*por Luísa Giraldo
Descrita como uma época de diversões, despreocupações e novas vivências, a juventude não é mais um momento livre de “crises”. Uma angústia perdura no peito de milhares de jovens na casa dos 20 anos: “Estou perdido ou atrasado?”. Com uma crescente sensação de urgência, a Geração Z enfrenta a pressão de trilhar um caminho profissional bem-sucedido, descobrir um propósito de vida e exibir conquistas constantemente enquanto sente que as facetas adulta e madura estão em construção. Essa demanda cria um turbilhão interno, marcado por inquietações e inseguranças, que nem sempre são fáceis de entender ou expressar.
A busca pelo sucesso imediato, impulsionada pelas redes sociais, alimenta a constante sensação de atraso em relação aos outros. Enquanto a percepção aumenta, a pressão pela comparação profissional e pessoal permanece intensa e, muitas vezes, implacável. Nas redes sociais, são milhares de vídeos sobre o fenômeno, que é compartilhado por jovens de todo o mundo. Atualmente, esse grupo (pessoas dos 18 aos 29 anos) representa cerca de 25% da população total do país.
Uma pesquisa de 2022 do Kantar Ibope Media revelou que os jovens brasileiros estão adiando os marcos tradicionais da vida adulta. Sair da casa dos pais, casar e ter o primeiro filho ocorrem, em média, aos 26 anos, mesma idade em que geralmente compram o primeiro automóvel. Já a aquisição do primeiro imóvel acontece mais tarde, geralmente após os 35, o que indica uma ampliação do tempo para a consolidação da vida adulta no país. Em outras palavras, essa sensação de insegurança se reflete nas escolhas pessoais e profissionais da Gen Z.
Aos poucos, o mundo hiperconectado criou uma sensação de ritmo acelerado, que pode despertar angústia e ansiedade. Essa perspectiva temporal não é novidade e impacta cada vez mais os jovens. Desde 1982, Lulu Santos atenta a urgência de vivências intensas: “o tempo voa”, “escorre pelas mãos” e “não há tempo que volte”, canta ele em “Tempos Modernos”.
Especializada no atendimento de adolescentes e adultos, a psicoterapeuta Roberta Senna esclarece que “a crise dos 20 é real”. A profissional observa que essa tem sido uma questão complexa para a Geração Z e que exige atenção. “Vale ressaltar que essa crise ocorre, normalmente, entre os 20 e 30 anos. Trata-se de um período marcado por inseguranças, dúvidas e pressões sociais, especialmente sobre carreira, relacionamentos, identidade e futuro”, analisa a psicóloga.
Quando digo [que a Crise dos 20] parecer estar “mais difícil”, trago observações concretas sobre o adiamento real do processo de amadurecimento. A adolescência está se prolongando. Hoje, há jovens de 20 e poucos anos vivendo rotinas parecidas com as de adolescentes. Há uma permissão para que isso ocorra por parte da família e da sociedade como um todo – Roberta Senna
Roberta pondera que “o conflito interno” surge neste momento de transição, de crescimento e de negação do fechamento de um ciclo da vida. “Tempos atrás, durante a adolescência, muitos iniciavam as carreiras, os primeiros empregos e isso, por exemplo, permitia certa autonomia e entendimento sobre autorresponsabilidade. A autonomia foi um pouco adiada. Hoje, os jovens precisam de um tempo maior para fazer essa travessia”, identifica.
Essa instabilidade aos 20 não é o único momento de crise existencial. Pesquisas no campo da psicologia relacionam o fenômeno à “adultez emergente” (AE), o período de transição da adolescência para a idade adulta. Embora a cobrança acompanhe as pessoas ao longo de toda a vida, há diferenças entre os impasses emocionais enfrentados em diferentes idades, tais como:
- Crise dos 20 e poucos anos: inseguranças sobre a carreira, relacionamentos e o futuro.
- Crise dos 30 anos: questionamentos sobre escolhas de vida, sucesso profissional e desejos de estabilidade.
- Crise da meia-idade (40-60 anos): reavaliação da vida, questionamentos sobre realizações, mortalidade e busca por um novo sentido.
- Crise da “síndrome do ninho vazio”: sentida por pais quando os filhos saem de casa, envolvendo sentimentos de solidão e perda.
- Crise da velhice: questões sobre saúde, perda de entes queridos e adaptação a novas limitações

A crise dos 20 reflete um momento de tensão pela passagem da vida infantil para a adulta (Reprodução/Freepik)
Curiosamente, a “crise dos 20” vai de encontro à biologia. O cérebro humano só atinge a maturidade por volta dos 25 anos. Até então, está em processo de desenvolvimento e amadurecimento, sobretudo o córtex pré-frontal, cujas funções são o planejamento, a tomada de decisões e o controle emocional. Hoje em dia, no entanto, os jovens são pressionados a tomar decisões definitivas, como se já estivessem totalmente preparados para isso.
A psicoterapeuta de adolescentes e adultos Roberta Senna descreve como “a Crise dos 20 pode afetar os jovens adultos em múltiplas dimensões”, sejam emocionais, relacionais ou sociais.
Essa fase [de crescimento] envolve uma reorganização significativa das dinâmicas familiares, de identidade e de projetos de vida. Embora não seja patológica, essa crise pode gerar ansiedade, frustração e sensação de estagnação. Socialmente, o jovem pode sentir-se pressionado a corresponder expectativas idealizadas de sucesso e estabilidade, mesmo em um cenário de incertezas econômicas e mudanças constantes – Roberta Senna
Segundo Roberta, as pressões externa e interna podem levar à paralisia, despertar comparação excessiva com seus pares e sensação de fracasso. “Emocionalmente, muitos jovens vivenciam sentimentos de insegurança, ansiedade e inadequação ao se depararem com escolhas importantes sobre carreira, afetos e futuro”, afirma ela.

Embora não seja patológica, a crise dos 20 pode gerar ansiedade, frustração e sensação de estagnação (Reprodução/Freepik)
“A parte relacional também sofre reflexos. A relação com os pais pode ser afetada. Nem sempre o processo de individuação e busca por autonomia é compreendido pela família. De modo geral, o jovem tem dificuldade de compreender, claramente, como e o que seguir, e, por vezes, a expectativa da família esbarra nessas incertezas”.
A “Crise dos 20” é um momento importante de transformação, necessidade e tomada de decisão, que precisa de cuidado para não se tornar mais do que apenas uma fase. Esse momento precisa ser uma boa ponte para a chegada real na vida adulta, e não um momento adoecedor – Roberta Senna.
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