*Por Brunna Condini
Recentemente, viralizaram nas redes sociais vídeos que têm gerado estranhamento e controvérsia, como a de uma jovem que levou o seu bebê reborn – boneco hiper-realista que imita um recém-nascido – às pressas para o pronto-socorro, porque ele “não estava se sentindo bem”; ou ainda, o da influenciadora que simulou um ‘parto’ de um bebê reborn. Por aqui, personalidades como Sabrina Sato, Padre Fabio de Melo e Nicole Bahls (que tem reborn de bebê e de filhote de animais também) aderiram à moda, com motivações distintas. O assunto está nas rodas de conversa, confrontando a lógica do real e o que entendemos como maternidade, paternidade e vínculo afetivo. Outro fenômeno contemporâneo que tem chamado à atenção, são pessoas que vivem e se identificam como animais. Um caso que tomou notoriedade neste sentido, foi o do japonês Toko-san, que chegou a gastar o equivalente a cerca de R$ 75 mil para realizar o sonho de se tornar um cachorro da raça border collie, comprando uma fantasia realista. Mas o que esses comportamentos nos dizem? Nós, aqui do HT, fomos atrás de respostas.
“Embora pareçam fenômenos muito distintos, criar bebês reborn e viver como animal (como nos casos de human pups, furries, ou formas lúdicas ou clínicas de zoantropia) compartilham aspectos estruturais importantes: ambos envolvem uma relação de fantasia com o corpo, com o objeto e com o desejo do outro. Na psicanálise, fantasia não é vista como simples devaneio, mas como uma estrutura que organiza o desejo. Ela funciona como um filtro por meio do qual o sujeito sustenta sua relação com o prazer e com o outro”, explica a psicanalista Luiza Scarpa. E segue a análise, ao investigar diversos pontos sobre o fenômeno, como o papel das redes sociais na legitimação desses comportamentos:

Gente criando bebê reborn, gente querendo viver como os animais, o que significam esses fenômenos contemporâneos?
“As redes têm um papel central, já que oferecem visibilidade, reconhecimento e pertencimento para formas de vida antes invisíveis ou marginalizadas. Funcionam como vitrines de expressão identitária e afetiva — e criam comunidades em torno dessas práticas. Mas também correm o risco de transformar sintomas em performances, e a dor em espetáculo. Muitas vezes, reforçam identidades sem promover escuta, simbolização ou transformação. São espelhos que mostram a imagem, mas nem sempre abrem espaço para o desejo”.

Padre Fabio de Melo e Sabrina Sato com bebês reborn (Divulgação)
Em um mundo onde a linha entre o real e o performático é cada vez mais tênue, fenômenos como adultos que vivem como pets ou cuidam de bonecas reborn revelam mais do que excentricidades: podem escancarar as lacunas afetivas, as fugas do trauma e o desejo profundo de controle em uma realidade cada vez mais instável. Esses comportamentos são vistos como ‘desvios’ ou formas válidas de expressão individual? “Essa é uma pergunta delicada, pois envolve a distinção entre uma expressão subjetiva legítima e algo que, na clínica, pode ser lido como sintoma, defesa ou desvio. A psicanálise não trabalha com categorias morais de certo e errado ou normal e anormal. Ela não classifica os comportamentos em ‘desvios’ ou ‘expressões válidas’ no sentido normativo. A pergunta que se faz é: isso permite que o sujeito deseje? Há espaço para o outro, para a linguagem, para a falta? O sujeito está alienado à fantasia, ou brinca com ela?”

Gente ou Bicho? Boneca ou Bebê? A realidade que virou performance
Quando essas práticas servem à simbolização, ao erotismo criativo, à arte ou à elaboração de traumas, podem ser formas interessantes de expressão subjetiva. Mas quando funcionam como negação da realidade, fixação no gozo ou recusa da alteridade, podem acender alertas — não para repressão, mas para escuta – Luiza Scarpa
Há relação entre essas práticas e transtornos como ansiedade ou depressão? “De certo modo, sim. Do ponto de vista psicanalítico, a ansiedade não é só preocupação excessiva, mas um sinal de que o sujeito está diante de algo que escapa à simbolização — como a morte, a perda, ou o desejo do outro. Os bebês reborn, por exemplo, podem funcionar como objetos transicionais em casos de perda gestacional. Cuidar do reborn pode ajudar a acalmar a angústia, reconstruir uma cena psíquica e resgatar o narcisismo ferido”, diz.

“Já a depressão, surge quando há uma perda do objeto de investimento libidinal (real ou simbólica) que o eu não consegue elaborar. Isso leva à retirada do desejo e à identificação mortífera com o objeto perdido. Em alguns casos, o bebê reborn encarna esse objeto — o filho ideal, o bebê morto, a maternidade frustrada. Cuidar dele pode tanto ser uma forma de elaborar o luto quanto um sinal de fixação melancólica, especialmente quando a pessoa o trata como se fosse vivo, afastando-se dos vínculos reais”.
Na prática de viver como animal, pode haver também uma forma de desinvestimento narcísico — o sujeito abandona sua humanidade, sua linguagem, sua responsabilidade. É como se dissesse: “não sou digno de ser um sujeito desejante”. Isso pode apontar para um quadro depressivo, no qual o eu está rebaixado e fragmentado – Luiza Scarpa

Toko-san, o japonês que gastou aproximadamente R$ 75,9 mil para fazer uma fantasia de um cão da raça collie e se ‘transformar’ em cachorro (Reprodução Twitter/Zeppet )
Luiza avalia ainda, se esses casos refletem uma crise de identidade ou um excesso de individualismo. “O sujeito não nasce com uma identidade pronta. Ele se constitui ao longo do tempo, na relação com o outro — pais, linguagem, cultura. Isso exige aceitar a falta, passar pela castração simbólica e encontrar um lugar próprio no desejo. Mas vivemos uma época em que os grandes referenciais simbólicos estão em colapso. A função paterna (como limite simbólico) está esvaziada, a ordem social não oferece identidades estáveis, e a cultura de consumo valoriza o gozo imediato e a autorreferência. Nesse contexto, surgem sujeitos em busca de identificações imaginárias intensas — como tornar-se um bebê idealizado, viver como um animal, ou performar identidades contínuas nas redes sociais e no corpo. Essas formas são tentativas de estabilizar a identidade onde o simbólico fracassa. Não são apenas escolhas livres, mas respostas a um mal-estar estrutural”.
Excesso de realidade?
A psicanalista também destaca que a pandemia intensificou esse tipo de comportamento. “A pandemia nos confrontou com um real sem mediação simbólica — a morte em massa, o isolamento, o colapso das rotinas e das estruturas de apoio simbólico. Isso gerou uma angústia generalizada e nos levou a um retorno ao mais primitivo: a relação com o corpo, com o tempo e com o gozo. Nesse contexto, práticas como cuidar de bonecos ou assumir identidades alternativas funcionaram como tentativas de reorganizar minimamente o mundo psíquico. O isolamento prolongado intensificou um movimento regressivo, em que muitos passaram a investir em fantasias, objetos de conforto e mundos internos”.
Esses fenômenos revelam um aumento da solidão e da carência afetiva? “Sim, revelam claramente um aumento da solidão subjetiva e de uma carência afetiva profunda, muito características do nosso tempo. Mais do que modas sociais ou comportamentos excêntricos, essas práticas podem ser entendidas como tentativas de lidar com um desamparo estrutural que se intensificou nas últimas décadas — com a pandemia, mas também por causa de mudanças culturais, tecnológicas e econômicas”, analisa.

“Na psicanálise, estar só não é apenas estar sem companhia, mas estar fora do laço com o outro simbólico — aquele que fala, deseja, impõe limites. Assim, alguém que cuida de um bebê reborn ou vive como animal pode até estar rodeado de pessoas, mas sem conseguir estabelecer uma relação marcada pela alteridade, pelo desejo recíproco. Essas pessoas se refugiam em um objeto (real ou imaginário) que não fala, não frustra, não exige — e justamente por isso, também não possibilita um vínculo verdadeiro. Portanto, mais do que sintomas da solidão, essas práticas são tentativas subjetivas de responder ao colapso dos laços com o outro”. Luiza acrescenta:
Essas práticas muitas vezes funcionam como uma forma de escapar das exigências da vida adulta — responsabilidades, frustrações, linguagem, alteridade. São formas de regressão em busca de um estado onde não há conflitos, nem exigência de posição subjetiva – Luiza Scarpa

Estamos regredindo emocionalmente ou reinventando nossos vínculos com o mundo? “Essa é uma das grandes questões da clínica e da cultura hoje — e talvez a melhor resposta seja: as duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. De um lado, há comportamentos que apontam para uma regressão: o apego a objetos inanimados, o afastamento dos vínculos humanos, a imersão em mundos fictícios. Tudo isso revela uma tentativa de proteção diante da angústia, da perda de sentido e do colapso dos laços simbólicos. É uma resposta à fragilidade emocional da vida contemporânea”, reflete.
“Ao mesmo tempo, também estamos vendo surgir novas formas de inventar vínculos e subjetividades — formas que desafiam as normas tradicionais e ampliam as possibilidades de existência. Muitos sujeitos usam essas práticas para reconfigurar o desejo, explorar afetos e habitar o mundo de forma mais autêntica, mesmo que por caminhos considerados ‘não humanos’.Não é apenas regressão. Também há reinvenção simbólica — uma tentativa de criar novos laços com o corpo, com o outro e com a linguagem”.

Essas escolhas indicam o que estamos perdendo como sociedade? “Sim. Mostram a dissolução de vínculos simbólicos sólidos, e o colapso de estruturas de pertencimento como a família, a comunidade e o trabalho. Quando pessoas buscam afeto em bonecos ou se refugiam em identidades não humanas, estão, muitas vezes, revelando uma sociedade que não oferece espaço para a dor, a diferença ou a fragilidade”. E observa:
Essas escolhas também sinalizam uma tentativa de reinventar o cuidado, a identidade e o sentido, mesmo que por vias não convencionais. Revelam que, apesar de tudo, o desejo de laço e de expressão subjetiva persiste — mesmo quando os modos tradicionais falham – Luiza Scarpa
Como lidar com essas expressões sem preconceito, mas com senso crítico?
“O desafio é equilibrar escuta empática com análise crítica. É preciso suspender julgamentos morais, mas sem abrir mão de refletir sobre o que esses comportamentos significam para o sujeito e para a sociedade. Primeiro, é importante reconhecer que essas práticas são tentativas de dar forma a algo psíquico — um afeto, uma perda, uma angústia, um desejo. Não se trata de rotular como ‘patológico’ ou ‘estranho’. A escuta psicanalítica parte do princípio de que todo sintoma ou invenção tem uma função: proteger, elaborar, sustentar o sujeito. Mas o senso crítico nos convida a perguntar: Por que tantos sujeitos hoje estão buscando substitutos para o laço humano? O que isso diz sobre o mal-estar da cultura? Essas práticas ajudam o sujeito a viver — ou o isolam ainda mais?Como disse Lacan: “É preciso acolher o sintoma, mas não fazer dele uma morada definitiva”.

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