Geração Z abandona uso de letras maiúsculas como protesto à formalidade e ressignifica relação humana com a escrita


O fenômeno da Geração Z em abandonar o uso de letras maiúsculas na comunicação online transcende a mera informalidade. Emerge como um marcador cultural que reflete valores como autenticidade, rejeição à rigidez e busca por conexão. Essa escolha estética cria uma atmosfera de calma e amizade. Para os jovens da Gen Z, que demonstram consciência de seu uso em contextos formais, a predominância das minúsculas representa uma forma significativa e instintiva de expressar sua identidade em um mundo digital em constante evolução.

A Geração Z está abandonando as letras maiúsculas na comunicar digital (Reprodução/Spotify)

*por Luísa Giraldo

Tendências comportamentais surgem e desaparecem rapidamente na contemporaneidade, marcada por um intenso fluxo digital. Longe de ser apenas modismo, um movimento da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) promete ressignificar a relação entre o ser humano e a escrita: o abandono quase generalizado das letras maiúsculas na comunicação online. Até a era da internet, a gramática tradicional impunha a formalidade do início de frase e dos nomes próprios a partir das letras maiúsculas, porém os jovens da atualidade estão optando por um estilo integralmente minúsculo que se tornou uma preferência estética e um marcador sócio-cultural.

A escolha de ignorar as letras maiúsculas pode parecer simples preguiça a olhos menos atentos, contudo revela um reflexo dos valores e atitudes dessa geração em relação às normas estabelecidas. Artistas como Billie Eilish, fenômeno pop da Gen Z, exemplificam a aplicação dessa estética ao usar apenas minúsculas em títulos de músicas e álbuns, como “don’t smile at me” ou “my future”, consolidando a ideia de que o “minúsculo” é descolado e autêntico.

Em consonância, as marcas e plataformas digitais estão atentas a essa mudança. Playlists do Spotify, por exemplo, estão adotando intencionalmente a letra minúscula para sinalizar um clima de informalidade e relaxamento. Marcas de maquiagem como a Glossier e Kylie Cosmetics também incorporam as minúsculas nas embalagens. O objetivo: buscar uma imagem mais suave e acessível ao público, uma estratégia de aproximação com a linguagem descolada da juventude.

Essa preferência pelo uso da letra minúscula baixa transcende o valor estético. Muitos jovens entendem que as letras maiúsculas podem soar severas, abruptas ou até agressivas, como um “grito” no ambiente digital. A ausência, por outro lado, cria uma atmosfera calma e amigável, convergente com os valores da Geração Z. Esse grupo cresceu online, onde as fronteiras entre a comunicação formal e informal são constantemente borradas. Escrever em minúsculas, nesse contexto, pode ser visto como um ato de rejeição à autoridade e à rigidez associadas à gramática tradicional, promovendo uma inclusão e conexão emocional mais direta.

A marca Kylie Cosmetics está adotando a linguagem da Geração Z ao lançar;çar produtos que começam com letras minúsculas (Reprodução/Sephora)

A marca Kylie Cosmetics adotou a linguagem da Geração Z ao lançar produtos que começam com letras minúsculas (Reprodução/Sephora)

O século passado foi marcado por semelhantes de rejeição à maiúscula, a exemplo dos conhecidos versos de E. E. Cummings (1894-1962). Mais tarde, a escritora e ativista feminista bell hooks (1952-2021) adotou intencionalmente o uso de minúsculas no próprio nome como declaração política, desafiando hierarquias e buscando desviar o foco da pessoa para suas ideias.

Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), e professora da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Aline Saddi Chaves observa que a predileção pelas letras minúsculas não é novidade. A pesquisadora propõe uma reflexão que remonta os primórdios da história da escrita.

Segundo Aline, a escrita tem origem por volta de 3.500 a.C. em pictogramas (desenhos), evolui para alfabetos consonantais (apenas com consoantes) de matriz egípcia difundidos por gregos e romanos e culmina nos grafemas atuais. Na Antiguidade predominavam as maiúsculas, as “letras capitais” (do latim caput, cabeça).

A marca Glossier está adotando a linguagem da Geração Z ao lançar;çar produtos que começam com letras minúsculas (Reprodução/Sephora)

A marca Glossier está adotando a linguagem da Geração Z ao lançar;çar produtos que começam com letras minúsculas (Reprodução/Sephora)

“O surgimento das minúsculas remonta ao período medieval, quando, sob o império de Carlos Magno (742 d.C-814 d.C.), os monges beneditinos encontraram uma solução econômica para transcrever os textos sagrados e administrativos, prática comum na época. Com efeito, as letras capitais ocupavam muito espaço no suporte então empregado, o pergaminho, fabricado a partir do couro de novilho, considerado uma verdadeira fortuna. Desse modo, uma solução econômica deu origem a uma prática que subsiste até os dias atuais, fazendo parte das normas de escrita predominantes no Ocidente”, identifica.

A especialista pontua que os avanços tecnológicos sempre provocaram mudanças sociais, movimento que se intensificou na era digital, sobretudo com o advento dos smartphones. “Mais do que o rádio e a televisão, a internet modificou substancialmente a linguagem humana, ao permitir conexões em tempo real”, afirma. Isso reduziu distâncias e alterou hábitos em todas as esferas da vida, como a privada e a pública.

O uso massivo de recursos imagéticos, os conhecidos emojis, e mais recentemente, a supressão das letras maiúsculas em início de frase são alguns dos fenômenos decorrentes das transformações ocasionadas pela comunicação em meio digital. Tais fenômenos refletem o próprio funcionamento dessas tecnologias, que proporcionam uma comunicação imediata e representam um enorme ganho de tempo – Aline Saddi Chaves.

A professora universitária entende que o “abandono” das letras maiúsculas entre jovens, especialmente da geração Z, vai além da praticidade. “Trata-se de uma nova representação da escrita, que se afasta da formalidade e se aproxima da oralidade, mais espontânea e íntima”, define. Para ela, essa mudança reflete a busca por uma conexão mais direta com o interlocutor – papel que, antes, cabia à comunicação presencial. Aplicativos como o WhatsApp, com cerca de 2 bilhões de usuários, reforçam esse movimento ao oferecer uma troca imediata e pessoal, impulsionada por recursos verbo-audiovisuais.

Inúmeras canções de Billie Eilish, estrela pop da Gen Z, têm nomes totalmente minúsculos (Divulgação)

Inúmeras canções de Billie Eilish, estrela pop da Gen Z, têm nomes totalmente minúsculos (Divulgação)

Os emojis e as letras minúsculas traduzem o caráter fluido dessa nova modalidade de comunicação e reproduzem a interação face a face em meio digital. As letras maiúsculas podem soar muito formais ou imperativas. Porém, quando se trata de uma comunicação mais formal, em meio profissional ou acadêmico, por exemplo, as normas de escrita ainda prevalecem – Aline Saddi Chaves

De volta à Geração Z: o apelo visual e a simplicidade também são aspectos relevantes para esse fenômeno jovem. Isso porque há algo na forma como as letras minúsculas se alinham que é visto como mais estético e minimalista, aspecto que combina com o encantamento dessa parcela da população pela imperfeição e simplicidade. O resultado: para muitos, esse estilo tornou-se instintivo, quase um hábito e se espalhou rapidamente em grupos de chat e redes sociais.

Curiosamente a Geração Z demonstra consciência sobre a importância do contexto. Muitos jovens recorrem ao uso de letras maiúsculas em ambientes profissionais ou acadêmicos, visto que há uma expectativa de formalidade. A capitalização, inclusive, foi adotada como marcador humorístico da vida adulta em tendências no TikTok e no Instagram. Isto é, “anunciar” a reativação da maiúscula automática pode ser um sinal de maturidade.

“É cedo para afirmar se essa prática veio para ficar, pois cada advento tecnológico tende a transformar as práticas estabilizadas. O que, hoje, é considerado novo ou transgressor pode ser julgado ultrapassado em um futuro não muito distante. Além disso, o sistema tradicional de escrita, tal como o conhecemos, foi aprimorado ao longo de milhares de anos, o que significa que a normalização de novas práticas de escrita demoraria um longo tempo até se sedimentar por completo”, finaliza Aline.