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Tá tudo dominado no parquinho! Donatella monopoliza atenção na SPFW, durante o badalo da Versace para a Riachuelo

Com assinatura de Giovanni Bianco e Carlos Pazetto, agito que movimentou São Paulo nesta quinta-feira (6/11) redefine o conceito de fashion show durante a semana de moda, em momento em que os desfiles estão mais enxutos

Publicado em 07/11/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por Alexandre Schnabl e João Ker

Sendo preparada há cerca de um ano e meio, a coleção de Donatella Versace para a Riachuelo – a primeira parceria internacional da rede de fast fashion com uma maison internacional – finalmente chegou ao alcance e aos olhos do público durante a noite desta quinta-feira (06/11). Mas para a estilista italiana, a estratégia de divulgação das roupas segue linha completamente contrária à da britânica Stella McCartney com a C&A: Donatella faz jus ao sobrenome e à fama e, quase solidária ao movimento do Funk Ostentação, põe para quebrar, armando o maior espetáculo que a São Paulo Fashion Week fez nessa temporada. Confira tudo sobre essa extravaganza inesquecível.

O tom de opulência já começa com o local escolhido para o evento: o Pavilhão das Culturas Brasileiras, dentro do Parque Ibirapuera, o que por si só já é bastante trabalhoso, dada a distância que fica do Parque Cândido Portinari, onde é realizada a semana de moda. Ao chegar, a decoração idealizada pelo diretor criativo Giovanni Bianco – queridinho de gente como Madonna, Steven Klein e Miuccia Prada – e o badalado produtor de eventos Carlos Pazetto, chegado a uma super produçãoresume de imediato as características da parceria entre a Versace e a Riachuelo: power! Com direito a cenografia impecável e todos os corredores iluminados de verde e vermelho – cores-chave na campanha – e ainda com direito ao rosto gigante de Adriana Lima, fotografada pela dupla Mert Alas & Marcus Piggott, logo na entrada. Aliás, dizem as más e boas línguas pelos corredores da SPFW que tanto a baiana quanto Isabelli Fontana, Laís Ribeiro e Alessandra Ambrósio foram acionadas, mas não puderam desfilar por contratos de exclusividade com outras marcas. Tanto que, até três dias atrás, o assessor de imprensa da agência de Laís, Thiago Bunduky, ainda tinha certeza de que a angel da Victoria’s Secret viria ou não dar o ar de sua graça no desfile.

Mas, voltando ao badalo, no centro do espaço, como um coliseu cercado de fashionistas, um grande quadrado escondido por uma cortina negra de veludo aumentava a curiosidade de quem chegava e a sensação de que algo teatral estava por vir. A questão é que, marcado para às 21h, já era 22h15 e nada de o show começar, com os felizardos contemplados com um convite se apinhando na área destinada ao coquetel.

No backstage, a correria acontecia alguns volumes acima do desespero habitual de uma Semana de Moda, com 28 modelos masculinos, todos vestidos com uniformes de marinheiro que deixava à mostra os braços torneados, com aquele jeito de Pierre et Gilles, se divertindo por detrás da cortina e recebendo olhares lascivos tanto do público feminino quanto da rapaziada arco-íris que passava por ali. Mais ao fundo, Giovanni se preocupava com o atraso, enquanto as top models – das quais 12 fizeram cruzamento com a passarela da Osklen e só chegaram ao local às 22h15 para ainda serem maquiadas e vestidas – corriam de um lado para o outro, como gazelas na savana. Some-se a isso assessores descabelados gritando no fone e uma plateia inteira ansiosa lá fora, roendo as unhas para ver o resultado de um buzz que começou meses atrás. Em meio a esse cenário, a Medusa viva da Versace descansava as madeixas blond ambition no seu camarim, deixando todos se matarem lá fora, como convém a uma diva da ópera.

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Os preparativos ficam prontos em torno das 23h e é showtime, meu bem! Alguns marinheiros se posicionam nas laterais da tal cortina preta, de onde as modelos estavam programadas para sair. Alguém no backstage grita “Tesoura!” e, assim, é acionado um mecanismo automático, que simula como se a ação acontecesse manualmente, fazendo parecer que era um empurrão dos boys de calça branca, Então, voilà! O que está dentro da tal área reservada é finalmente revelado. Queixos caídos, sobrancelhas erguidas, olhos arregalados e forninhos pulverizados. Público em êxtase. Ao som de um eletrônico contagiante, os convidados se deaparam com uma pista de carrinhos de bate-bate, no melhor clima de parque de diversão dos anos 1960, com direito a globos de luz e tudo. Nos mini-veículos, os navy lads assumem o volante com o peitoral à mostra, mãos nos volantes, braços esticados, veias em riste, enquanto tops do calibre de Viviane Orth e Ana Claudia Michels se penduram nos mini postes acoplados, olhando para o público com um semblante desafiador, como se fossem a própria personificação de Donatella, mas segurando a onda para conseguirem ficar de pé com o saltos altíssimos naquela posição incômoda. Teatro, meu bem, teatro.

Ao longo de vários minutos, os looks saíam por detrás da cortina, vestidos em modelos que vinham da boca de cena, intercalando com outras que pululavam da pista cenográfica, se juntando às colegas para exibir as peças da coleção em um bate-volta em torno do bate-bate. Apesar de não ter à venda nenhuma peça declaradamente masculina, os modelos homens estavam ali para compor um cenário vivo, fazendo a figuração cênica e completando o teatro (amém!), já que a inspiração náutica da coleção possibilitava que os marinheiros fizessem parte da encenação. E foi exatamente isso que eles fizeram: à medida que iam desovando as garotas, permaneciam nos carrinhos e começavam uma divertida guerrinha, praticamente o início de um roteiro para longa x-rated Bel Ami. Mais gay, só se abrissem a boca e saltasse uma clutch.

Já as moças, com os fios chapados presos em rabos de cavalo e olhos marcados, vestiam um pout-pourri de peças mais icônicas da marca, sobretudo os tubinhos assimétricos e repuxadinhos que fazem a alegria de estrelas e starlets nos red carpets, desde o tempo em que Gianni Versace ainda era vivo. Entre tantas referências ao vocabulário da grife, a estampa inspirada no universo marinho e apresentada no verão de 2012; tops e saias de cintura alta com tachas e aplicações douradas; camisas de seda com desenho de Medusa e decote pronunciado que vai quase até o umbigo; vestidos curtíssimos com cortes estratégicos que fazem o clássico jogo de mostra-esconde da grife, com direito a transparência e longos vaporosos. E por aí vai.

Teve Adriana Lima? Não. Mas, ainda assim, o casting brasileiro era o sonho de todo estilista, com várias das maiores modelos brasileiras passando por ali: Fernanda Tavares (que abriu o show), Carol Ribeiro (que largou o microfone para o evento), Thairine Garcia, Bruna Tenório, Daiane Conterato, Renata Kuerten, Karolla, Sofia Resing, Paula Mullazani, Marcelia Freesz, Flavia Lucini e Alicia Kuczman, só para citar algumas. Alicia, por sinal, estava a-pai-xo-na-da pela coleção e comentou com HT mais cedo no backstage da SPFW: “Tá incrível! E olha, vou confessar, tô querendo bater cartão lá na Riachuelo amanhã!”, diz com sinceridade na voz, mas com um óculos Chanel na cabeça.

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Na coleção, entre os curtos e longos, chemises, blusas, calças, skinnys, shortinhos e saias justíssimas, chamam atenção os acessórios dourados. Muita corrente, muito babilaque, muito berloque, braços cheios de pulseiras, colos repletos de colares, cintos bacanas, bolsas de oncinha bem amarela, sandálias de salto altíssimo super decoradas, ótimas para as desinibidas. Nos looks, presença de maxi bordados, flores negras graúdas, muita renda, pedraria, decorações com ilhoses e metais, estrelas do mar graúdas em aplicações com tachas. Tudo puro ouro e cristal, of course! E, entre a hegemonia do preto e a presença maciça do animal print (um guepardo lindão) e das estampas náuticas, algumas peças em roxo e salmão. Vai vender feito água. E olha que, assim como o líquido precioso hoje em dia, que já não é mais uma bagatela, ninguém espera que a coleção chegue na Riachuelo a preço de banana. Comparada com as peças da grife nas lojas mundo afora, é muito mais barato, claro, mas as camisas sociais saem, por exemplo, entre R$180 e R$250.

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É formada a fila final que fecha o desfile. Ao fim disso tudo, Donatella aparece ladeada por outros guarda-costas marinheiros, com cara de quem nunca se divertiu tanto na vida, usando um vestido púrpura na mesma cor da cartela da coleção e abusando do comprimento curto. A cortina preta de onde as modelos saíram se abre e mostra uma das melhores sacadas de marketing da temporada: após o espetáculo, a chance das consumidoras, blogueiras e toda a galera do carão adquirir, em uma pop up store, as peças-fetiche que acabaram de ser apresentadas e que se tornaram imediatos itens de desejo. Tipo mercadão persa. Afinal, a coleção é bacana, perfeitinha para arroubos neste verão que está chegando.  Ao som de “Donatella”, hino das pistas de dança e homenagem musical composta por Lady Gaga, a power designer mostra de onde as modelos tiram inspiração para o catwalk poderoso e confiante: nela mesma. A louríssima então posa para os fotógrafos e ruma direto para o cercadinho vip, de onde fica se divertindo com sua trupe europeia, bem perto do queijo dos gogo boys e dos bailarinos musculosos que praticam pole dance com destreza técnica de deixar Martha Graham abismada.

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Depois dessa teatralidade toda, it’s party time! No badalo idealizado por Giovanni  Bianco e Carlos Pazetto, Giovanni comenta de onde saiu todo o conceito para a passarela-parque e o badalo que seguiu, com direito a dançarinos musculosos usando roupa e chapeuzinho de marujo e fazendo pole dance (ao que parece, uma sugestão da própria Donatella): “Eu assinei a direção criativa e, quando ela me pediu para fazer esse desfile, tirei a ideia de umas imagens que vi em uma revista da Air France“. E qual a maior dificuldade de realizar um evento deste tamanho? “Em termos de comparação, Madonna é 1 e isso aqui foi 1.000. O cruzamento das modelos entre os desfiles anteriores e o nosso também foi complicado e acabou atrasando o evento”, declara, mencionando que a logística foi punk.

Já Pazetto afirma que o visual do parque de diversões, com direito a carrinho de pipoca, algodão doce, maçã do amor e barraquinhas de brincadeiras e brindes, com jeitinho de quermesse retrô, é viagem absoluta e que os marinheiros musculosos que participaram do evento tinham tudo a ver: “Os motivos náuticos da coleção pedem esse tipo de abordagem, e claro que procurei não dar um toque de marinheiro francês, mas de italiano, tipo Porto de Gênova”. Ah, e esse clima tão sexy, todos com esse visual fetiche? É inspiração em Pierre et Gilles? “Bom, pensei mais em Tom of Finland“, diz o produtor, que ainda conta que foi preciso fazer um casting de 120 modelos para filtrar 28. Hum…

Showtime na festa da Versace! Quem é Demi Moore na fila do pão? "Beijos da Versace, gente, fui!" (Fotos: Divulgação)

Showtime na festa da Versace! Quem é Demi Moore na fila do pão? “Beijos da Versace, gente, fui!” (Fotos: Divulgação)

A noite seguiu regada a vodca CîrocChandon e uísque, com outras ações divertidas pelo espaço, incluindo uma tenda de tiro ao alvo, tipo acertar a bola na boca do palhaço (ou nas latinhas), para ganhar um brinde. Bom, os convidados preferiam mesmo um beijo dos marujos bonitões que comandavam as atrações. Já em  outro estande, com parede estampada tipo backdrop cenográfico, outros tiravam fotos. E, claro, a turma mais animada não conseguiu resistir à tentação e foi dar uma voltinha no bate-bate, que infelizmente já não tinha mais a presença dos marinheiros ao volante, agora deslocados para outras funções. Inesquecível, o agito servirá de referência futura para quando qualquer outra rede de fast fashion pensar em  lançar outra parceria parecida – ou quando algum designer decidir transformar seu desfile em master espetáculo. A italiana realmente provou que, como dizem os versos de “Donatella”, ela é “a rich bitch” e “the upper class”.

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