Influencer feminista Hana Khalil lança podcast inspirado em quadro militante de sucesso “Não É Por Akhaso”


Ex-participante dos programas “Big Brother Brasil” (BBB 19) e “De Férias com o Ex Brasil Celebs”, Hana Khalil se coloca como uma criadora de conteúdo politicamente ativa e não se importa de incomodar o público mais conservador nas redes. “Comentários machistas significa engajamento. O conteúdo está engajando com os comentários conservadores. E eu adoro eles porque sei que o meu conteúdo incomoda. Se não causa impacto, não tem críticas e, infelizmente, está agradando todo mundo, [não está impactando]. Não me preocupo se o impacto das pessoas for negativo por saber que, ao falar as coisas que eu escolho, vou mexer em estruturas e questionar o status quo e gerar incômodo”.

Conhecida pela participação no "BBB" e no "De Férias com o Ex", influenciadora digital Hana Khalil não cogita voltar a participar de realitys

*por Luísa Giraldo

Após o sucesso do quadro crítico “Não É Por Akhaso” nas redes sociais, a influenciadora digital Hana Khalil planeja transpor as vivências femininas para as plataformas de áudio. Em  podcast, ela optou por trabalhar um leque variado de temas e reflexões relacionadas ao imaginário da mulher contemporânea. Ex-participante de dois realitys de sucesso no Brasil, “Big Brother Brasil” (BBB 19), na TV Globo, e “De Férias com o Ex Brasil Celebs”, da MTV,  Hana compôs o projeto com algumas de duas experiências no mundo da internet, polêmicas vividas na trajetória dos programas e análises críticas sobre preconceitos estruturais. A atriz revelou estar com o projeto pronto há meses, à espera de uma data certa para compartilhar a novidade aos aproximadamente quatro milhões de seguidores no Instagram e no Tik Tok. Sem abrir mão do quadro que a alçou à condição de influencer militante e que desperta ondas de hate por parte de internautas conservadores, Hana explica que vai se dedicar duplamente ao produzir conteúdos para serem assistidos e ouvidos.

Anos trabalhando como influencer elucidaram a percepção da ex-sister sobre as críticas e comentários depreciativos nas suas publicações. Hana admitiu que demorou a entender e aceitar a presença constante das críticas no ofício dela. Atualmente, a militante estabelece uma relação saudável com as discordâncias, feedbacks negativos e hates que recebe.

“Comentários machistas significa engajamento. O conteúdo está engajando com os comentários conservadores. E eu adoro eles porque sei que o meu conteúdo incomoda. Se não causa impacto, não tem críticas e, infelizmente, está agradando todo mundo, [não está impactando]. Não me preocupo se o impacto das pessoas for negativo por saber que, ao falar as coisas que eu escolho, vou mexer em estruturas e questionar o status quo e gerar incômodo”, identifica.

A atriz Hana Khalil diz que não se incomoda em cutucar os grupos mais conservadores com seus conteúdos

A atriz Hana Khalil diz que não se incomoda em cutucar os grupos mais conservadores com seus conteúdos (Foto: Yago Goulart)

Ao alcançar o reconhecimento público pelos realitys, Hana acredita já ter se habituado com a postura agressiva do público diante de seus posicionamentos. Outro ponto que contribuiu para o fortalecimento da aceitação da situação foi a experiência de abordagem de temas sensíveis, como o consumo de carne e laticínios, no início da carreira dela na internet.

Não tem para onde correr. Percebi que em tudo que faço, se eu quiser falar destas coisas, vou ter que botar minha cara [a tapa]. Vou virar o alvo. Então, é sobre prioridades e o que eu quero. Já entendi que não quero me estressar e nem perder energia com isso. Às vezes, não vou falar sobre alguma coisa e está tudo bem também porque eu não sou obrigada a falar sobre tudo e a ter uma posicionamento sobre absolutamente todas as questões do mundo — Hana Khalil

Embora tenha se colocado como apreciadora do conteúdo das plataformas digitais, a atriz pontuou que demorou até entender que a internet não era mais um “lugar de diversão”. Afinal, Hana desenvolveu uma relação de peso e responsabilidade com o papel social que representa no mundo digital. Hoje, ela opta por separar os campos do “trabalho” e da “diversão”.

“Para trabalhar com a internet, você deve ter certeza do que está fazendo e de quem você mesmo é. E se permitir errar também. É importante entender que crítica é muito diferente do engajamento do hate. Sei que dói, mas aí a terapia e auto análise estão aí. Não tem jeito, eu vivi muita coisa neste mundo”, diz ela.

Papel como influenciadora digital

Inspirada na capacidade de transformar a percepção dos seguidores, a cineasta direciona os conteúdos a um público massivo. “A minha função é adaptar as linguagens e torná-las acessíveis ao público. Uso a comunicação assertiva e carioca para isso. Ao longo do tempo, descobri que as coisas precisam ser o menos acadêmicas possível. Quando tiro um tema do papel e o abordo com outra linguagem, acabo conversando com pessoas não voltadas para aquele nicho específico. Não falo apenas para pessoas iguais a mim, mas para outras realidades. Às vezes, o meu vídeo vai ser o mais perto que uma pessoa vai chegar de entender daquele tema”.

A influencer Hana Khalil lança o novo projeto em áudio "Não É Por Akhaso", inspirado no quadro de sucesso nas redes sociais

A influencer Hana Khalil lança o novo projeto em áudio “Não É Por Akhaso”, inspirado no quadro de sucesso nas redes sociais (Foto: Yago Goulart)

Apesar disso, a criadora de conteúdo reconhece que o ofício dela não deve se encarregar exclusivamente do tratamento de pautas sociais. Afinal, Hana avalia que há muitos outros influenciadores mais representativos do que ela neste mercado. Atualmente, ela se coloca como uma influenciadora com uma abordagem “muito mais ampla” do que apenas as pautas sociais.

“O que eu faço por estas lutas é tentar abordar um assunto relevante que seja difícil de penetrar de forma simples e até visual. Cada vez mais, as redes sociais estão submetendo a gente a uma cultura mais enlatada. Seguindo as métricas que o Tik Tok está criando, a gente está vendo mais vídeos curtos sem se concentrar mais em apenas uma coisa. A minha função é chamar a atenção das pessoas para o que é importante” atenta.

Segundo Hana, as ideias para a criação de vídeos e conteúdos vem da troca dela com o mundo. As vivências como mulher bissexual em um mundo ainda permeado pelo machismo e homofobia estruturais serve como as principal fontes de inspiração para a seleção de temas e reflexões para seu trabalho.

Aprendi a escutar as pessoas. É mágico quando elas têm muito a falar e a gente percebe que não é um lance individual, que já viu isso. O nome do quadro que eu fiz para o Instagram, ‘Não É Por Akhaso’, não é à toa. Porque nada é por acaso mesmo, nem mesmo as experiências individuais. A graça de todo o processo é popularizar os pensamentos, que eles não fiquem apenas entre a nossa mesa de bar. Quero que a gente consiga falar com as pessoas — Hana Khalil

A artista Hana Khalil admitiu já ter sofrido muito com as críticas excessivas na internet

A artista Hana Khalil admitiu já ter sofrido muito com as críticas excessivas na internet (Foto: Yago Goulart)

Humanidade na persona dela na internet 

O posicionamento da atriz é claro: não faz sentido vender uma imagem perfeita e inexistente aos seguidores. Hana reconhece que é uma mulher “muito chata e criteriosa”, que exige muito de si e não consegue fingir quando não gosta de algo. Entretanto, não se exime dos defeitos ao ressaltar que tem suas “contradições, falhas, devaneios e luxos”. Reconhecendo a condição como humana, a influencer confessa que muitas coisas também lhe sobem à cabeça.

Apesar de contestar a normalização do termo, Hana se coloca como alguém autêntica. Ela entende que o uso exagerado desta característica como descrição acaba por descaracterizá-la. Além disso, a criadora do quadro “Não É Por Akhaso” disse que não se acha perfeita.

Não tenho mais a necessidade de ‘ser’ [o que as pessoas esperam de mim], mas trabalho de uma forma que me sinto confortável. Não estou mais nessa de precisar cumprir ou parecer algo. Isso porque realmente não dou mais o peso que eu dava para as coisas. Faço se eu quiser. Também não quero que o meu propósito esteja aleatório ou perdido, mas quero estar concentrada. No trabalho, a obsessão e a perfeição não me permitem sair muito do meu eixo — Hana Khalil

A passagem pelos reality-shows

Em 2019, a atriz de 27 anos participou dos realitys “Big Brother Brasil” (BBB 19), na TV Globo, e “De Férias com o Ex Brasil Celebs”, da MTV. A passagem conturbada pelos dois programas não demorou a marcar a personalidade forte de Hana nos olhares do público e da mídia.

Apesar de valorizar a trajetória vivida nos programas, Hana afirmou que não voltaria a participar deles. “Não participaria pela fase da vida que estou. Um reality de pegação não combina mais comigo. Não faz parte do que eu quero para mim hoje em dia, mas foi uma experiência maravilhosa. Ela me deu muita estrutura. Eles, de fato, acreditavam em mim em uma época que pouca gente fazia isso”, descreve, ao relembrar que era o tipo de pessoa que repreendia os amigos por assistir programas do mesmo gênero.

Militante feminista na internet, Hana Khalil suscita muitas polêmicas com os quadros de reflexão e debate sobre preconceitos enraizados na sociedade

Militante feminista na internet, Hana Khalil suscita muitas polêmicas com os quadros de reflexão e debate sobre preconceitos enraizados na sociedade (Foto: Divulgação)

Ao exaltar a “magia das contradições”, a criadora de conteúdo confessou ter se envolvido de maneira intensa com as causas feministas a ponto de sentir “raiva de tudo” e viver experiências que a deixavam ainda mais inflamada com o tópico. Todavia, acredita que a existência de uma ‘Hana mais combativa’ nos realitys foi necessária para uma versão mais consciente de si mesma.

“Os realitys são um reflexo de tudo que acontece na vida. Não é sobre julgar as pessoas individualmente, mas de entender problemas coletivos e estruturais e pensar junto neles. Sei que as pessoas vão errar, mas o que torna o erro delas maior do que os meus? A minha fixação com os erros dos outros se dava pelo medo dos meus próprios erros. Eu tinha medo de me contradizer e de não ser perfeita. Eles mostram estereótipos e questões estruturadas no mundo inteiro que estão pré-disponíveis para todos. Basta um escorregão para ativá-los”.