*Por Brunna Condini
Otaviano Costa transformou 35 anos de palco, câmera e microfone em método, e em reposicionamento. Em ‘Levante-se e Brilhe’, seu primeiro curso de comunicação e oratória, o apresentador aposta na coragem cotidiana de falar sem virar refém de fórmulas, ‘catequeses’ e neuroses de postura vendidas como sucesso nas redes. “Comunicação não é sobre você, é sobre o outro, sobre escuta”, resume. Lançada on-line em parceria com a Vox2you e a Cogna Educação, a formação reúne sete módulos, encontros ao vivo e um princípio central: potencializar a melhor versão de cada pessoa com verdade, não com roteiros engessados. “Venho de uma família de educadores, marcada sobretudo pela minha avó, a professora Edna Affi, referência na educação de Cuiabá. Ou eu virava artista ou professor. Sempre tive a vontade de investir em educação e agora encontrei o momento e os parceiros para isso”.
Esse movimento como mentor caminha lado a lado com decisões recentes de carreira. A saída da Band (ele deixou o comando do ‘Melhor da Noite’ em setembro, seis meses após a estreia do programa); segundo Otaviano, foi menos ruptura por insatisfação e mais consequência da maturidade, uma escolha feita “com transparência e respeito” diante do custo físico, emocional e familiar da rotina. Depois da cirurgia no coração (em 2024 foi submetido a uma operação devido a um aneurisma da aorta), e da ampliação dos seus negócios, ele passou a avaliar cada projeto como um business plan: o que isso exige em curto, médio e longo prazo.
“Hoje eu preciso equilibrar resultado com prazer”, diz, acrescentando: “O palco me alimenta, a TV é sagrada para mim. Mas não posso deixar o garoto de 15 anos de Cuiabá, que sonhava com a televisão, mandar nesse jogo”. O que mudou, segundo ele, foi a ‘régua’ que mede. “Avalio muito hoje o que cada projeto vai demandar de mim. A rotina do ‘Melhor da Noite’, com deslocamentos constantes para São Paulo e noites que avançavam madrugada adentro, passou a pesar. “Eu dormia todo dia duas e meia da manhã. Não é saudável para ninguém, imagina pra quem precisa estar mais atento do que nunca à saúde e à família”.

“O palco me alimenta, a TV é sagrada pra mim”. Otaviano Costa transforma 35 anos de comunicação em método e propósito (Foto: Divulgação)
Ele conta que aconteceram tentativas de ajuste com a emissora, feitas “com todo o carinho do mundo”, mas que o desenho seguiu exigente demais para o seu momento. “Entendendo que não era assim que eu queria e não era assim que poderia ficar”. Otaviano conta que o processo foi honesto. “Eles entenderam completamente. As despedidas foram muito generosas e autênticas”. E a emoção foi inevitável ao deixar uma emissora que marcou sua trajetória: “Aquela casa foi fundamental para a minha carreira”, frisa o apresentador, que comandou o ‘Super Positivo’ (O+), de 1999 a 2001, após a saída de Luciano Huck. Sobre o futuro, ele deixa claro que não se trata de um adeus à TV aberta:
A televisão é muito apaixonante. Gosto de estar nos estúdios. Sou movido pelos prazeres, pela intuição, pela alegria de fazer, mas hoje percebo muito rapidamente se a conta fecha ou não – Otaviano Costa

“Hoje eu preciso equilibrar resultado com prazer” (Foto: Divulgação)
Se for para voltar à TV, Otaviano imagina algo popular, com gente, música e conversa:
Imagino um programa de auditório, de cara. Contato com o público. Eu sou muito da galera – Otaviano Costa
Ele se define hoje mais como criador do que apenas apresentador. “Estou na pele de um showrunner, produtor, empreendedor. Sou um ‘Gepeto’: crio meus próprios brinquedos, invisto e boto na rua”. E arremata com a síntese que orienta suas escolhas atuais: “Hoje sou o dono da minha ‘régua’. Se tiver um projeto que equilibre o prazer do menino com a maturidade do homem de 52 anos, saúde, família, dedicação, eu embarco. Sem dúvida”.
Legado
Otaviano fala rápido, pensa grande, e curiosamente, desacelera quando o assunto é o que realmente importa. No meio de uma maratona de compromissos, com a voz rouca e a cabeça a mil, ele não tenta parecer imune: admite ansiedade, insegurança e aquele “bonequinho do medo” que mora ali, de prontidão, como um aliado estratégico. É desse lugar, mais humano do que performático, que nasce seu curso ‘Levante-se e Brilhe’. Não como mais uma promessa de ‘chaves’ e ‘frases certas’, mas como reação direta ao que ele chama de uma indústria que amedronta quem já tem medo de abrir a boca. “Comecei a ver muito mais gente com medo de onde colocar o braço, as mãos, do que de falar com verdade”, diz, incomodado com a onda de especialistas que transformam a comunicação em um conjunto de regras.

“Se fosse imaginar um programa na Tv hoje, seria de auditório, de cara. Contato com o público. Eu sou muito da galera” (Foto: Reprodução/Instagram)
No curso, o apresentador vai compartilhar ferramentas tratando da voz, do corpo, dos vícios de linguagem, da presença; colocando a técnica como suporte, não como prisão. “Trago minha experiência e vamos continuar transformando a vida de outras pessoas, que veem na comunicação oratória uma ferramenta fundamental para a venda dos seus produtos, serviços, projetos, conexão com as pessoas e apresentação dos seus sonhos”. O método que ele chama de OC (suas iniciais) se apoia em três pilares — conhecimento, corpo e carisma — e parte de uma ideia que repete como mantra: “O seu conteúdo é o seu reino”. Em outras palavras: a sua voz não precisa caber em moldes, precisa existir, com autenticidade.
Porque, para Otaviano, levantar e brilhar não é sobre virar personagem. É sobre viver “de peito aberto”, expressão que ganhou outro peso depois da cirurgia no coração, quando ele se viu obrigado a encarar a pergunta definitiva: “Você viveu a vida de peito aberto?”. A partir dali, a comunicação deixou de ser apenas ferramenta de carreira e virou legado:
Vai com medo. Mas não deixe de fazer o que você mais quer fazer na vida – Otaviano Costa

“Venho de uma família de educadores. Ou eu virava artista ou professor” (Foto: Reprodução/Instagram)
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