Com quase três décadas dedicadas à cultura, Ivi Mesquita, artista da dança, empresária e mulher negra 40+, afirma que O Dia das Mulheres precisa ir além das homenagens e provocar reflexão sobre a realidade brasileira. “Há mesmo o que comemorar no Dia da Mulher em um país que ainda mata suas mulheres? Essa é a pergunta que não sai da minha cabeça quando o 8 de março se aproxima. Em um país onde os números de feminicídio seguem crescendo e onde tantas mulheres ainda vivem com medo dentro da própria casa, reduzir o Dia Internacional da Mulher a flores, mensagens bonitas e posts simbólicos me parece pouco. Muito pouco. A data precisa ser um momento de reflexão profunda sobre o que ainda precisa mudar”.

Ivi Mesquita: “Ser mulher negra e 40+ no Brasil é aprender todos os dias a não pedir licença para existir”
A trajetória de Ivi reúne diferentes identidades e experiências. E como essas camadas se conectam na sua história? “Eu sou mulher. Sou mulher negra. Sou artista da dança. Sou empresária. Sou parte da geração 40+. Cada uma dessas camadas carrega uma história de luta, de resistência e de permanência em espaços que muitas vezes não foram pensados para nós”.
“Comecei a trabalhar muito cedo. Ainda adolescente já buscava minha própria independência financeira. A arte me ensinou disciplina, coragem e também me mostrou como o mundo pode ser duro com mulheres que decidem ocupar o próprio espaço”.
São quase três décadas vivendo da cultura, da dança e do Carnaval — esse território tão potente da cultura brasileira, mas que ainda carrega machismo, etarismo e muitas desigualdades – Ivi Mesquita
Este ano, ela esteve novamente na Avenida e desfilou em três escolas de samba. “Permanecer ali, visível, ativa e protagonista depois dos 40 também é um ato político. E representar Carolina Maria de Jesus foi muito simbólico para mim. Ela representará sempre resistência, voz e memória de um Brasil que muitas vezes tenta silenciar mulheres negras”.
A história de vida de Ivi também passa por uma forte influência familiar. “É sempre importante lembrar de quem eu sou filha. Minha mãe é uma das minhas maiores inspirações: Rita Mesquita. Ela tem três graduações, é líder comunitária e fundadora do grupo Afro II. Foi com ela que aprendi muito cedo que ocupar espaço não é apenas sobre a gente — é também abrir caminho para quem vem depois”.
Ivi também atua como empresária na MIM Produções. “Estou há 26 anos à frente da MIM Produções, que nasceu do sonho e da coragem de transformar arte e alegria em trabalho, cultura em oportunidade e talento em autonomia. Ao longo desses anos, eu vi muitas mulheres brilharem, mas também vi muitas desistirem. Não por falta de talento, mas por falta de oportunidade”.
Sobre o 8 de Março, ela reitera a pergunta: “O que estamos, de fato, celebrando se tantas mulheres ainda estão lutando simplesmente para viver? Ser mulher negra e 40+ no Brasil é aprender todos os dias a não pedir licença para existir. É transformar resistência em movimento, luta em caminho e presença em possibilidade para outras mulheres. E eu quero ser esse holofote para tantas de nós. O Dia da Mulher não é apenas sobre celebração. É sobre consciência, memória e responsabilidade coletiva. Porque mais importante do que desejar “feliz Dia da Mulher” é garantir que todas nós possamos continuar vivas para celebrá-lo. E enquanto isso ainda não for realidade para todas, a nossa presença seguirá sendo resistência.
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