*por Luísa Giraldo
Não espere o clássico “alô” ao discar o número de celular de alguém da Geração Z. A reação desses jovens, nascidos de 1997 a 2013, ao telefone é puro silêncio. Sem um “quem fala?” ou um tímido “oi”, eles esperam e escutam cautelosamente. Só depois de alguns segundos decidem se vale a pena responder. O motivo: em tempos de deepfakes, golpes e ansiedade social, um cumprimento ao outro lado da linha se tornou quase um convite para o inesperado. E a Gen Z, desacostumada a lidar com a sensação de impotência e descontrole, não deseja surpresas em tempo real.
Nas redes sociais, o comportamento foi nomeado como etiqueta do silêncio. Afinal, basta que apareça a solicitação de uma chamada para a Gen Z virar estátua. Ao contrário do esperado, a reação não é desinteresse, mas um protocolo de segurança. O primeiro som pode ser um risco e, talvez, um incômodo em tempos em que a voz pode ser capturada, manipulada e usada. Muitas vezes, o medo rege os comportamentos da Geração Z.
Conversar por telefone está se tornando um hábito cada vez mais vintage e, para alguns, fora de moda. Uma pesquisa do site britânico Uswitch revelou que 25% das pessoas entre 18 e 34 anos afirmam nunca atenderem o telefone. Entre os entrevistados dessa faixa etária, 70% preferiram mensagens de texto, e 37% apontaram os áudios de WhatsApp como forma de comunicação favorita. A lógica é clara: se o número é desconhecido, a chamada é ignorada. Se for urgente, a mensagem deve chegar por escrito ou por emojis.
É justo considerar que o ato de troca ao telefone não é só tecnológico para a juventude, mas vulnerável e emocional. Ligar exige coragem, timing, disposição para lidar com silêncios reais (não os digitados), contradições, discordâncias e rejeições de outra pessoa. Não é todo dia que se tem estrutura para isso na contemporaneidade. Na dúvida, esse grupo opta por ignorar a chamada ou atender e deixar quem ligar falar primeiro. Funciona como um filtro em tempo real.
Especializada no atendimento de adolescentes e adultos, a psicoterapeuta Roberta Senna observa que esse hábito da geração Z pode refletir mudanças mais amplas na forma de comunicar. “Crescendo em um mundo digital, muitos jovens estão mais habituados a mensagens instantâneas e redes sociais, onde a comunicação é direta, rápida e, muitas vezes, silenciosa.”
A ausência do “alô” pode parecer descortesia para gerações anteriores, mas para os mais jovens representa uma adaptação ao estilo objetivo e imediato de interação”. Ainda assim, é importante refletir sobre como esses novos hábitos impactam a qualidade da comunicação e a construção de vínculos interpessoais — Roberta Senna.
A profissional identifica ser “importante compreender que esse comportamento informa que, para eles, começar uma ligação já falando diretamente o que querem pode parecer mais natural”. No entanto, Roberta ressalta: “Do ponto de vista relacional e social, isso pode gerar ruídos de comunicação, especialmente com pessoas de outras gerações que interpretam essa ausência de saudação como falta de educação ou desatenção.”
Segundo a psicóloga, o hábito pode dificultar a conexão entre diferentes faixas etárias e ambientes profissionais. Ela reforça que “não se trata de certo ou errado, mas de compreender os contextos e desenvolver flexibilidade comunicativa. Isso é saudável em qualquer geração. Adaptar-se ao outro também é uma forma de cuidado e empatia”, descreve.
O comportamento da geração Z ao evitar dizer ‘alô’ em chamadas telefônicas muitas vezes está ligado a um senso de autoproteção diante de riscos reais do mundo digital, como golpes por clonagem de voz ou fraudes telefônicas. Ela cresceu em meio a constantes alertas sobre segurança digital e exposição de dados pessoais. Assim, a cautela ao atender ligações (inclusive, evitando pronunciar palavras que possam ser gravadas e usadas indevidamente) pode ser entendida como uma resposta adaptativa a um cenário de insegurança crescente — Roberta Senna.
No entanto, a especialista reconhece que “viver em estado de constante alerta pode alimentar sentimentos de desconfiança e ansiedade” e, por isso, orienta a busca de um equilíbrio: adotar medidas de proteção sem comprometer completamente a espontaneidade das relações e a comunicação humana. Para Roberta, “esse fenômeno convida a sociedade a refletir sobre como a era digital está moldando nossas interações mais básicas, como atender o telefone, e a importância de oferecer apoio emocional e orientação crítica para que os jovens possam se sentir seguros sem perder a leveza nas conexões”.

A Geração Z não atende ao telefone por receio (Reprodução/Freepik)
Perigos de atender ao telefone
Além do receio da rejeição, a Geração Z tem motivos para temer a exposição nas ligações. Longe de ser apenas “preguiça”, uma postura precavida tornou-se uma medida de segurança no mundo contemporâneo. Entre áudios de apps como WhatsApp e Instagram que viram golpes e tecnologias que imitam vozes, os jovens criam uma blindagem: ninguém fala nada até saber com quem está falando. Se antes o “alô” era o ponto de partida, agora pode ser risco para quem está discando.
Inevitavelmente, o ato de ligar virou uma questão de confiança. Para conquistá-la, é preciso mais do que aparecer na tela com um número desconhecido e torcer para que o receptor esteja em um bom dia. A chamada deve ser feita com intenção, contexto e, de preferência, um aviso prévio por mensagem, outro protocolo não dito que é seguido à risca nas redes.
Avós de muitos jovens da Gen Z, os Baby Boomers (1946-1964) parecem bastante relutantes a esse comportamento da juventude, visto que foi uma geração que cresceu disputando o telefone fixo da casa com os irmãos. A possibilidade de falar com alguém à distância como se estivesse próximo foi uma revolução no mundo da telecomunicação. Para os mais velhos, esse silêncio inicial beira o absurdo. Porém, para quem cresceu se comunicando por texto, a lógica é simples: quem ligou, fala primeiro. Quem atendeu, escolhe se quer continuar. Na verdade, a nova etiqueta não tem manual, mas possui códigos, constantemente atualizados na velocidade de um story.

Geração redefine a comunicação por telefone (Reprodução/Freepik)
Ao invés de julgar, uma boa estratégia de aproximação é ouvir a Gen Z. Mesmo com o outro lado da linha mudo, esse silêncio é barulhento e revela aspectos complexos do mundo contemporâneo: medos, sobrecarga, adaptação e novos jeitos de existir. Se antes o telefone conectava, hoje ele pressiona. Atualmente, desejamos responder quando nos sentimos prontos.
Voz sem exclusividade
O silêncio temeroso à espera de uma voz do outro lado da linha não significa que os jovens não se comunicam. Eles, assim como os das gerações passadas, desenvolveram uma forma única de fazê-lo. Aonde? Nas web, nos grupos de WhatsApp, nos áudios de três minutos e meio, ambientes que falam sem querer interrupções. Preferem construir a conversa no próprio ritmo, com tempo para pensar, revisar, apagar, responder com um meme. A ligação, nesse contexto, é crua demais. Não dá para editar e nem voltar atrás… é “analógica” e espontânea demais para o cotidiano.
No mundo profissional, a fobia do telefone também se infiltrou. A simples ideia de receber uma ligação fora de hora já acelera corações e levanta defesas. Muitos relatam sentir pressão ao serem obrigados a improvisar, dar respostas imediatas ou manter a voz firme quando a cabeça ainda está no e-mail anterior. Assim, a ligação virou um ato quase invasivo. Em tempos de burnout coletivo, a Geração Z optou por preservar limites e seu silêncio.
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