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O Site HT conta tudo o que rolou no 4º Encontro Latino-americano de Feminismos: “Daremos voz às nossas mortas”

Durante o evento, mulheres presentes na luta feminista estiveram juntas debatendo sobre a realidade dos seus respectivos países: “Essa participação vai transformar o mundo”, afirmou Sônia Guajajara.

Publicado em 11/12/2018 | Por Leticia Sabbatini

Mulheres de toda a América Latina pensando juntas em poder, meio ambiente, economia e território. Esse foi o cenário que formou o 4º Encontro Latino-americano de Feminismos, que ocorreu do dia 7 a 10 de dezembro, em La Plata, Buenos Aires. O site HT não ficou de fora dessa luta e registrou todo o evento. Vem ver!

Organizado por diversos grupos e coletivos do Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Venezuela e Colômbia, o Encontro marcou o território na Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación de la Universidad Nacional de La Plata. Sendo hoje o único centro de estudos da Argentina que contém uma Direção de Políticas Feministas, o lugar já foi também um centro clandestino de detenção e tortura ativo na ditadura militar do país. Durante a abertura, que contou com nomes como Manuela d’ávilla e Jandira Feghali, foi discutida a importância do debate e reflexão em conjunto sobre as diferentes realidades nos países latino-americanos. “Por que a gente luta? Nós estamos sempre em movimento porque acreditamos que essa força vai um dia combater todas as formas de violência, todo o racismo e machismo que é jogado contra nossos corpos. Essa participação vai transformar o mundo, é a força das mulheres se conectando”, afirmou Sônia Guajajara, primeira mulher indígena a disputar em uma chapa presidencial, no Brasil.

No segundo dia do evento, temas como mulheres na ciência, políticas de gênero e feminismo popular lotaram as rodas de conversa, assim como as exposições fotográficas pelos corredores do local. Após a grande roda sobre o matriarcado, conversamos com Mônica Francisco, eleita deputada estadual do Rio de Janeiro, que falou sobre o Encontro como um espaço de renovação e reciprocidade. “Estamos ampliando, consolidando e fortalecendo as redes de resistência e solidariedade. Às vezes, essa caminhada é muito cansativa no sentido físico e emocional. Então, estar em espaços como esse oxigena a nossa luta e nos fortalece, é uma troca de energias e experiências. Nunca foi tão fundamental pensar os caminhos pelos quais o sistema de protagonismo feminino pode avançar”, explicou a deputada, que trabalhou com a vereadora Marielle Franco por anos. Há quase 9 meses sem respostas sobre o assassinato brutal da parlamentar, Mônica também comentou o difícil 14 de março: “Matando Marielle mandaram um recado para que os invisíveis continuassem sendo invisíveis. Só que na manhã do dia 15 de março nascia uma outra sociedade. A luta das mulheres foi incendiada pelo símbolo que se tornou Marielle Franco. Ela hoje é o símbolo da resistência daquelas que sangravam nos troncos, nas senzalas, nos navios negreiros. Nós temos um recado também: não daremos um passo atrás. Continuaremos marchando, daremos voz as nossas mortas, seremos a voz das nossas irmãs”.

Mulheres reunidas após um workshop de funk (Foto: Letícia Sabbatini)

Considerando também o aspecto tecnológico da atual sociedade, influenciadoras de sucesso foram convidadas a explicar os seus negócios, dando dicas a todas aquelas que desejam alavancar suas marcas e projetos pelas redes sociais. A modelo e militante do movimento Body Positive, Isabella Trad, conhecida por seu perfil @todebells no Instagram, comandou a discussão sobre o assunto e conversou com o site HT em seguida. “Eu vivia em uma bolha que só tratava de gordofobia e seus possíveis recortes, mas aqui eu estou tendo contato com pessoas e realidades diferentes. Chegar em um outro país e ter essa troca gigante de informações é surreal. Estamos nos conectando e tentando fortalecer umas às outras, trocando informações e conhecimentos. Uma puxa a outra e se eu puder ensinar o que eu sei para uma menina, estarei satisfeita”, admitiu Bells, que durante a roda de conversa incentivou brasileiras e argentinas a iniciarem os seus projetos, ainda que sejam muito arriscados ou pioneiros. A modelo, que insistiu na importância das parcerias colaborativas pelas redes sociais, saiu da conversa afirmando que manteria o contato com as meninas ali presentes, para ajuda-las.

O Encontro contou ainda com um parlamento feminista que uniu grandes nomes da política latino-americana como Constanza Schonhaut (CHI), Isa Penna (BRA), Natalia Bonavides (BRA), Estela Bezerra (BRA), Jandira Feghali (BRA), Romina del Pla (ARG), Monica Macha (ARG), Lucía Portos (ARG), Carol Vergolino (BRA), Monica Francisco (BRA), Andrea Conde (ARG), Beatriz Rocco (URU), Karina Oliva (CHI) e outras. A discussão se deu em torno da Campanha pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito pelo continente. A deputada federal Jandira Feghali, durante o parlamento, falou sobre a atual crise da sociedade brasileira. “Nós estamos em uma situação de grande risco com uma restrição democrática, com perseguição de militantes dos movimentos sociais e morte de ativistas dos direitos humanos. O cenário é muito difícil e nós vamos precisar da solidariedade internacional. Nós teremos muito trabalho, mas estamos com vocês e estamos aqui é para lutar mesmo”, finalizou.

O próximo encontro ainda não tem local ou data exata para acontecer, mas está confirmado para o ano que vem. Enquanto isso, confira a nossa cobertura fotográfica!

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(Fotos: Letícia Sabbatini)

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