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Kyra Gracie sobre preconceito no jiu jitsu: “Muitas vezes, eu escutei que não poderia lutar por ser mulher”

Uma das mais conhecidas no jiu jitsu, ela foi a primeira mulher da família Gracie a conquistar a faixa preta no esporte. "Não foi uma. Não foram duas. Foram várias vezes que esta frase foi dita. E, toda vez que isso acontecia, eu repetia para mim mesma que era capaz, que eu iria conseguir. E canalizava toda a minha força e pensamento para seguir adiante. E quando eu estava abrindo a minha academia, sabe o que falaram?: 'Vai morrer de fome, porque ninguém vai querer ter aula com uma mulher'" 

Publicado em 10/07/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Domênica Soares

Apesar de ter nascido no berço de uma das famílias mais influentes no mundo do jiu-jitsu, Kyra Gracie abre sua vida e conta que sofreu muito até chegar aqui. Por ser mulher, enfrentou percalços no universo do esporte e dentro de casa. Em entrevista exclusiva ao site Heloisa Tolipan, a lutadora pentacampeã mundial contou sobre sua carreira, projetos e vida pessoal. Vem com a gente!

Kyra Gracie fala sobre carreira, vida pessoal e sonhos (Foto: Robert Carraco)

HT – Sua trajetória no jiu-jitsu começou desde pequena, como foi até hoje? Na sua opinião, qual foi a parte mais importante do seu caminho para que tenha se tornado a mulher que é hoje?

Kyra Gracie – Acredito que foi um processo muito natural, porque eu cresci em uma família que tem o jiu jitsu como essência. Só que eu vim de uma família que só tinha os homens como tradição no esporte. Na minha infância, era algo que eu me perguntava: ‘onde estão as mulheres no jiu jitsu?’ Nas fotos de família, eu constatava que só havia homem. Não existia um incentivo para a mulher praticar o esporte. Eu fui a primeira a fazer a optar por este esporte, então, você imagina a dificuldade, não é? Percorrer essa trajetória sem ter uma referência feminina, alguém que tivesse passado pelas situações que passei, isso foi complicado. Mas, ao mesmo tempo, tudo o que eu sou hoje se deve às dificuldades que enfrentei. Elas me fortaleceram, me fizeram não desistir dos meus sonhos. 

HT – Em relação à família, quais são os prós e os contras de já ter nascido com o sobrenome Gracie?

KG – Os prós são muitos. O esporte sempre foi uma referência na minha vida por causa da família. A preocupação com a alimentação, com a mente e o corpo. A família Gracie sempre teve um projeto de vida no jiu-jitsu. É algo que vai além do tatame. É um estilo. E eu fui influenciada positivamente por todos os meus parentes desde cedo. Os contras, como pontuei, é ser de uma família só com os homens como uma referência no esporte. Até a minha chegada. E estamos falando do meu bisavô, meu avô, meu tio-avô, pessoas de outro tempo, de uma sociedade em que a mulher não tinha muito espaço. Eu tive que enfrentar mesmo, mostrar que o jiu jitsu era o que eu queria para a minha vida. E tive que provar que uma mulher pode fazer e ser o que ela quiser.

HT – Como é ser mulher em um esporte que ainda é estigmatizado como masculino?

KG – Não é fácil. Mas, hoje, eu já vejo que temos mais mulheres como referência no esporte. O que é maravilhoso. Fico muito feliz de ver as mulheres conquistando esse espaço, que é de direito delas também. Durante muitas lutas minhas, eu não podia usar o tatame principal nas competições. As mulheres lutavam em um outro canto. Nas premiações (nossa!), o valor que um homem ganhava chegava a ser 20 vezes maior do que o de uma mulher. Vejo que é muito importante contar essa história, inspirar mulheres a estar no esporte, porque só assim teremos uma mudança de verdade. E o jiu jitsu é a melhor maneira para que uma mulher possa se defender das agressões hoje tão comuns no Brasil. 

HT – Tem alguma história relacionada a preconceito que a tenha marcado de alguma forma? Como lidou com isso?

KG –  É muito ruim você treinar, se esforçar, batalhar, correr atrás com todo o seu suor e não ter o mesmo espaço que um homem no esporte. Você não poder usar o tatame principal para fazer a sua luta. Essa é uma das lembranças mais fortes que tenho. Por quê? Escutei muitas vezes que eu não poderia lutar jiu-jitsu por ser mulher. Não foi uma. Não foram duas. Foram várias vezes. E toda vez que isso acontecia, eu repetia para mim mesma que eu era capaz, que eu iria conseguir e canalizava toda a minha força e pensamento para seguir adiante. 

HT – E como ficou a relação da sua família com sua carreira com o passar dos anos?

KG – Não tive um caminho mais fácil por ser da família Gracie. Não tive o apoio de cara não. Como eu disse, a família tinha como tradição homens no esporte. Não tinha um incentivo para as mulheres praticarem jiu-jitsu. Eu fui a primeira a seguir por esse caminho, então, tive que provar o meu valor para todos que encontrei no meu caminho. Hoje é muito legal vê-los orgulhosos da história que eu construí, ser uma inspiração na família para as mulheres, mas, no início, tive que enfrentar mesmo e mostrar que eu não iria desistir do jiu-jitsu

HT – Você foi a primeira mulher da família a conquistar uma faixa preta. Como se sentiu?

KG – Uma emoção que poucas vezes senti na vida. Sensação de que estava no caminho certo, fazendo o que eu amava. Quando você escolhe algo que ama, que a move com paixão, dificilmente alguém vai te tirar do caminho. Consegui mostrar que era possível e, depois de mim, outras mulheres conquistaram a faixa preta.

HT – Quando decidiu abrir sua própria academia? O que ela representa para você?

KG – Eu já tinha esse desejo. Queria criar um espaço que resumisse tudo o que aprendi na minha trajetória, e que eu pudesse passar adiante. Foi assim que nasceu a Gracie Kore. É um espaço pensado nos mínimos detalhes. Levei dois anos trabalhando com profissionais multidisciplinares para desenvolver o projeto pedagógico dela. Temos todo um trabalho antibullying para crianças. Ensinamos respeito ao próximo, empatia. É um projeto que eu tenho muito orgulho. E quando eu estava abrindo a GK, sabe o que me falaram?: “Uma mulher vai morrer de fome, porque ninguém vai querer ter aula com uma mulher”. 

HT –  Sabemos que você ensina autodefesa para mulheres, e além disso, mostra como reconhecer situações de risco. Como é atuar nesse contexto completamente necessário e urgente para as mulheres no Brasil?

KG – Esse é um dos projetos que eu estou trabalhando que eu mais gosto. Minha ideia é levar para o Brasil todo. O que eu falo é que é mais do que autodefesa. O jiu-jitsu trabalha diversos pilares. Um deles é a sua força interior. Quando você ganha essa noção, essa dimensão, consegue diagnosticar situações em que está sendo submetida a um assédio moral, por exemplo. Isso para um início de conversa. E ensino autodefesa, todas as formas que você pode se defender de um ataque, como se desvencilhar, imobilizar… Infelizmente é uma realidade que vivemos e que precisamos estar preparadas. Toda e qualquer mulher pode passar por uma situação dessas, lamentavelmente. É uma das minhas missões como Gracie e professora de jiu-jitsu ajudar as mulheres a não ficarem em uma situação de vulnerabilidade. 

HT – Você já viu de perto a violência explícita? Tem alguma história -sua ou das alunas- que a tenha marcado muito?

KG – Eu escuto muitas histórias. E o que mais me comove é ver uma mulher iniciar um curso de autodefesa fragilizada e vê-la se transformando nesse processo. Descobrindo potencialidades e segurança. É um processo. Não acontece da noite para o dia, mas é muito bonito acompanhar o desenvolvimento. Presenciei algumas situações em festas quando estava solteira. 

HT – Como você analisa o preconceito e violência contra as mulheres hoje em dia? Qual é o seu maior medo em relação a isso?

KG – É uma realidade que vivemos. O preconceito existe. A violência também está aí. É muito triste você acompanhar as notícias e constatar quantas mulheres são agredidas, mortas e tudo o mais que elas passam. Por outro lado, acho que vivemos também um momento em que estamos ganhando cada vez mais voz para denunciar abusos, assédios e isso é importante demais. Identificar o problema no começo é um dos temas de nossas aulas para que a mulher seja confiante e não se coloque em situação de risco. Como mãe, meu maior receio é esse mundo em que minhas filhas vivem. Quando criei a Gracie Kore, eu pensei muito sobre isso. Vejo aqueles alunos, aquelas crianças, com esperança de uma sociedade melhor, de um mundo menos violência, com mais empatia. 

A lutadora já tem sua própria academia e está à frente de um projeto de autodefesa para mulheres (Foto: Robert Carraco)

HT – Acha que a sociedade está caminhando para uma melhoria ou ainda estamos estagnados em um padrão arcaico de sociedade em relação ao machismo estrutural?

KG – Difícil. Tem dias que eu acho que estamos caminhando para uma sociedade melhor. Outros, não. Damos um passo, regredimos um. É como tenho visto esses dias. Mas vejo uma luta, vejo mulheres lutando por seu espaço e, como disse, quando olho para as crianças, acredito que temos potencial para mudar muita coisa. Mas estamos num processo, no início de um caminho. Ainda temos muito que caminhar para chegar numa sociedade menos machista. Estou fazendo a minha parte. 

HT – Você inspira mulheres de todo o mundo. Qual recado deixaria para elas?

KG – Que ninguém tem o direito de impedi-las de realizarem os seus sonhos. Que ninguém tem o direito de dizer o que ela tem ou não o que fazer. Você pode e deve fazer tudo o que quer. Que não existe esporte de homem e que mulheres podem sim lutar. Lutamos diariamente por direitos iguais e podemos lutar no tatame também. 

HT –  Você inspira mulheres. E quem são ou foram suas inspirações?

KG – Fui inspirada pela minha mãe que começou no jiu-jitsu, mas teve que parar porque a família não deixou ela continuar. Admiro muitas mulheres de outras áreas, como Gloria Maria, Maya Gabeira, Fernanda Keller, Daniela Genovesi

HT – Ter o peso nas costas de ser mulher, viver em um ambiente majoritariamente masculino e lutar contra isso todos os dias… Como você encara isso?

KG – Não encaro mais como peso. Tudo o que eu vivi me formou, me fez ser quem eu sou. Se hoje eu tenho propriedade para dividir a minha história, para fazer as minhas palestras, para dividir ensinamentos com meus alunos, tudo se deve à minha trajetória. Os reforços negativos me motivam.

HT – Desde que você entrou no esporte, o que mudou em você?

KG – Tudo mudou. Aprendi muito. Descobri que tenho uma força grande dentro de mim, que todos nós temos. Que podemos canalizar isso para um propósito. Eu cresci no esporte. Aprendi sobre empatia, generosidade, dedicação, profissionalismo, ganhar e perder, dar a volta por cima e acreditar em mim. O esporte é a base de quem eu sou hoje. 

HT – O esporte faz parte de você. Acha que existiria uma vida para você sem ele?

KG – Não vejo uma vida sem o esporte. Não consigo imaginar uma vida diferente. Mesmo com todas as dificuldades, eu escolheria passar por tudo novamente a ter uma vida sem o esporte. Ele potencializou todos os sentimentos que eu tenho que lidar na vida: frustrações, determinação, foco, respeito, honestidade, medos, ansiedades, tristezas e alegrias.

HT – Teve algum momento no qual pensou: “Estou no caminho certo”?

KG – Primeira vez que fui campeã. Ali foi um momento e tanto. Cada medalha, cada título conquistado foi marcante. Hoje, quando eu vejo a Gracie Kore, percebo mais do que nunca que trilhei o caminho certo, que fiz boas escolhas. 

HT –  O que uma mulher no esporte representa para o mundo?

KG – Igualdade, força e vontade.

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