*por Luísa Giraldo
As jovens criadoras de conteúdo Mari Krüger, bióloga, Maju Ferreira, médica generalista, e Carol Pinhol, biomédica embriologista, acumulam milhões de visualizações nas redes sociais. A fórmula do sucesso: as três influenciadoras compartilham informações sobre a saúde feminina, sobretudo sexual e higiênica. Em trabalhos separados, as especialistas na área produzem materiais digitais com objetivo de combater a desinformação e tranquilizar mulheres, que se deparam frequentemente com conteúdos alarmantes e que podem comprometer o bem-estar mental.
Embora muitos internautas considerem polêmicos, devido aos detalhes sobre a intimidade feminina, as mulheres ainda são carentes de informações relacionadas à saúde. Assim revela a pesquisa “Os estigmas da vagina”, realizada pela marca Intimus em 2020. O estudo revelou que 15% das brasileiras evitam olhar para a própria vulva diariamente, e 25% afirmam não ter o hábito de tocá-la. Apesar do interesse em aprender mais sobre saúde íntima, metade das participantes não soube apontar corretamente em uma foto o que seriam a vulva e a vagina.
Daí, a necessidade de democratizar informação acerca da saúde mental, física e sexual das mulheres na internet.
Mari Krüger
DJ nas horas vagas, a bióloga Mari Krüger, 35 anos, conquistou mais de dois milhões de seguidores no Instagram (@marikrugerb) com conteúdos que unem ciência e saúde ao humor. Moradora de São Paulo, a gaúcha tem 36,2 milhões de curtidas no Tik Tok, uma das plataformas em que utiliza personagens inusitados, como alimentos, órgãos e suplementos, para traduzir informações científicas em linguagem popular e divertida.
A proposta vai além do entretenimento: o objetivo é desmistificar mitos que circulam com facilidade nas redes e combater a desinformação com base em evidências. Em um mundo repleto de fake news, especialmente na área da saúde, a abordagem da bióloga se destaca por tornar o conhecimento técnico acessível e engajador. Não à toa, são milhares de respostas dos seguidores, comentários e pedidos para mais vídeos.
“A disputa por audiência é injusta porque a ciência é chata, no fim das contas. Tenho o trabalho de fazê-la menos chata e um pouco mais atraente. Encontrei no humor esse jeito de dizer para a galera que a ciência pode ser algo ‘legal’, uma coisa fácil de entender”, reflete, nas redes sociais.

A bióloga Mari Krüger é um fenômeno nas redes ao aliar humor e ciência para combater a desinformação (Reprodução/Instagram)
“Falo muito sobre a ciência não conversar só entre os pares, mas com o público também. E o quanto, às vezes, a gente perde para a galera que espalha desinformação justamente por não saber como comunicar, não saber como conversar, não saber passar informação adiante”, lamenta ela, que será uma das vozes do evento TEDxBlumenau 2025, em Santa Catarina.
Também atriz, Mari começou a produzir vídeos durante a pandemia da Covid-19, quando percebeu a urgência de informações confiáveis nas redes sociais. Desde então, usa o humor como ferramenta estratégica para atrair atenção e estimular o pensamento crítico, especialmente entre o público mais jovem. A influenciadora entende que o humor não apenas facilita a compreensão, sobretudo de conteúdos mais densos, mas pode criar um vínculo de confiança com os seguidores.
Além de vídeos virais desmentindo promessas milagrosas de produtos sem comprovação científica, vendidos por influenciadores, ela ganhou popularidade ao desmistificar práticas de higiene feminina. Mari também aborda temas de saúde cotidiana, como o uso de banheiros públicos, ao explicar que urinar fora de casa não representa risco real de contaminação, desmistificando um medo comum entre mulheres.
A educação não é só uma ferramenta poderosa de transformação. Para mim, ela é única — Mari Krüger.
Mari opina sobre um dos tópicos mais perguntados. “Suplementos funcionam. A grande questão é saber se você precisa, de quais precisa, quanto precisa. Sair comprando suplemento só porque a blogueira indicou não faz sentido. Toda suplementação precisa ser indicada de forma individualizada por um profissional (sim, até o Whey e a creatina). Cuidado com a hipervitaminose”, alertou, por escrito.
Maju Ferreira
A médica generalista Maju Ferreira, 25 anos, está se especializando em Ginecologia e Obstetrícia (GO) apesar de estudar a área a fundo há anos. A decisão de se dedicar à saúde da mulher veio após começar a criar conteúdo sobre a Tocofobia, um tipo de transtorno de ansiedade generalizada (TAG) relacionado à maternidade. A profissional tem um milhão de seguidores no Instagram (@mjferreiraa).
“A população leiga não sabe filtrar as informações verdadeiras, pautadas em evidencias científicas, das não verdadeiras, que são informações que, de fato, podem prejudicar a própria saúde. Ao longo da Pandemia, vimos que as pessoas tomam decisões muito arriscadas em relação à própria saúde delas com base em mentiras”, atesta Maju.
Caracterizada pelo medo extremo da gravidez e do parto, a Tocofobia foi reconhecida em 2000, na publicação de um estudo no British Journal of Psychiatry. Embora pouco estudada, a condição pode afetar profundamente a saúde mental e sexual da mulher, ao provocar crises de ansiedade, episódios depressivos, queda no desejo sexual e dificuldades na formação do vínculo entre mãe e filho. A fobia é dividida em duas categorias: a primária acomete mulheres que nunca engravidaram e pode passar despercebida, já a segunda surge após experiências traumáticas durante a gestação ou o parto.
Obstinada a vencer a desinformação sobre o transtorno, ela abre o jogo sobre a necessidade de transformação na sociedade. “A Tocofobia precisa começar a ser vista como problema de saúde pública. Precisa parar de ser um ‘medinho’, que as pessoas fazem chacota e piada, para se tornar um transtorno psicológico que afeta diretamente a qualidade de vida da paciente”, atenta.

A médica Maju Ferreira cria conteúdos sobre a Tocofobia (Reprodução/Instagram)
A saúde feminina é um tabu na sociedade. Não é um assunto que perpetua muito entre as famílias brasileiras, nas conversas entre mães e filhas e, até mesmo, entre amigas. É um tópico sensível. Pegar um assunto com pouco acesso à informação e propagar desinformação [sobre ele] gera um caos sobre a nossa própria autonomia. Saúde feminina é autoconhecimento. É ter, literalmente, poder sobre o seu próprio corpo — Maju Ferreira.
Sem papas na língua, Maju democratiza informações sobre Educação Sexual, muitas vezes negligenciadas pelas instituições de ensino e pelos familiares. Ela aborda as diferenças entre os métodos contraceptivos, tópico que se aprofunda ao enfatizar que “as taxas de falha são mínimas” e que as mulheres podem confiar na técnica de contracepção escolhida. Nos conteúdos, a médica também compartilha conhecimentos relevantes sobre o prazer feminino, constantemente invalidado.
“No geral, o nível de informação sobre saúde feminina é pobre”, avalia ela ao lembrar que o país é muito diverso — e, portanto, têm seguidores com todos os níveis de conhecimento. A médica ressalta um aprendizado valioso da faculdade: “mesmo pessoas com alto poder aquisitivo sabem pouco sobre a saúde” da mulher. Grande parte da população feminina não sabe entre contracepção, ciclo menstrual e sangramentos, reconhece.
Informação é liberdade. Não há como garantir a autonomia feminina, ou seja, garantir que as mulheres tomem as melhores decisões sobre o próprio corpo, sem informação. É uma escolha velada — Maju Ferreira.
Embora muitos profissionais da saúde optem por uma postura mais “tradicional”, distante das redes, Maju opina que a presença on-line permite aprofundar a conexão com o público e o compartilhamento de informações de relevância. “Tenho uma linguagem muito leiga e popular, sempre falo isso nos vídeos. As pessoas vão me ver falando ‘piriquito’, ‘vuco-vuco’, ‘leitada’, entre outros porque meu objetivo é atingir as pessoas que precisam e que não entendem nada sobre o assunto”.
Deixo o técnico para o consultório. Nunca recebi um feedback negativo de uma paciente. A internet sempre foi uma aliada ao meu trabalho e às minhas consultas — Maju Ferreira.
Carol Pinhol
Doutora em Biologia Celular, a biomédica embriologista Carol Pinhol, 32 anos, tem uma postura comedida em frente às câmeras, porém não tem medo de abordar assuntos polêmicos do mundo feminino. Desde 2023, ela é co-apresentadora do Podcast “EU MENSTRUO”, um projeto que propõe “conversas abertas sobre menstruação, que vai muito além de fertilidade e sangue”. Atualmente em Belo Horizonte, em Minas Gerais, a paulista tem aproximadamente 160 mil seguidores no perfil @ser.intime, criado em 2019, no Instagram.
Em vídeos com análises de modelos anatômicos do corpo feminino e explicações detalhadas, a influenciadora dá ênfase à conscientização da saúde íntima da mulher. A biomédica quebra tabus sobre a menstruação, o sexo e a educação sexual feminina na contemporaneidade. Conforme esclarece nas redes, ela defende a abordagem da “saúde íntima sem tabus e sensacionalismos”.
Pessoalmente, não tenho medo de engravidar e nem medo de ficar infértil, mas transito diariamente entre esses dois universos. De manhã, trabalho como embriologista ajudando casais a engravidarem através de fertilização in vitro. E à tarde, como criadora de conteúdo, ajudando pessoas a se protegerem nas relações e acabar com o medo da gravidez indesejada. Podem até parecer coisas opostas, mas na verdade não são tão distantes assim — Carol Pinho.

A biomédica embriologista Carol Pinho aborda as facetas cientificas da menstruação e do prazer feminino (Reprodução/Instagram)
A especialização e o sucesso do trabalho digital levaram Carol a participar de palestras e de simpósios, de lecionar Saúde Sexual em escolas e participar de Podcasts sobre sexualidade. Os seguidores acompanham a nova fase da biomédica: o pós-doutorado em Embriologia.
“Sigo falando sobre tudo que a gente gosta de saber, desmistificar fake news de saúde, conhecer nosso corpo, normalizar menstruação sem demonizar métodos contraceptivos, resgatar nossa autonomia e nosso poder de escolha, querendo ter filhos ou não”, declarou, nas redes.
Acostumada a orientar as seguidores sobre formas seguras de fazer sexo, a profissional enfatiza que “se você usa algum outro método contraceptivo da maneira correta, não precisa se desesperar em relação a gravidez”. No entanto, ela orienta as mulheres “a não se esquecerem das doenças.
Na era das fake news viralizar é mais importante do que informar, e o conhecimento científico embasado é deixado de lado para dar espaço para vídeos vazios e manchetes sensacionalistas sem checagem de informações — Carol Pinho.
Artigos relacionados
Vidente Val Couto prevê: Brasil tem 67% de chance de ir à final da Copa do Mundo; Lula será reeleito em 2026
Com humor e crítica social, atriz Aquela Miranda lança livro sobre crise, ansiedade e dores dos millennials na web
Cíntia Chagas estreia no 'Domingo Espetacular' e leva debate sobre Língua Portuguesa para a TV aberta