*Por Brunna Condini
Depois de quase 30 anos de carreira no audiovisual e nos palcos, e aos 44 de vida, Juliana Knust, que estreou como musa do Cordão da Bola Preta no ano passado, vai repetir a dose neste carnaval, no desfile do próximo sábado (dia 14), no Centro do Rio de Janeiro. A atriz fala sobre a alegria de ‘musar’ hoje, em um mundo ainda etarista e misógino. Mais do que um título carnavalesco, o posto de musa chega como símbolo de uma mulher potente, talentosa belíssima e que escolhe estar em movimento. “É libertador! Quando a gente passa dos 40, a sociedade tenta empurrar a mulher para um lugar de “já foi”. E eu sinto exatamente o contrário: estou mais inteira, mais dona de mim, mais interessante. Ser musa depois dos 40 não é sobre corpo, é sobre energia, alegria e movimento”.
O recado é simples: a mulher não perde valor com o tempo, ela ganha repertório. Ganha história, cicatriz, humor, maturidade… a beleza muda, e ainda bem. Porque hoje ela vem junto com consciência, voz e escolha – Juliana Knust
A atriz comenta ainda o convite para estar em um dos blocos mais tradicionais da cidade. “É uma honra enorme, porque o ‘Bola’ é a história viva do Rio, um bloco que atravessa gerações. Tem algo muito simbólico em estar ali, no meio da rua, misturada com o público, sentindo essa energia que só o carnaval tem”. Acrescenta: “E me preparo para isso do jeito possível: cuidando do corpo, da cabeça e da energia”.
E ela divide os planos para além do bloco: “Gosto de misturar tudo no carnaval: um pouco de rua, um dia de Sambódromo, na Marquês de Sapucaí e um pouco de descanso. Depois do Bola Preta e do desfile das escolas de samba, corro para o meio da natureza e volto energizada para o palco”. Juliana está em cartaz, ao lado de Eri Johnson, com a comédia ‘Aluga-se um Namorado’, no Teatro dos 4, no Shopping da Gávea, até 1º de março. A seguir, a atriz fala mais sobre o carnaval, amadurecimento, liberdade, maternidade e carreira. E com fotos exclusivas deste seu momento na folia. Vem conferir!

Juliana Knust vira musa do carnaval após os 40 e desafia preconceitos e julgamentos ao celebrar a folia com liberdade e presença (Foto: Sergio Baia)
Minha relação com o carnaval é muito mais afetiva do que performática. Eu amo o encontro das pessoas, a liberdade, o riso solto. Não sou a pessoa que passa o ano inteiro pensando em fantasia, mas quando chega fevereiro eu entro no clima – Juliana Knust
Esse mesmo olhar atravessa a forma como a atriz lida com a exposição nas redes sociais e com as críticas constantes dirigidas aos corpos femininos, independentemente de idade ou padrão. Já sofreu esse tipo hate? “Sim, claro. Quem está minimamente exposta, sofre. A internet encoraja pessoas sem empatia”. Com o tempo, no entanto, ela aprendeu a não negociar a própria paz. “Nem todo comentário merece resposta, nem toda opinião merece moradia dentro da gente. Quando algo pesa, eu silencio, respiro, volto para o mundo real”. E afirma, que rir de si mesma também virou uma estratégia poderosa: “Isso desmonta muito julgamento”.

“A mulher não perde valor com o tempo, ela ganha repertório. Ganha história, cicatriz, humor, maturidade… a beleza muda, e ainda bem” (Foto: Sergio Baia)
Essa maturidade aparece com força também em seus trabalhos mais recentes. Na série ‘Estranho Amor’, que protagoniza na Record, ela vive Vânia, uma delegada e sobrevivente de violência doméstica, que lida com histórias de abusos contra a mulher — um tema que, para ela, não se restringe à ficção.
Como mulher, infelizmente, é impossível atravessar a vida sem esbarrar nisso, direta ou indiretamente. Nem sempre a violência é física. Às vezes começa na palavra, no isolamento, na culpa. Já vivi situações de controle, de medo emocional, de perceber que algo não estava saudável. Para uma mulher que está num relacionamento abusivo, eu diria: você não está exagerando. Se dói, é porque não é normal. Peça ajuda, fale com alguém, nem que seja uma pessoa só. O abuso se alimenta do silêncio. E sair não é fraqueza, é sobrevivência – Juliana Knust

“Aprendi que nem todo comentário merece resposta, nem toda opinião merece moradia dentro da gente. Quando algo pesa, eu silencio, respiro, volto para o mundo real” (Foto: Sergio Baia)
Ao se preparar para o papel, Juliana ouviu relatos, conversou com mulheres e se deparou com relatos que mudaram sua forma de atuar. “Mulheres fortes por fora e completamente quebradas por dentro. Isso transforma tudo”. O retorno do público, segundo ela, é o que dá sentido ao trabalho: “Quando recebo mensagens dizendo ‘me vi ali’, sinto que estou no caminho certo. Nessas horas, a história deixa de ser entretenimento e vira encontro”.
Desafios da maternidade hoje
Mãe de Mateus, de 16 anos, e Artur, de 10, a atriz também reflete sobre os desafios de educar filhos em um mundo hiperconectado. Casos recentes de violência envolvendo adolescentes, como o da morte brutal do cão Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis, a atravessaram profundamente. “Conversei muito com os meus filhos. Sobre empatia, sobre grupo, sobre coragem pra não seguir o que todo mundo está fazendo só para pertencer. Educar hoje é muito mais diálogo do que proibição. Tem combinado, tem limite, mas sobretudo tem presença. O que protege mesmo é vínculo”.
A internet hoje é um território sem cerca. Crianças e adolescentes veem coisas que a gente não via nem adulto. O caso do Orelha foi muito chocante. Não é só sobre violência. É sobre a banalização da dor do outro e sobre como a internet, às vezes, transforma crueldade em conteúdo – Juliana Knust

Juliana Knust com os filhos Mateus e Artur (Foto: Reprodução/Instagram)
Ao comentar o caso, a atriz defende que adolescentes envolvidos em episódios de violência precisam, sim, enfrentar consequências, acompanhadas de escuta e orientação. “Antes de formar currículo, a gente precisa formar caráter. De nada adianta criar jovens cheios de habilidades se eles não aprendem empatia, limites e responsabilidades. Responsabilizar é também ensinar que escolhas têm impacto real na vida do outro. E isso, para mim, é uma das tarefas mais importantes da família e da sociedade”.
Sonhos que se renovam
Ao revisitar sua própria trajetória, marcada pelo início na televisão em ‘Malhação‘, em 1997, e por personagens que atravessaram gerações, Juliana fala com carinho da menina que sonhava em ser atriz e da mulher que segue sonhando. Olhando hoje, teria feito algo diferente?
Talvez eu tivesse confiado mais em mim mais cedo. Perdemos muito tempo tentando agradar, caber, acertar. Hoje entendo que errar faz parte e que a nossa intuição é uma aliada poderosa. E desejo que a indústria continue abrindo espaço para mulheres maduras, complexas, engraçadas, imperfeitas – Juliana Knust

“Perdemos muito tempo tentando agradar, caber, acertar. Hoje eu entendo que errar faz parte e que a nossa intuição é uma aliada poderosa” (Foto: Sergio Baia)
No palco, esse desejo ganha corpo. Em cartaz com ‘Aluga-se um Namorado’, ela celebra o teatro como lugar de presença absoluta. “Ali não tem filtro, não tem corte, não tem segunda chance. É olho no olho com a plateia”. Depois de quase três décadas de carreira, o frio na barriga permanece, e é justamente isso que a move. “Ainda sonho tanto. Sonho com personagens que me desafiem o tempo todo, que me tirem da zona de conforto e me obriguem a aprender algo novo a cada trabalho. Não quero repetir fórmulas. Quero continuar curiosa, inquieta, crescendo junto com os papéis que faço. Para mim, atuar é isso: é não parar de se transformar”. Entre o carnaval de rua, o palco e os encontros que escolhe provocar, Juliana Knust reafirma que a maturidade conquistada é território fértil. E cada vez mais seu.

“Ainda sonho tanto. Sonho com personagens que me desafiem o tempo todo, que me tirem da zona de conforto e me obriguem a aprender algo novo a cada trabalho” (Foto: Sergio Baia)
Ficha Técnica (ensaio)
Fotógrafo: Sergio Baia
Beauty: Karina Bianchi
Looks: Atelie Skindo Lele