reflete sobre o papel da Virgem Maria nas lutas espirituais de cada um: “Maria é modelo de fortaleza e confiança”.

À frente da missão, o padre e comunicador, que reúne multidões em seus encontros por todo o país, bate um papo exclusivo com site HT sobre fé, acessibilidade, intolerância, saúde mental e o papel social da Igreja em tempos de desamparo coletivo. E deixa claro que a religião não é um lugar de julgamento, mas de transformação:

O maior mal que assola o Brasil hoje é a indiferença à dor do outro, à verdade, à justiça e até mesmo à fé – Padre Reginaldo Manzotti

Padre Reginaldo Manzotti comanda a primeira edição do 'Evangelizar É Preciso' no Rio de Janeiro, dia 26 de julho, no Maracanãzinho, com o tema 'Livrai-nos do mal' (Foto: Felipe Gusso)

Padre Reginaldo Manzotti comanda a primeira edição do ‘Evangelizar É Preciso’ no Rio de Janeiro, dia 26 de julho, no Maracanãzinho, com o tema ‘Livrai-nos do mal’ (Foto: Felipe Gusso)

A força de Deus

Diante de guerras, catástrofes climáticas e polarizações extremas, Manzotti não hesita em afirmar: “Deus não está ausente. Ele está presente na dor, na coragem de quem luta pela paz, na esperança que resiste.” E continua: “A fé é esse exercício diário de confiar mesmo quando tudo parece ruir. É olhar para Jesus na cruz e ver que Ele não desistiu da humanidade. Manter a fé nesses tempos difíceis é um exercício diário de confiança e entrega. Por isso, convido todos a não se deixarem vencer pelo medo ou pelo desânimo”.

Diante do aumento dos discursos de ódio e da intolerância, inclusive em nome da fé, Padre Manzotti faz um alerta contundente: “É muito triste e preocupante ver o Evangelho sendo usado para propagar discursos de ódio, especialmente quando isso acontece em nome da fé”. Para ele, a mensagem de Jesus Cristo é, antes de tudo, de amor, misericórdia, perdão e reconciliação, e qualquer uso distorcido da fé para justificar exclusão, preconceito ou violência, é um grave equívoco. “O cristianismo nos chama a sermos construtores da paz, a acolher o outro com respeito e dignidade, independentemente de suas diferenças”, afirma. E conclui com a lembrança essencial deixada por Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

O sacerdote frisa: “A fé é esse exercício diário de confiar mesmo quando tudo parece ruir" (Foto: Divulgação)

O sacerdote frisa: “A fé é esse exercício diário de confiar mesmo quando tudo parece ruir” (Foto: Divulgação)

Renovar a Igreja com coragem

Questionado sobre o posicionamento da Igreja diante de dilemas contemporâneos, como preconceitos contra orientação sexual, racismo e desigualdade, Manzotti reconhece que ainda há muito a avançar, mas celebra os passos dados. “Acredito que a Igreja tem feito esforços importantes para se renovar e responder com mais clareza e coragem aos preconceitos contra a orientação sexual, a xenofobia, o racismo, a violência e a desigualdade. Claro que ainda há muito caminho a ser percorrido, afinal, somos uma Igreja composta por seres humanos em constante conversão. Mas o essencial é que estamos sendo chamados a viver o Evangelho com mais autenticidade, misericórdia e compaixão. Quando a fé se traduz em respeito, justiça e amor ao próximo, então estamos realmente sendo sal da terra e luz do mundo. Esse é o caminho que acredito, e é esse o chamado que devemos viver com coragem”. E completa:

O Papa tem nos lembrado que a Igreja deve ser um hospital de campanha, onde todos são acolhidos com amor e dignidade. Isso significa não fechar os olhos para as feridas sociais, mas enfrentá-las com o olhar de Cristo que jamais excluiu, mas sempre se aproximou dos marginalizados, dos que sofrem, dos diferentes – Padre Reginaldo Manzotti

"A Igreja tem feito esforços para se renovar e responder com mais clareza e coragem aos dilemas contemporâneos, como os preconceitos e a desigualdade" (Foto: Felipe Gusso)

“A Igreja tem feito esforços para se renovar e responder com mais clareza e coragem aos dilemas contemporâneos, como os preconceitos e a desigualdade” (Foto: Felipe Gusso)

Fé e consciência crítica

Para o sacerdote, unir espiritualidade e pensamento crítico é urgente. “A fé não anula a razão, muito pelo contrário: ela a ilumina. Deus nos deu a inteligência e o discernimento como dons preciosos, e precisamos usá-los com responsabilidade, inclusive para refletir sobre os rumos do nosso país e da sociedade em que vivemos. Jesus mesmo nos disse: “Sede simples como as pombas e prudentes como as serpentes” (Mt 10,16). Ou seja, precisamos ter um coração puro, mas também uma mente desperta. Fé e razão caminham juntas quando buscamos a verdade com humildade”. E pontua:

 Ser cristão não significa ser alienado. O Evangelho nos convida a transformar o mundo, e isso passa por uma consciência crítica diante das realidades sociais, políticas e econômicas. A fé deve nos mover à ação, mas com equilíbrio, caridade e responsabilidade. Fanatismo não é fé verdadeira, é fechamento. A fé autêntica liberta, amplia horizontes, promove o diálogo e constrói pontes – Padre Reginaldo Manzotti

Uma esperança chamada Brasil

Sobre o futuro espiritual do país, ele é esperançoso: “Acredito em um Brasil mais fraterno, mais justo, mais voltado para Deus. Mesmo em meio às dores, o povo brasileiro é de fé, oração e solidariedade. Isso me emociona e me motiva a continuar evangelizando. Acredito que é possível transformar a realidade quando deixamos Deus agir, começando por nós mesmos”.

"Mesmo em meio às dores, o povo brasileiro é de fé, oração e solidariedade" (Divulgação)

“Mesmo em meio às dores, o povo brasileiro é de fé, oração e solidariedade” (Divulgação)

O evento

Mais do que um encontro de oração, o ‘Evangelizar É Preciso’ é pensado como uma experiência que integra fé, música, solidariedade e inclusão. Para Padre Reginaldo Manzotti, essa combinação é a própria essência do Evangelho vivido na prática. “Jesus não falava apenas ao intelecto das pessoas, mas também aos seus corações e às suas necessidades concretas. Ele curava, consolava, acolhia, partilhava. A Igreja, como continuadora da missão de Cristo, deve fazer o mesmo”, afirma.

Nesse espírito, as ações solidárias do evento, como a doação de alimentos e de sangue, ganham ainda mais importância. Segundo o sacerdote, esses gestos são expressões concretas do amor cristão em tempos de tanto individualismo. “Mais do que um gesto pontual, é um testemunho de que a fé precisa sair das palavras e se transformar em atitude. Ano após ano, mesmo em meio às dificuldades, as pessoas se engajam com generosidade. Isso mostra que o bem ainda fala mais alto”, destaca.

Neste ano, o evento também dá um passo importante no caminho da inclusão, com uma estrutura completa de acessibilidade. “É um gesto que vai muito além da logística: é um testemunho de que a Igreja quer ser casa para todos, especialmente para aqueles que, muitas vezes, se sentem excluídos ou invisibilizados pela sociedade”, afirma Manzotti, que salienta que a acessibilidade é afirmar o compromisso da fé com a dignidade humana.

“A missão da Igreja é formar corações sensíveis, provocar conversões, reacender a compaixão" (Divulgação)

“A missão da Igreja é formar corações sensíveis, provocar conversões, reacender a compaixão” (Divulgação)