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Na estreia de “As Noviças Rebeldes” em São Paulo, Soraya Ravenle fala ao HT: “É preciso humanizar e dessacralizar a religião”

O musical brinca com os códigos do sacro e do profano no Catolicismo em momento em que o fundamentalismo religioso toma conta das manchetes, após o atentado em Paris que pôs a nocaute a redação do periódico Charlie Hebdo!

Publicado em 10/01/2015 | Por Alexandre Schnabl

Segunda maior temporada Off-Broadway da história, “As Noviças Rebeldes” retornou ao Brasil em estreia lotada nesta noite de sexta-feira (9/1) no Theatro NET SP, em adaptação com direção de Wolf Maia. O musical brinca com os códigos do religião católica e dessacraliza o universo das freiras em um momento que não poderia ser mais oportuno, em época em que a Igreja Católica procura se aproximar do seu rebanho através das surpreendentes atitudes humanitárias de Jorge Mario Bergoglio, o atual papa, e justo na semana em que o fundamentalismo religioso está sob os holofotes, quando ainda pipocam na mídia notícias sobre os desdobramentos do atentado em Paris contra a redação do jornal Charlie Hebdo nesta última quarta-feira (7/1), quando dois terroristas muçulmanos fuzilaram à queimarroupa 12 jornalistas e cartunistas do periódico, que havia satirizado o Profeta Maomé em charge. Em entrevista exclusiva ao HT por telefone, Soraya Ravenle, que lidera o elenco da peça, afirma: “Vivemos uma época de intolerância, mas também temos um Papa Francisco I abençoadíssimo, que todos amam. Esse espetáculo é muito sincero, pois lida com personagens de carne e osso que insistimos em incensar a um patamar semi-divínico. Sob as batinas e hábitos existem pessoas como eu e você, e é preciso impregnar o clero do seu devido caráter humano”.

Apelida de Nunsense History, a comédia musical com texto e composições de Dan Goggin – que já havia sido montada no Brasil em 1987 com elenco feminino e depois, nos anos noventa, pela Cia. Baiana de Patifaria só com homens, ambas com direção do mesmo Wolf – estreou em Nova York em dezembro de 1985 e teve 3600 apresentações, se tornando fenômeno internacional produzido em pelo menos 26 idiomas e com mais de 8000 produções em diversos países. Mais de 25 mil artistas já desempenharam o papel dessas freirinhas não tão santas assim em todo o mundo e é Soraya quem dá a palinha daquilo que está sendo realizado agora em São Paulo, obra que poderá ser conferida pelos cariocas a partir de março: “Vivemos um período tão singular, em que o catolicismo procura dar uma guinada em direção ao seu público de fieis, se aproximando da realidade e tentando se desvencilhar de uma postura dogmática, mas afastada do dia a dia. É bom conferir humanidade às freiras nessa comédia leve, que brinca com os códigos do sacro e do profano e revela gente de verdade sob os uniformes clericais. Elas riem, choram, tem inveja, ciúme, arroubos de emoção”.

Foto: Páprica Fotografia (Divulgação)

Foto: Páprica Fotografia (Divulgação)

Acostumada a atuar em produções viscerais como “Todos os musicais de Chico Buarque em noventa minutos”, da qual participou ano passado,  ela considera o tipo de teatro que está fazendo agora uma novidade para si: “É muito bom estar nessa produção sob a batuta do Wolf, um gênio que sabe tudo de teatro. Nunca tinha feito esse tipo de musical, é um desafio para mim sair de um trabalho denso e cair nessa comédia rasgada, algo que ainda não conhecia. Sou meio desse tipo. Circulo por várias patotas, inclusive na televisão, mas não pertenço a nenhuma delas, então acabo tendo a possibilidade de flanar por vários universos. Isso é enriquecedor para o ator”.

Com uma levada de humor que esbarra nas gags que o cinema imortalizou na filmografia de diretores como Blake Edwards (“A Pantera Cor de Rosa”, “Victor/Victoria”), “As Noviças Rebeldes” narra a história de cinco freiras que saíram da Irmandade de Salue Marie para jogar bingo em outro convento. As 52 freiras que ficaram morreram, vítimas de botulismo ao tomarem uma sopa feita com legumes enlatados vencidos, e as cinco sobreviventes – as tais que deram a escapulida para a tal jogatina – descobrem, na volta, que o caixa da Irmandade foi desfalcado pela Madre Superiora. Resultado: só dispõem de recursos para o funeral de 48 das freiras que bateram as botas, motivo suficiente para deixar as quatro restantes num freezer até conseguirem arrecadar dinheiro, através de um show beneficente, para enterrá-las. Obviamente, tudo acontece a partir daí, em situações cômicas que encontram vazão em coreografias que vão do balé clássico ao sapateado.

Foto (Divulgação)

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Apesar do mote que renderia uma ótima adaptação hollywoodiana, Soraya não vê a peça com levada de cinema, como acontece em outras produções atualmente em cartaz, como “Chacrinha – o musical”, em que o diretor Andrucha Waddington, com anos de estrada na tela grande e em sua primeira incursão no cinema, assume que pensou na peça como “dois enormes planos-sequência de um longa-metragem”. A atriz e cantora dá a deixa: “O teatro tem suas próprias regras. É tão ele mesmo. Poderíamos fazer a peça só com o elenco e uma cadeira e, ainda assim, funcionaria. Essa é sua magia”.

Nesta tradução e adaptação de Flávio Marinho, Soraya contracena com Sabrina Korgut, Helga Nemeczyk, Carol Puntel e um único homem também no papel de freira, Maurício Xavier.

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