*por Vítor Antunes
Ele nasceu no Complexo do Alemão, é cria do subúrbio e da periferia, mas foi na internet que encontrou a vitrine que o projetou para o grande público. Com um humor inventivo, pouco convencional e carregado de personalidade, Fábio Cruz, mais conhecido como Fabão, consolidou-se como um fenômeno digital. Sua marca é a criatividade, sempre aliada a uma assinatura única que o distingue entre tantos criadores de conteúdo. Agora, esse talento que surgiu das ruas e ganhou espaço no universo digital dá passos decisivos para ocupar também outras telas. No dia 24 de setembro, Fabão estreia no GNT e no Globoplay o programa “Infiltrado na Cozinha“, ao lado da chef Paola Carosella e da influenciadora Luana Zucoloto. E as novidades não param por aí: em outubro, ele já começa as gravações para outro projeto televisivo.
Sobre a estreia no GNT, Fabão fala da empolgação. “O ‘Infiltrado’ é um programa que, se eu não tivesse participando dele, eu com certeza assistiria, porque ele é muito dinâmico, unindo dois assuntos que o brasileiro gosta: comida e game. Ele é um programa mega gamificado, onde se busca entender quem é o infiltrado na cozinha”.
Fabão conta como foram as gravações. “Foi incrível gravar com a Paola. A gente tem uma amizade já de longos anos. Ela é uma pessoa que eu gosto muito de ter por perto. Neste trabalho conheci a Luana Zucoloto que também que faz parte do projeto, que é super rápida, super inteligente, tem um humor muito muito maravilhoso. Vai ser bacana vermos a Paola num lugar que eu acho que o Brasil ainda nunca viu”.

Paola Carosella e os jurados Fabão e Luana Zucoloto nas gravações de ‘Infiltrado na Cozinha’. (Foto: Adalberto de Mello Pygmeu)
Mas se a internet foi a base e a televisão está sendo a consequência natural, Fabão já mira mais longe: as artes cênicas. Instalado em Laranjeiras há pouco mais de um ano, o criador de conteúdo ingressou na tradicional Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) para aprofundar sua formação. “Eu sempre coloquei na minha cabeça, desde antes da minha primeira graduação (em Publicidade), que para trabalhar com alguma coisa eu preciso saber do que estou falando. Quando eu decidi que eu queria ir atuar e apresentar, eu decidi investir em mim mesmo. Então, se hoje eu consigo fazer CAL, quero estudar e tirar um DRT para chegar no futuro e ter autoridade na fala, e com o meu DRT nas mãos”. — afirma.
O desejo é claro: consolidar-se também como ator, sem abandonar o audiovisual, campo onde já construiu uma relação de afeto. “Está nos meus planos concluir a CAL, continuar apresentando, que é um lugar em que eu me descobri muito. Eu gosto do audiovisual, creio que o bichinho do audiovisual quando pega a gente não tem como fugir. É irresistível e, felizmente, é uma relação mútua”.

Fabão é um dos nomes do “Infiltrado na Cozinha” (FotoAdalberto de Mello Pygmeu)
FANTÁSTICO MUNDO DE FABÃO
Fabão fala sobre como a favela influenciou sua personalidade e sua escrita. Mas, ao mesmo tempo, faz questão de não se apoiar em uma narrativa fácil, que glamourize ou romantize a favela. Para ele, a vivência no Complexo do Alemão é um ponto de partida, não um rótulo. “O subúrbio ou a favela influenciam 100% em mim. Eu sou a pessoa que sou hoje graças ao Fábio criança, que cresceu no Complexo do Alemão cercado de muita masculinidade, de muita virilidade e num momento em que eu não conseguia performar essa masculinidade toda. Então, durante muito tempo o que funcionava para mim era o ‘Fantástico Mundo de Fabão’: Tudo que acontecia na minha cabeça. E hoje, quando eu consigo externalizar isso para arte, seja para o vídeo ou para algum evento, eu vejo que tudo que eu vivi meio que me preparava para estar aqui hoje”. Ele explica que a dureza da realidade periférica exige uma habilidade de sobrevivência que ultrapassa qualquer estereótipo. “É o jogo de cintura de saber dar nó em pingo d’água que hoje me faz com que eu consiga transitar em espaços que no primeiro momento eu achava não conseguir”, revela.
Por isso, Fabão rejeita a ideia de usar a favela como recurso de espetáculo ou de exotização. Ele alerta para os riscos da estetização da precariedade. “O dia a dia da pessoa que mora no Complexo ou em outra favela, é a de um buraco muito mais embaixo. Não vivemos em um reality. A vida real da favela está muito atrelada com os nossos corres. Há gente que participa do programa para poder ganhar um prêmio, realizar um sonho”.

Fabão: “Há gente nma favela que trabalha para melhorar de vida ou descansar” (Foto: Adalberto de Mello Pygmeu)
Nesse processo de rememoração, ele revisita sua própria história familiar. A mãe, auxiliar de serviços gerais, foi um pilar fundamental de sua trajetória. “Tem muita gente da favela que trabalha exaustivamente só para poder descansar, ou poder ter paz. A minha mãe, me criou sendo auxiliar de serviços gerais. E eu lembro que os dois pontos dela eram precisos: Ou ela reformar a casa ou ela queria pegar um dinheirinho para, no final do ano, ir para São Pedro da Aldeia descansar. Ela pensava em apenas trazer algo para melhoria de vida ou descansar” — recorda.
Fabão também lança um olhar crítico sobre as camadas de estigmatização que envolvem o homem favelado: da hipersexualização à masculinidade tóxica. Reconhece que, de certa forma, foi moldado para ocupar esse estereótipo, até perceber que precisava se libertar dele. “Eu sou o sétimo neto depois de seis netas. Então eu já nasci com aquela expectativa de ser o neto homem. E aí, quando eu começo a ter consciência de quem eu sou vejo que não vou conseguir suprir essa demanda. Não é minha. Eu começo a meio que lutar para ser quem eu sou. E aí eu percebo que o meu entorno também lutava muito contra eu ser quem eu sou”.
As únicas pessoas assumidamente LGBTQ+ dentro da favela que eu conhecia eram pessoas ou muito fechadas, ou eram aquelas pessoas que se tornavam piada da comunidade. E eu não queria estar nesses dois lugares, eu não queria ser a pessoa reclusa, e eu não queria ser a pessoa que virasse a piada. Eu queria ser aquela pessoa que só estivesse vivendo, e que a minha vida particular não fosse pauta. E aí, passando o tempo, eu fui entendendo que fugi desse óbvio, que em diversos momentos transitei nesses lugares de ser o assunto no sentido de ser a piada, porque, querendo ou não, quando você começa a ter autonomia de quem você é, que você banca quem você é, como você fala, como você se veste, como você quer, você vai virar um assunto” — Fabão
Diante desse cenário, o humor tornou-se para ele mais do que uma vocação: foi uma estratégia de sobrevivência. “A memória do primeiro momento que eu tenho contato com o humor é exatamente para isso. Ele entra na minha vida para fugir do bullying, para fugir da homofobia, para fugir da realidade. Eu lembro, na época de escola, que antes de virem fazer qualquer piada comigo com cunho racial, eu já meio que me zoava. Era uma forma de poder transitar entre as pessoas sem que eu fosse sempre o alvo do dardo. Então eu vou fazer a piada comigo mesmo, eu vou me zoar, eu vou zoar do meu tamanho, eu vou zoar de eu ser uma bicha afeminada, eu vou caminhar para esse lugar, que é onde eu consigo sobreviver”.
Vai passando o tempo, eu consigo perceber que o humor, ele não era uma arma que eu ativava e desativava, ele tava intrínseco. Então ele era a minha forma de falar, era o jeito de eu raciocinar. Então, às vezes eu raciocinava alguma coisa e falava algo que de tal maneira comecei a perceber que as pessoas estavam rindo comigo e não de mim. E aí eu entendo o papel do humor na minha vida, mas inicialmente ele entra única e exclusivamente para me salvar do bullying, da homofobia e até da realidade dura mesmo” — Fabão

Fabão: “O humor não pode ser uma arma” (Foto: Adalberto de Mello Pygmeu)
VERDADE
A arte de Fabão é, antes de tudo, a arte de sua verdade. Sua criação nasce de um lugar de improviso, espontaneidade e sinceridade. “Eu sou do improviso, então raramente são os momentos em que eu escrevo roteiro para os meus vídeos. E falo coisas aleatórias que sempre têm um ponto em comum, que vai ter um quê político ali, uma crítica, alguma provocação. Quanto ao meu conteúdo, em meio a tantos acessos e formas de criar, eu optei pelo arroz com feijão, pela cara limpa, pelo básico, com edições básicas, sem nenhuma firula. E, vira e mexe, falando sobre arte — algo que sempre gostei, mas que não tinha com quem conversar. E aparentemente deu certo”.
Para Fabão, a escolha de se mostrar sem artifícios é também uma forma de resistência em meio a um cenário digital repleto de filtros e produções altamente polidas. É, sobretudo, uma forma de comunicar com clareza a essência do que deseja transmitir: crítica social, humor e autenticidade. Se para muitos LGBTQ+ o deboche se tornou ferramenta central de sobrevivência, Fabão acredita que sua força está em outra chave. Para ele, a sinceridade e o humor falam mais alto — e transformam mais. “Eu acho que com o humor você consegue falar sobre tudo. Desde a notícia mais dura. É algo que vem muito do carioca e do gay ter o deboche presente, mas é algo intrínseco. Todo mundo tem algo que vai te fazer rir, todo mundo tem algo que vai te fazer pensar. E aí, quando eu olho e consigo usar do humor para questionar coisas sociais, eu olho e falo: ‘Hum, talvez aqui seja o lugar que eu consigo comunicar coisas’. Óbvio que tem momentos em que o humor precisa vir de uma forma mais seca, então ele entra para quebrar a dureza. E em outros momentos, ele é para, enquanto você tá dando risada, também te fazer refletir” .

Fabão e Luana Zuccoloto são a dose de diversão do “Infiltrados” na cozinha (Foto: Adalberto de Mello Pygmeu)
No entanto, ele faz questão de demarcar limites éticos. Para Fabão, o humor não pode ser um escudo para discursos ofensivos ou preconceituosos. “Se a piada que eu estou contando, ou sobre como eu estou contando, ofendeu alguém, acabou a graça. Desde o conteúdo mais simples até o mais elaborado. A maioria das pessoas que trabalham e que publicam o seu trabalho online têm acesso à mesma internet. Então, há a possibilidade de pesquisar. Entender se isso ofende, se isso não ofende, se ofende, por que ofende. Eu acho que usar do humor para continuar propagando pensamentos, falas e comportamentos preconceituosos é de um retrocesso enorme. Eu acredito que a gente que faz humor tem na mão uma arma tão poderosa que é o riso do outro. Não tem poder maior do que fazer outra pessoa sorrir. E há quem faça uso disso para fazer a pessoa chorar, isso não faz sentido para mim” — reflete.
A consciência sobre a responsabilidade do riso cresce na mesma medida em que aumentam seus seguidores. Ser referência, ele sabe, é inevitável. “O trabalho que eu faço reverbera para alguém. Não dá para eu negar que, por exemplo, quando eu estava em casa assistindo TV, tinha um personagem ou outro que eu olhava e falava assim: ‘Nossa, que legal’. Então, se eu estiver sendo referência para alguém, e torço para estar sendo alguma referência para alguém, eu fico feliz. Eu não sinto esse peso, mas entendo que a internet dá uma responsabilidade muito grande nas nossas mãos e eu tento usar dessa responsabilidade o máximo de sabedoria possível” — afirma.
Ao fim, a pergunta se impõe: será que o menino Fábio, lá do Complexo do Alemão, seguiria o Fabão de hoje? Ele responde sem hesitar. “Sim. E muito pela loucura. Eu acho que ele ia olhar e ia falar: ‘Cara, eu me identifico com esses pensamentos dessa pessoa com esse pensamento meio crazy assim’. E eu acho que eu mandaria uma mensagem para mim, uma DM, pedindo dicas de criação, de escrita… Eu sempre fui muito curioso e eu acho que isso era uma das grandes faltas que eu tinha antes de entrar na faculdade. Para além dos livros, pensava com quem que eu vou conversar aqui? Com quem que eu vou trocar ideia? E aí eu acho que, se eu tivesse esse acesso à internet como a gente tem agora, eu mandaria mensagem e falaria: ‘Cara, me dá uma dica de por onde eu começo? Me ensina a começar. Por onde eu começo? Como é que faz?'”
Fabão é, ao mesmo tempo, ponto de partida e ponto de chegada. Filho da favela, moldado pela dureza e pela imaginação, ele entendeu cedo que sobreviver também pode ser uma forma de criar arte. Transformou feridas em riso, silêncios em voz, e hoje caminha com a leveza de quem carrega um propósito maior do que a fama: o de comunicar, provocar, emocionar. Do “Fantástico Mundo de Fabão”, que nasceu no Complexo do Alemão, ao palco da televisão, sua trajetória revela que a autenticidade não é apenas estilo, mas destino. E talvez seja justamente aí que resida sua força: Fabão não representa — ele é.
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