*Por Brunna Condini
Em um mundo atravessado por guerras, violência, feminicídios, desafios estruturais profundos e medo coletivo que parece não dar trégua, a pergunta que ecoa — silenciosa ou desesperada — é antiga: como seguir quando tudo parece ruir? É nesse ponto que as falas do Padre Reginaldo Manzotti ganham tração. Com o lançamento do seu 29º livro, ‘Inabalável’, como ponto de partida para um debate mais profundo, ele afirma: “A fé não elimina o sofrimento, mas dá sentido a ele e nos ajuda a permanecer firmes, mesmo quando não entendemos o que estamos vivendo”.
Às vésperas da Páscoa, celebrada em 5 de abril, o discurso do sacerdote se ancora na ideia de recomeço, mas não como promessa fácil. “A mensagem da Páscoa é clara: a vida vence a morte, a luz vence as trevas e o amor vence o ódio. A ressurreição de Jesus Cristo nos lembra que nenhuma dor é definitiva e nenhuma noite é eterna. O mundo precisa redescobrir a esperança. Mesmo em meio às dificuldades, Deus continua fazendo novas todas as coisas. A Páscoa é um convite para recomeçar”.

Padre Reginaldo Manzotti lança novo livro e reúne fiéis no Maracanãzinho em encontro de fé, música e esperança às vésperas da Páscoa (Foto: Divulgação)
“Essa é uma das perguntas mais profundas da humanidade. A fé não oferece uma resposta simplista para o sofrimento. O que ela nos revela é que Deus não é indiferente à nossa dor. Na Bíblia vemos um Deus que caminha com seu povo e que, em Jesus Cristo, assume o próprio sofrimento humano. Deus não nos abandona. Muitas vezes não entendemos os acontecimentos, mas podemos confiar que Ele é capaz de transformar até mesmo a dor em caminho de crescimento, amadurecimento e esperança”, garante.
E se antes a fé era vivida majoritariamente no espaço físico, hoje ela também atravessa telas. Com mais de 22 milhões de seguidores em suas principais redes sociais (Facebook, Instagram, TikTok, X e YouTube), o padre reconhece o alcance, e a responsabilidade, desse novo território. “É um instrumento poderoso de evangelização. As redes sociais permitem que a mensagem do Evangelho chegue a lugares onde muitas vezes a Igreja não chegaria fisicamente. Mas o essencial permanece o mesmo: anunciar o amor de Deus”. E completa:
O ambiente digital deve ser também um espaço de encontro, de escuta e de acolhimento. Precisamos usar essas ferramentas com responsabilidade e criatividade para levar esperança, fé e valores cristãos para o coração das pessoas – Padre Reginaldo Manzotti

Padre Manzotti: “Deus não nos abandona. Ele é capaz de transformar até mesmo a dor em caminho de crescimento, amadurecimento e esperança” (Foto: Felipe Gusso)
Por mais esperança
A provocação da permanência da fé em meio às tribulações, se amplia quando o tema é o estado atual do mundo. Para Manzotti, não se trata de negar a realidade, mas de agir dentro dela. Ao levar em consideração que o Brasil é frequentemente citado como um dos países mais depressivos e ansiosos do mundo, ocupando o 5º lugar no ranking mundial de depressão segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS); o que a fé cristã, por exemplo, pode oferecer para que as pessoas não se desesperem com suas realidades?
Oferece algo fundamental: a esperança. Não uma esperança ingênua, mas uma que nasce da certeza de que o amor é mais forte do que o ódio. O Evangelho nos chama a sermos construtores da paz no cotidiano, começando pelas nossas atitudes, pela forma como tratamos o próximo e pela promoção da dignidade humana. Quando cada pessoa decide viver o amor, o perdão e a solidariedade, já estamos transformando o mundo ao nosso redor – Padre Reginaldo Manzotti
Com mais de três décadas de sacerdócio, acompanhando histórias de perdas e reconstrução, ele não fala de um lugar abstrato. Fala da sua prática, e da repetição. “O que sustenta a minha própria fé é a certeza da presença de Deus na minha vida. Ao longo do meu ministério, testemunhei inúmeros milagres de fé, de superação e de transformação. Isso fortalece profundamente o coração de um sacerdote”. E talvez seja justamente nessa insistência que está o ponto mais incômodo, e mais humano, da sua mensagem: continuar, mesmo sem garantias: “Continuar acreditando mesmo quando o coração está ferido, é um ato de entrega.”
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