*por Vítor Antunes
Nos últimos 10 anos, muita coisa se transformou — e foi nesse período que Nany People se revelou ao Brasil com ainda mais profundidade. Por essa razão, ela lança o livro “Ser Mulher Não É Para Qualquer Um – A Saga Continua”, que revisita sua última década. Além disso, inaugura uma exposição que percorre toda a sua trajetória e estreia mais um de seus cinco espetáculos: “Ser mulher, não é, para qualquer um”, homônimo aos dois livros biográficos que recontam sua história, e que terá um pocket show como parte da programação. “Vamos montar uma exposição no Teatro Gazeta (SP), então eu estive mexendo nos meus guardados. Eu estou fazendo show, a série ‘Vai que Cola‘, e estreando e espetáculo homônimo no dia 4, no Teatro Gazeta”. O livro, lançado pela Umanos Editora, tem 224 páginas e está à venda no site da editora. Na obra, Nany narra histórias, causos e episódios ocorridos com texto assinado por Flavio Queiroz, com curadoria e supervisão da própria Nany. O pré-lançamento foi realizado como parte da programação do 20º Flipoços — Festival Literário Internacional de Poços de Caldas.
Além do lançamento, haverá uma exposição inédita com imagens, objetos pessoais, looks icônicos utilizados em sua trajetória e vídeos de seu acervo. Nesta entrevista, a atriz conta fatos inéditos que não estão nos livros, indo para além do saldo biográfico que consta neles. Pioneira em diversos aspectos — como registrar o próprio nome como patente e fundar sua própria empresa numa época em que pessoas trans como ela não lançavam mão desse expediente —, Nany realizou muito. E, quando comparada a suas contemporâneas, é uma vencedora. Além do livro, fala sobre mulheridade e revela um desejo: “Quero ser uma vilã. Adoro fazer uma malvada em uma novela. Quando você põe o humor, o contexto moral das pessoas se divide por conta de o humor humanizar estas personagens, que o humor, ele humaniza”.
Eu sempre digo que a vida não começa de repente — ela se realiza, é uma linha contínua. E, aos 60, mais ainda. Estou sempre me reinventando, me buscando, me recolocando, me realocando. Minha vida sempre foi construída sob a premissa do “não”: não pode, não é viável, não é possível, não é costume, não é bom o tempo todo. Pois é justamente no “não” que eu tenho feito tudo até hoje. Ninguém tem o direito de me dizer qual é o meu limite, porque eu sei do limite que a gente tem – Nany People

Nany People lança nova biografia (Foto: Divulgação)
Estar com 60 anos permite uma análise mais profunda da própria trajetória — dos caminhos percorridos e da vida vivida para além daquilo que o “respeitável público” costuma enxergar. Para uma artista, especialmente uma artista popular, esse tanto de concessão tem seu preço. E ele foi pago por Nany com entrega, escolhas conscientes e muita convicção e isso consta no livro: “Nunca tive isso de me cobrar excessivamente. Eu sempre tive tudo de uma coisa: estava trabalhando com o que eu gostava. Meu trabalho sempre foi uma festa. E eu tenho confiança de que abri mão conscientemente da vida pessoal, familiar, emocional, em prol do meu trabalho: Eu casei com o palco, com o teatro — e não me arrependo. Então eu queria só uma coisa: sobreviver. E falo sempre é que tenho mania de palco. Eu estou tão direcionada nos meus objetivos que nem sempre consegui me perceber e consta aí uma dificuldade em me biografar. Não tenho um ‘quando você fez?’, ‘como é que foi?’, ‘como foi?’. Não tinha como me dar conta disso enquanto estava preocupada em pagar as contas, em dar conta da minha segurança. Fui fazendo. Nunca temi a forma como seria interpretada. O Leonardo Boff que diz: ‘Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto’”.
Sou uma mulher trans. Quando fiz minha transição, nem se usava esse nome ainda. Sou uma mulher que ousou viver de uma profissão que nem existia na minha região, no Sul de Minas. Fui pra São Paulo, vivi 20 anos na raça, atrás do meu sonho, construindo meu portfólio. Hoje tenho 60 anos, 50 de palco, 40 de São Paulo e muitos de TV. E isso vindo de um país onde a vida de uma pessoa trans é banalizada. Então nem vou entrar no mérito da transição. Estou falando do viver do teatro. Sim, eu fiz minha história no teatro – Nany People

Nany People fala sobre amadurecimento enquanto pessoa LGBT: “Ninguém tem o direito de me dizer qual é o meu limite” (foto: Marcos Guimarães)
VIDA
Para Nany, há ainda um ponto fundamental que perpassa esse percurso de entrega e paixão: o amadurecimento, inevitavelmente atravessado pelo etarismo, essa força cultural que rotula, limita e tenta cercear. Mas também há a coragem — essa que dá de ombros para as verdades “perfeitas” e para a crítica “construtiva” de quem, na prática, nada construiu. “Tem um espetáculo novo que estou fazendo, e um dos maiores motivos que me inspiraram a escrever o livro foi justamente isso: as pessoas que fazem 50, 60 anos tentam apontar a idade como uma crítica, mas isso nunca me afetou. Eu não tive essa questão, não tive essa sequela. Não tive nenhum problema. Sempre fui à luta! Fui pro mundo, entrei na Globo com 54 anos, já estive em quatro turnês mundiais só nessa década e, no ano passado, estive em Dublin, Porto, Lisboa e Paris. Neste ano, passei a virada fazendo show — dia 7 de janeiro — em Atlanta, Miami, Dublin e Boston, correndo de nevasca. Enquanto isso, há contemporâneos meus que ainda estão no interior de Minas Gerais, recolhidos. Eu não. Não admito que digam que eu não possa fazer tal coisa por causa da minha idade. Como é que vou deixar de fazer, se esta é exatamente a idade que eu tenho?”
O Brasil é um país que vai ter cada vez mais gente madura, mais velhos. Os novos 60 são os antigos 30. Só que, infelizmente, ainda se idolatra demais a juventude. Me parece que a juventude não tem memória — e nem quer ter. As crianças de hoje conhecem a Galinha Pintadinha, mas não fazem ideia de quem seja a Xuxa – Nany People
Ela também relembra passagens divertidas da vida, como quando foi confundida com outra atriz. “Chegaram até mim e disseram: Adoro a senhora, Susana Vieira“. Mas destaca que a estereotipação ainda é um obstáculo recorrente. “Também de vez em quando chego em algum lugar para ser homenageada, e aí é um lugar, por exemplo, todo sério, todo não sei quê, solene e tal, te chamam para entrar e cantar ‘I Will Survive‘ só por eu ser uma pessoa LGBT”.

“Estava preocupada em viver, em pagar as contas, em dar conta da minha segurança” (Foto: Foto: Moises Piazinotto)
DE POÇOS DE CALDAS A SERRANIA
Nany é um fruto de Minas Gerais. Nasceu em Machado, foi criada em Poços de Caldas e sempre usa referências mineiras em suas entrevistas, citando outra cidade da região, Serrania. E mantém seus vínculos com a cidade muito através de sua família, que visita com regularidade. “Eu tenho sobrinhos e afilhados, que eu ajudo muito até hoje. Comprei um apartamento em Poços de Caldas para o meu irmão morar. Quando eu vou pra lá, fico nesse apartamento. Ele é como se fosse meu pai. Nos damos muito bem. Tive uma mãe fora da curva. Além de me proteger, ela fez meus irmãos entenderem que tinham que me proteger também, me acolher, me blindar. Eu tenho consciência de que só consegui porque tive uma mãe e uma família que fizeram diferente do que muitas deveriam fazer — me acolheram, me amaram, me empoderaram, me fortaleceram pra vida. Hoje somos comendadores poço-caldenses”.
Para muita gente eu sei que sou inspiração. Para outros, sou transgressão. No Brasil, infelizmente, há pessoas que tem o dom natural de achar que o sucesso é um desaforo. Não venham dizer: “a Nany se acha”, porque eu não me acho. Eu tenho certeza de que eu estou – Nany People

“Não venham dizer “a Nany se acha”, porque eu não me acho. Eu tenho certeza de que eu estou” (Foto: Moises Pazianotto)
DA DIVERSIDADE
Ter atravessado décadas inteiras vivenciando a pauta da diversidade — não como moda ou discurso institucional, mas como urgência de existência — dá a Nany People uma perspectiva rara e valiosa sobre o tempo. Ela testemunhou uma sociedade que mudou e estagnou ao mesmo tempo. Avanços vieram, é verdade, mas à custa de muito mais do que coragem: vieram da persistência em ocupar espaços que, por muito tempo, foram fechados a cadeado. Sua história se confunde com o Brasil dos anos 1980, um país ainda intoxicado por resquícios da ditadura e tomado por uma visão ultraconservadora sobre gênero e sexualidade. Era um tempo em que sair de casa montada podia custar não só a dignidade, mas a integridade física. Nany recorda episódios que ilustram esse cenário sem máscaras.
Certa vez, entrei em uma loja para revelar um filme. De forma completamente inesperada, o atendente me agrediu verbalmente: ‘Sai daqui, fdp! Eu te quebro na porrada’”. A violência era cotidiana — verbal, simbólica, institucional. Um simples contrato de aluguel podia se tornar uma operação de guerra. “Antigamente havia muita dificuldade para alugar um apartamento. Quando viam quem éramos, diziam: ‘Ah, já foi alugado’ – Nany People

“Se eu fosse contar as partes trágicas da minha vida seria cantora de fado” (Foto: Divulgação)
Em outro episódio revelador, Nany enfrentou o preconceito dentro do próprio lugar onde vivia, no momento em que se mudou para um novo apartamento. A resposta do condomínio foi imediata — e sintomática: a convocação de uma reunião para tratar da “presença de uma travesti no prédio”. A artista, no entanto, jamais recuou diante do constrangimento. “Compareci à reunião montada, com uma procuração do proprietário. Estava impecável: usava Chanel, um bom casaco, sapatos adequados e levava meu DRT na carteira, ainda com o nome de ator. Me apresentei: ‘Sou artista, trabalho com shows à noite, faço eventos e telegramas animados. Tenho meus direitos e vou atrás deles. Sempre trabalhei com seriedade e me posicionei com firmeza”. Ao longo do tempo, construiu sua identidade pública não como quem implora por espaço, mas como quem exige o que é de direito — dignidade, respeito, pertencimento. E se hoje fala com naturalidade sobre sua trajetória, é porque sabe o peso do que carregou para que novas gerações pudessem caminhar com menos medo.
Fui a primeira artista da noite a ter uma empresa jurídica registrada com marca e patente. Em 2000 ou 2001, fundei a Nany People Produções Artísticas Ltda., e registrei meu nome em quatro classes: nome artístico, cosméticos, brinquedos e acessórios. Isso há 25 anos. Além dos shows, sempre participei ativamente do debate sobre direitos. Antes mesmo da legislação sobre identidade de gênero, já lutava pelo meu nome social. No SBT, há 25 anos, meu crachá já dizia “Nany People”. Isso foi graças a uma mulher chamada Hebe Camargo, que entendeu a importância disso. Denunciei a homofobia, ganhei prêmios e fui presença constante em programas de TV. As pessoas me associam ao entretenimento porque tenho uma personalidade divertida e solar. Mas posso — e faço — muito mais do que apenas divertir.

Nany foi uma das primeiras pessoas no Brasil a registrar seu nome artístico como uma patente (Foto: Divulgação)
Ela prossegue: “Contudo, ao contar essa trajetória, percebo que muitos não querem ouvir. O teatro foi um grande impulsionador da minha carreira. Atuei em peças ao lado de senhoras extremamente conservadoras, inclusive com colegas homofóbicas. Ainda hoje, há quem me veja na televisão e ache que fui contratada apenas para entreter, por ser uma figura caricata. Mas sou mais que isso: faço teatro, dou palestras e desenvolvo projetos com seriedade”.
Se eu fosse encarar a vida apenas em preto e branco, eu nem seria humorista. Seria cantora de fados — Nany People
Ela continua dizendo que consolidou sua vida com muito trabalho: “A vida é tão intensa que transforma o dia útil em domingo. Se eu esperasse ser escalada para uma novela, não conseguiria pagar meus boletos. Sou eficiente, entrego tudo no ponto, chego decorada, maquiada, produzida. Agradeço ao povo brasileiro que sai de casa, de segunda a segunda, para me ver — seja no teatro, em restaurantes, pizzarias ou casas de comédia. Construí minha própria história e me tornei uma grife sem empresário, gestor de carreira ou coach. Meu nome circula por meu trabalho. Tenho orgulho de, onde quer que eu esteja — numa encruzilhada, num aeroporto ou andando pela rua — alguém me pergunta: “Vai fechar show aonde, Nany?” As pessoas sabem que estou sempre saindo de casa para trabalhar. O teatro é meu portfólio. Lembro de um episódio no Rio de Janeiro: estava na Linha Vermelha, em meio a uma grande barricada, e ouvi: “Não, essa aí é artista. Deixa passar.”
Tenho quatro grandes musas na minha vida: Rogéria (1943-2017), Hebe (1929-2012), minha mãe, Lilia Cabral e Fafá de Belém – Nany People
Aos 60 anos, Nany fala sobre sua trajetória com a plenitude de quem sobreviveu aos ventos contrários sem se deixar dobrar. Sua fala tem a serenidade de quem aprendeu a nomear as dores sem deixar que elas definam a totalidade do seu caminho. “Hoje, olho para trás com mais contemplação do que reatividade”, afirma. O preconceito, ela reconhece, ainda ronda, camuflado em estruturas que se modernizam sem necessariamente se humanizarem. “Somos pauta de sala de jantar. Há uma visibilidade maior — mesmo que o avanço ainda aconteça com dois passos para frente e três para trás. É preciso resistir e não deixar retroceder”

Nany People: “Nunca precisei de tambor para fazer barulho” (Foto: Divulgação)
Essa vigilância disfarçada de curiosidade, tão comum no passado, persiste em novas roupagens. Nany sabe que a presença pode ser confundida com progresso, mas insiste na distinção: presença não é garantia de pertencimento. Há mais de duas décadas, ela se afastou da Parada LGBT, num momento em que sentia que o caráter político da manifestação começava a ser esvaziado. “Deixei de frequentar por sentir que havia perdido seu foco político.” Não se tratava de ruptura, mas de posicionamento. “As pessoas às vezes distorcem minhas palavras, como se eu tivesse abandonado a causa. O que disse foi que achava que o movimento estava indo por um caminho equivocado, mais voltado ao entretenimento vazio. Mas, como tudo na vida, existem pessoas que constroem, outras que desviam.”
Se o corpo foi sempre o primeiro território de disputa, a carreira foi o campo onde ela decidiu afirmar sua existência com dignidade e arte. Cada degrau foi subido com cautela e coragem. “Fiz minha história com trabalho. Nunca precisei de tambor para fazer barulho.” Foi na contramão do estereótipo que ela construiu uma figura pública consistente, digna, capaz de dialogar com as massas sem se esconder atrás de personagens. “Felizmente, contei com figuras como Hebe, Amaury Junior, Goulart de Andrade (1933-2016) e a própria TV Globo, que me deram espaço e legitimidade. Assim, fui além do estigma de que minha sexualidade define minha arte.”

Nany People: “Não adianta promover palestras se não há inclusão real. É preciso contratar, acolher, dar oportunidades” (Foto: (Foto: Marcos Guimarães)
Hoje, com o nome consolidado e a escuta conquistada, ela é frequentemente chamada para falar sobre diversidade em grandes empresas. Mas seu discurso vai além da celebração vazia. “Sempre pergunto: ‘Quantos funcionários trans vocês têm?’ Não adianta promover palestras se não há inclusão real. É preciso contratar, acolher, dar oportunidades.” Visibilidade sem estrutura é apenas uma nova forma de apagamento. Ao revisitar os anos 1980, Nany expõe as cicatrizes do tempo mais cruel da história recente da população LGBTQIA+. “Mudei-me para São Paulo em 1985, no auge da chamada ‘Peste Gay’, como a AIDS era conhecida na época. Morava em uma kitnet em Santa Cecília. Todos os meus cinco amigos e seus companheiros morreram.” A devastação não era apenas viral: era social, legal, moral.
A voz de Nany não é apenas memória viva — é também um aviso: os tempos mudam, mas não sozinhos. São empurrados, tensionados, exigidos. E para isso é preciso mais do que discurso: é preciso presença, atitude e arte.
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