Líder do movimento pelos veteranos da TV, Marcus Montenegro afirma: “Emissoras voltaram a respeitar esses artistas”


Aos 40 anos de carreira, Marcus Montenegro celebra uma década à frente da campanha ‘Quero Veteranos na TV’, que recolocou os atores 50+ no centro das narrativas e reacendeu o debate sobre o etarismo no audiovisual. Responsável por agenciar nomes como Irene Ravache, Rosamaria Murtinho, Mauro Mendonça e Nathalia Timberg, o empresário lança novos projetos, entre eles, a expansão do “Ser Artista” para a TV e o teatro, além de cinco livros até 2027, incluindo sua biografia. “Depois de dez anos de luta, considero que estamos vivendo um ponto de inflexão. As emissoras voltaram a olhar para esses artistas com o respeito que merecem. Não é nostalgia, é sensibilidade artística. O público quer se ver refletido, e reencontrar seus ídolos é parte fundamental dessa identificação”

*Por Brunna Condini

Marcus Montenegro, empresários de artistas da teledramaturgia brasileira, completa uma década à frente da campanha ‘Quero Veteranos na TV’ , que ajudou a recolocar os atores 50+ no centro das narrativas e reacendeu o debate sobre o etarismo na indústria audiovisual. O site Heloisa Tolipan aderiu completamente e ouviu inúmeros artistas que sofreram muito tempo por estarem fora do audiovisual. Responsável por agenciar nomes emblemáticos como Irene Ravache, Rosamaria Murtinho, Mauro Mendonça e Nathalia Timberg, além de jovens talentos, ele celebra o novo momento do mercado — “um marco na dramaturgia”, define — enquanto expande o projeto Ser Artista’, que ganha nova temporada em vídeo na Samsung TV Plus, nova edição do curso na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e se desdobra em livro e documentário. Montenegro também prepara cinco lançamentos literários até 2027, incluindo sua biografia, e uma obra em coautoria com Mauro Alencar sobre os 75 anos da televisão brasileira, que reunirá os 350 personagens mais marcantes da nossa história, traçando um inédito panorama político, social e cultural da telinha.

O etarismo está literalmente em todo o mercado audiovisual. O que me preocupa é que ele está chegando mais cedo. Antes, pensávamos em etarismo aos 70 ou 80 anos. Hoje, ele começa aos 50. Isso é muito mais grave. O culto à juventude sempre existiu, mas nunca esteve tão em voga, e isso cria um desequilíbrio perigoso entre experiência e juventude nas narrativas – Marcus Montenegro

Marcus Montenegro celebra 40 anos de carreira e fala sobre etarismo, veteranos e a expansão do projeto ‘Ser Artista’ (Foto:Edu Rodrigues)

Marcus Montenegro celebra 40 anos de carreira e fala sobre etarismo, veteranos e a expansão do projeto ‘Ser Artista’ (Foto:Edu Rodrigues)

Quatro décadas de bastidores, de descobertas e de resistência tornaram o empresário uma das vozes quando o assunto é o futuro, e o passado, da teledramaturgia. Criador da campanha Quero Veteranos na TV’, ele testemunhou de perto o afastamento de grandes nomes das tramas e o impacto disso na identificação do público com as histórias. “Em 2015, percebi que começava uma jovialização muito grande nas estruturas das novelas. Os atores 50+ estavam cada vez mais escassos nas tramas centrais e nos personagens principais. A campanha nasceu dessa urgência: chamar a atenção para a necessidade de ter veteranos em papéis estratégicos. Eles representam a memória, a identificação e a qualidade artística da TV brasileira”. De lá pra cá, o movimento ganhou corpo. O que começou como um gesto isolado virou debate público, e mais recentemente, se traduziu em mudanças visíveis nas telas. Para Montenegro, o momento é de virada:

Depois de dez anos de luta, considero que estamos vivendo um ponto de inflexão. As emissoras voltaram a olhar para esses artistas com o respeito que merecem. Não é nostalgia, é sensibilidade artística. O público quer se ver refletido, e reencontrar seus ídolos é parte fundamental dessa identificação – Marcus Montenegro

Marcus Montenegro e Nathalia Timberg (Foto: Reprodução/Instagram)

Marcus Montenegro e Nathalia Timberg (Foto: Reprodução/Instagram)

Alguns críticos dizem que o problema não é só a idade, mas também a lógica da indústria, que prefere o ‘novato barato’ ao veterano experiente. Você concorda?

Não acho que é uma questão financeira. É uma questão artística. Sempre tivemos grandes autores que escreveram para grandes atores. E o que acontece agora é que temos uma geração de autores que não escrevem para grandes atores. Então, virou quase que cultural. Não acredito que tenha nada a ver com o ‘novato barato’ – Marcus Montenegro

E reforça sobre a questão criativa que orbita ao redor do etarismo: “O que realmente falta hoje é que essa geração de novos autores entenda o peso simbólico e emocional de ver Irene Ravache, Rosamaria Murtinho ou Nathalia Timberg protagonizando boas histórias. Quando você não escreve para eles, priva o público de se reconhecer”.

Minha biografia trará bastidores inéditos, mas sem exposição. São histórias inspiradoras de uma carreira plural. Trabalhei com mais de 500 artistas e produzi mais de 100 peças, quero que essas vivências sirvam de inspiração para quem vem depois – Marcus Montenegro

"Faltam autores que entenda o peso simbólico e emocional de ver Irene Ravache, Rosamaria Murtinho ou Nathalia Timberg protagonizando boas histórias" ( Acervo pessoal)

“Faltam autores que entenda o peso simbólico e emocional de ver Irene Ravache, Rosamaria Murtinho ou Nathalia Timberg protagonizando boas histórias” ( Acervo pessoal)

Para ele, o atual movimento de retorno de atores veteranos aos papéis centrais das novelas é mais do que uma tendência, é um marco na história da teledramaturgia brasileira. “São dez anos que venho sozinho batendo nessa tecla. O mercado começou a tomar consciência do que estava acontecendo em 2020. Fiquei cinco anos insistindo, porque sou um estudioso de mercado, analiso o mercado através de estatísticas o tempo inteiro. E acho que foi tomando vulto porque os atores sentiram na pele a falta de emprego e a mudança drástica da estrutura de escalação. Estamos vivendo uma mudança que pode reverter o futuro. Não digo que vá voltar a ser igual, mas pelo menos vai melhorar”. No entanto, mesmo com os avanços, Montenegro é direto ao apontar o que ainda o indigna:

A grande questão é você ter um volume imenso deles desempregados. Nunca tivemos tantos atores veteranos fora do mercado como agora – Marcus Montenegro

Marcus Montenegro entre Rosamaria Murtinho e Nathalia Thimberg: "A grande questão é você ter um volume imenso deles desempregados" (Acervo pessoal)

Marcus Montenegro entre Rosamaria Murtinho e Nathalia Thimberg: “A grande questão é você ter um volume imenso deles desempregados” (Acervo pessoal)

Iniciativas e projetos

O empresário fala com entusiasmo sobre a nova fase do projeto ‘Ser Artista‘, que ganha força dentro da CAL em parceria com André Arteche. “Esse trabalho é muito significativo. Agora juntamos o meu curso com uma parte prática: uma montagem teatral com apresentação profissional no Teatro Fashion Mall. É uma proposta diferente, que une conteúdo e prática. Tenho muito orgulho de ver o livro ‘Ser Artista’ há cinco anos entre os mais vendidos e adotado em escolas de todo o país. Desenvolver meu lado acadêmico é uma forma de deixar legado e, ao mesmo tempo, trocar com os jovens”.

O projeto se estende ao podcast de mesmo nome que estreia nova temporada na Samsung TV Plus. “Fiquei surpreso ao saber que o podcast vem sendo usado em doutorados e mestrados no Brasil. São entrevistas profundas sobre carreira, criação e arte, sem fofoca, só conteúdo. Agora, ele vai chega a muitas pessoas e vai virar livro e documentário. Penso que é um legado consistente”, acredita.

"Estamos vivendo uma mudança que pode reverter o futuro. Não digo que vá voltar a ser igual, mas pelo menos vai melhorar” (Foto: Edu Rodrigues)

“Estamos vivendo uma mudança que pode reverter o futuro. Não digo que vá voltar a ser igual, mas pelo menos vai melhorar” (Foto: Edu Rodrigues)