*Por Brunna Condini
O Dia de São Jorge, comemorado nesta quarta-feira (23) e feriado estadual no Rio de Janeiro, marca um momento especial há 19 anos para Nando Cunha. O ator, devoto do santo, que inspira coragem e determinação, não fazia sua tradicional feijoada gratuita para o Santo Guerreiro há dois anos, por falta de condições. Agora, através do apoio da sua família, volta a celebrar a data, que o fortalece em sua fé. “É uma emoção voltar. Espero que a gente arrecade muitas doações para fazermos a parte social do evento também”, diz, referindo-se a entrada da sua Feijoada de São Jorge nesta quarta-feira, de 11h às 20h, no Clube AABB, na Tijuca, que é liberada para quem levar um 1 kg de alimento não perecível.
Ele conta o que esse retorno representa em sua vida, ainda mais após os desafios enfrentados recentemente, principalmente no que diz respeito à constante instabilidade profissional, mesmo com mais de três décadas de ofício. “Esses últimos anos foram bem difíceis para mim, então em vez de fazer um evento, eu dava a feijoada na rua junto com meu filho. Fiquei afastado do exercício da minha fé. Mas agora resolvi voltar a fazer, mesmo sem patrocínio nenhum, porque sempre foi um grande propósito meu. Me reconecto com a minha fé e com a minha conexão com São Jorge. Para voltar a vibrar positivo”. A seguir, Nando diz como está hoje, além de falar como tem cuidado da sua enegia e saúde mental.
A fé em São Jorge tem me auxiliado muito na minha caminhada, porque todo dia a gente tem que matar um ‘dragão’, e se não fosse a ajuda dele, acho que já teria desistido. Fora que São Jorge é um santo pop, as pessoas gostam de fazer festa pra ele, de fazer samba de tomar cerveja. E tem esse sincretismo com Ogum, de quem sou filho – Nando Cunha

Devoto de São Jorge, Nando Cunha celebra o retorno da sua feijoada para o santo e fala como sua fé o fortaleceu nas dificuldades recentes (Foto: Marta Azevedo)
Longe do audiovisual desde sua participação em ‘Pedaço de Mim’ (2024) da Netflix, no momento o ator se prepara para voltar ao palco. A partir de 9 de maio ele estará no Teatro do Fashion Mall com o espetáculo ‘O Dia que Raptaram o Papa‘, do dramaturgo e diretor João Bethencourt, que completaria 100 anos em 2025. “A peça será dirigida pela filha dele, a Cristina Bethencourt, que foi a minha primeira professora de teatro”.
Nando conta que o público, tanto nas redes, quanto nas ruas, cobra seu retorno à TV:

“Na profissão, são muitos desafios diários. Alguns têm mais privilégios, outros menos. Por isso que a gente tem que se apegar ao Santo Guerreiro para tentar superar” (Foto: Santiago Harte)
“Em qualquer lugar que vou perguntam quando vão me ver novamente na televisão. Eu respondo que isso não depende só de mim…hoje vemos atores com espaço, mas com comportamento estranho, abusivo. Vemos também atores que não conseguem entregar…e tantos outros sem trabalho. Mas graças a Deus os streamings estão aí, e o teatro, claro, que é o lugar do ator. E vamos caminhando. É nisso que confio. E no meu trabalho”.
Ainda sobre os desafios de viver do seu ofício mesmo após uma longa trajetória e tantos trabalhos na TV, no teatro e no cinema, Nando observa:

“Quando estou trabalhando, me sinto um privilegiado de viver da arte. Tem gente que enfrenta ‘dragões’ piores” (Foto: Mario Grave)
Vejo colegas falarem da instabilidade até sendo pessoas que já alcançaram mais destaque. Aquela atriz no Big Brother (Vitória Strada) falou disso e já protagonizou novelas. A própria Taís Araújo falou do medo que já teve da escassez. Agora imagina eu, que vivo há 30 anos do ofício sem nunca ter protagonizado nada…fiz papéis marcantes. Mas isso é da profissão, são muitos desafios diários. Alguns têm mais privilégios, outros menos. Por isso me apego ao Santo Guerreiro, mesmo que às vezes esteja difícil de aguentar. Porque aí vem a arte e nos dá gás novamente. Salva – Nando Cunha
Nando recorda dos danos causados pela oscilação de trabalho na área. “Não tive um quadro depressivo, mas tive momentos depressivos. Depois, na separação, isso também pesou. Mas é superar, porque são os ‘dragões’ que precisamos enfrentar. Fico pensando que tem gente que enfrenta diariamente coisas piores. Acorda de madrugada, vai para a Central do Brasil, enfrenta a luta do dia a dia, do lugar que mora, sai e não sabe se vai voltar. É para essas pessoas que São Jorge enfrentou o ‘dragão’. Quando estou trabalhando, me sinto um privilegiado de viver da arte. Tem gente que enfrenta ‘dragões’ piores”.

Nando Cunha celebra São Jorge: Ele é um amigo que podemos conversar, dizer que está difícil, acender velas, pedir proteção” (Acervo pessoal)
O ator que angariou alguns prêmios ao longo da carreira, como o de Melhor Ator Coadjuvante na 16ª edição do Los Angeles Brazilian Film Festival por seu trabalho no filme ‘Nosso Sonho‘ (2023), conta como cuida da sua saúde mental. “Tenho a minha fé e faço terapia há 20 anos. Hoje é muito pior, porque antigamente falávamos mais das relações humanas, hoje levamos a internet para a terapia. Essa dinâmica das redes faz você ficar angustiado, ansioso, porque tem uma exigência de performar, gerar conteúdo o tempo todo. E a intenet é uma mentira, né? Seus amigos não estão lá”.
A fé é você caminhar em uma floresta escura sem ter medo. A minha fé em São Jorge é muito diferente. São Jorge não está num lugar superior pra mim. Ele é um amigo que podemos conversar, dizer que está difícil, acender velas, pedir proteção. É preciso acreditar sempre e seguir em frente – Nando Cunha

Nando Cunha celebra São Jorge e fala da sua fé: “É você caminhar numa floresta escura sem ter medo” (Acervo pessoal)
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