*por Vítor Antunes
Você sabe o que significa “mirtilar”? O neologismo não está em nenhum dicionário, mas circula com frequência no X (antigo Twitter) e serve de código para uma prática criminosa: furtar lojas. A gíria vem sendo usada por um grupo de jovens que, com exibicionismo, descrevem seus furtos como se fossem feitos por esporte — e, pior, como se fossem inofensivos.
Embora o termo tenha surgido como uma espécie de piada interna entre internautas, “mirtilar” se transformou em uma senha para cleptomaníacos ou para quem se diz adepto do que agora é tratado como uma “trend”. Há hashtags específicas associadas a essa prática — que, por responsabilidade editorial, não reproduzimos aqui —, mas que são facilmente encontradas por quem busca. Além disso, ícones de mirtilos (blueberries) costumam ser usados pelos autores para marcar postagens, criar identificação entre si e driblar os filtros de moderação.

Internautas destacam a colheita do dia através de furto. Os mirtilos estão presentes como emoji (Foto: Reprodução)
A prática ilegal vem sendo romantizada por alguns usuários, que se referem aos furtos como “hauls” — termo comum no vocabulário digital, geralmente usado para exibir compras. Entre os perfis que se dizem participantes ou simpatizantes desse comportamento, é possível identificar internautas que se declaram moradores do Rio de Janeiro, Búzios e Porto Alegre. Procuramos a Polícia Civil do Rio de Janeiro e a do Rio Grande do Sul para falar sobre esse tipo de conteúdo. A polícia gaúcha disse desconhecer tal evento e, algo que inclusive reforçou junto à Delegacia de Crimes Cibernéticos. A polícia do Rio, até o fechamento desta reportagem, não respondeu. A plataforma X, conforme destacado em outra reportagem aqui do Site, não tem mais assessoria de imprensa para responder se controla a publicação desse tipo de conteúdo.
Importante lembrar que furtar é crime — tipificado no artigo 155 do Código Penal Brasileiro. E na web muitos se referem aos jovens como cleptomaníacos, aqueles que têm um transtorno psicológico. No entanto, a condição não isenta, automaticamente, a responsabilização penal.
Em uma das postagens mais reveladoras de uma nova — e preocupante — subcultura digital, uma usuária do X (antigo Twitter) saúda seus seguidores com “Oi, klepmores!”, abreviatura para seus pares. A denominação é, na verdade, o sinal de entrada para um universo onde furtar virou tendência, virou “trend”, virou piada — e, pior ainda, virou conteúdo.
O termo “mirtilar”, uma espécie de gíria criptografada para furtar, vem sendo utilizado como senha por usuários que exibem seus feitos na internet. Alguns relatam os valores de suas “colheitas do dia” — expressão que substitui o ato do furto — como se fossem influenciadores em uma competição. Em um desses relatos, uma jovem se gaba de ter conseguido, junto com uma amiga, cerca de R$ 600 em produtos furtados: cremes hidratantes, brilhos labiais e até temperos como páprica e orégano.

Outro destaque para uma “Colheita do dia” (Foto: Reprodução)
Outro usuário, contabiliza R$ 1.500 em itens como cremes de avelã, balas, chocolates, energéticos e geleias. Em comum entre os depoimentos está a tentativa de banalizar o delito, com uma lógica interna que transforma o furto em prática recreativa e organizada. Há até dicas e tutoriais para facilitar o crime: vestir roupas com muitos bolsos, evitar bolsas transparentes, mirar lojas menores e “não tentar grandes redes como Nike, Puma ou Centauro”, onde o risco de alarme e vigilância é maior.
Em um exemplo que escancara o desvio ético dessa prática, uma das adeptas admitiu, no último dia 08/07 que está desconfortável com seus próprios atos e que pensa em “parar com o hábito”. Há também quem declare sentir culpa.
Ou seja, não se trata apenas de comportamento digital desviado. Tentam mostrar o pano de fundo complexo – psiquiátrico, jurídico e social. De acordo com um artigo publicado pela Universidade de Minnesota em 2008, a cleptomania é um transtorno do controle dos impulsos caracterizado pelo furto repetitivo e incontrolável de objetos sem valor real ou necessidade prática. O distúrbio, que costuma surgir no fim da adolescência ou início da vida adulta, atinge mais mulheres e está frequentemente associado a outros transtornos mentais. A comorbidade com distúrbios do humor (45-100%), transtornos por uso de substâncias (23-50%) e outros distúrbios de impulso (20-46%) é altamente prevalente.

Usuários compartilham suas experi|ências com o hábito de mirtilar (Foto: Reprodução)
E há também quem “mirtilhe” sem sair de casa: fazem compras online, mandam entregar em endereços específicos e simplesmente não pagam. A prática, apesar do aparato digital, continua sendo furto, conforme define o artigo 155 do Código Penal Brasileiro.

“Mirtilar está ficando desconfortável”, diz uma pessoa que pratica o hábito (Foto: Reprodução)
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