‘Feed Zero’: Geração Z deixa de publicar fotos nas redes por medo de julgamentos e deseja ter controle no mundo digital


O movimento do “Feed Zero” reflete uma tentativa da Geração Z de escapar da superexposição e da pressão constante por perfeição nas redes sociais. O que antes era um espaço leve e espontâneo, hoje exige curadoria, estética e preparo emocional. Diante do medo de julgamentos e do cansaço digital, muitos jovens optam por perfis vazios e migram para formatos mais efêmeros, como os Stories. O “grid zero” se torna, assim, um símbolo de resistência: menos sobre ausência e mais sobre controle, privacidade e uma desconexão consciente em meio ao excesso. A neuropsicóloga Gleyna Lemos identifica que o fenômeno “reflete claramente aspectos importantes da saúde mental dessa geração, especialmente ligados à ansiedade social, insegurança e autoimagem fragilizada”. A profissional reconhece que “muitos jovens da Geração Z têm medo constante do julgamento alheio, o que pode estar associado à baixa autoestima, perfeccionismo excessivo e uma maior vulnerabilidade emocional

Jovens da Geração Z aderem a moda do "Feed Zero", em que não publicam mais fotografias nas redes sociais (Reprodução/Pexels)

*por Luísa Giraldo

Até meados de 2015, o feed no Instagram era um espaço de compartilhamento livre, onde os usuários experimentavam filtros diversos, editavam as imagens e publicavam fotos com caretas. Não havia preocupação excessiva com a estética da fotografia, visto que era um ambiente digital voltado para a diversão. Em 2025, essa realidade se inverteu. Um post é, atualmente, um evento, que requer uma espécie de preparação psicológica dos internautas, causa ansiedade e pode impactar a autoestima de forma severa. Todo esse estresse levou a Geração Z (1997-2010) a aderir um movimento inusitado: o “Feed zero”, a escolha de não publicar nada por medo do julgamento alheio e da autopressão.

A imagem precisa ser impecável, o timing ideal e a legenda cuidadosamente pensada para transmitir a estética desejada — um processo extremamente cansativo. Essa busca constante pela perfeição alimenta um ciclo de comparações, onde o sentimento de insuficiência se torna comum. Além disso, a frustração digital se intensifica diante de influenciadores que exibem rotinas invejáveis, vidas idealizadas e fotos perfeitas.

Também chamado degrid zero”, o compartilhamento nulo dos jovens resulta em milhares de perfis vazios, com pouquíssimas postagens e, até mesmo, sem fotos no ícone. Todavia, o feed zerado não significa que esse grupo está inativo nas redes. Com idades que variam dos 15 aos 28, a Gen Z prefere publicar conteúdos mais efêmeros, registros que desaparecem após 24 horas, nos Stories, ou mandar mensagens privadas (DM).

Jovens da Geração Z aderem a moda do "Feed Zero", em que não publicam mais fotografias nas redes sociais (Reprodução/Pexels)

Jovens da Geração Z aderem a moda do “Feed Zero”, em que não publicam mais fotografias nas redes sociais (Reprodução/Pexels)

A neuropsicóloga Gleyna Lemos identifica que o fenômeno “reflete claramente aspectos importantes da saúde mental dessa geração, especialmente ligados à ansiedade social, insegurança e autoimagem fragilizada”. A profissional reconhece que “muitos jovens da Geração Z têm medo constante do julgamento alheio, o que pode estar associado à baixa autoestima, perfeccionismo excessivo e uma maior vulnerabilidade emocional. O receio de não receber aprovação social imediata nas redes sociais intensifica sentimentos de inadequação, isolamento e angústia, e pode levar ao desenvolvimento de quadros ansiosos ou depressivos”.

Gleyna afirma que essa postura merece uma avaliação cuidadosa por parte de profissionais do âmbito da saúde e de pessoas próximas.

Por um lado, essa postura é positiva quando indica uma tomada de consciência sobre os limites pessoais e a necessidade de autopreservação emocional frente à pressão social virtual. Por outro, quando motivada essencialmente pelo medo excessivo de julgamento ou inadequação, evidencia aspectos que precisam de maior atenção psicológica. Sugere uma necessidade crescente de apoio emocional, desenvolvimento de habilidades de resiliência e fortalecimento da autoestima, especialmente entre adolescentes e jovens adultos — Gleyna Lemos.

Explicado por pavor à rejeição pública, o “feed zero” resulta na criação de perfis fake ou fechados, os famosos “dix” e“dailys”, onde os usuários podem compartilhar o cotidiano sem tanta preocupação. Trata-se de uma forma supostamente de construir “espaços mais seguros nas redes”, revelou Kim Garcia, pesquisadora da Meta sobre tendências culturais no Instagram, à NPR. Os jovens da atualidade cresceram em um mundo profundamente conectado, em que a separação entre as esferas privado e digital não foi bem delimitada.

No entanto, muitos usuários não abrem mão dos perfis “oficiais” nas redes, mesmo mantendo os feeds vazios. O motivo: afirmar a presença digital e a interatividade com o mundo das plataformas. É uma relação complexa de dependência e autoafirmação, relacionada com a Síndrome FOMO (do inglês “Fear of Missing Out“), o medo de ficar de fora.

A especialista em Mídias Digitais Isa Sanfins relata observar uma série de perfis no Instagram sem fotos no feed. “A relação da Geração Z com as redes sociais está se transformando. O que antes, em outras gerações, foi marcado por uma super exposição de fotos. É um movimento contrário”, define.

É um cansaço dessa perfeição, de ter uma rotina perfeita e [de mostrar nas redes] uma vida perfeita. É um movimento que vai de encontro a isso. Outro viés aponta para a segurança de cada um: a Geração Z prefere ser mais reservada, reservar sua vida, para onde vai e com quem saí. Essas pessoas preferem postar de uma forma mais “escondida”: no “close friends” (“melhores amigos” do Instagram), manter um perfil fechado e só para conhecidos – Isa Sanfins.

“O cerne do movimento não é desaparecer, mas existir de um jeito que mantenha a saúde mental e um posicionamento [saudável] em relação à exposição”, pontua Isa.

Em sintonia, a introspecção on-line por parte desse grupo pode estar ligada à saúde mental. Os usuários estão conscientes do cenário de vulnerabilidade para receber críticas na internet e relatam sinais de “burnout digital”. Logo, manter o feed vazio tornou-se, para alguns, forma de proteção — uma estratégia contra o bullying e as pressões relacionadas à autoimagem na sociedade contemporânea.

 

Controle e rejeição

Alguns entendem o “feed zero” como um movimento de busca por um maior controle sobre a presença digital. Além de uma rejeição à pressão estética, essa postura pode ser interpretada de maneira mais complexa: como uma tentativa de retomar as rédeas da própria vida. 

“Pode haver um lado positivo [desse fenômeno], pois alguns jovens adotam essa postura como forma consciente de autopreservação, buscando reduzir a pressão emocional e construir uma relação mais saudável com as redes sociais”, avalia a neuropsicóloga Gleyna Lemos.

A Geração Z tem uma postura mais introspectiva nas redes sociais por medo do julgamento (Reprodução/Pexels)

A Geração Z tem uma postura mais introspectiva nas redes sociais por medo do julgamento (Reprodução/Pexels)

É possível encarar o “Feed Zero” de maneira positiva se compreendido como um exercício saudável de autorregulação e autocuidado digital. A redução consciente da exposição às redes sociais pode aliviar significativamente a pressão emocional associada à aprovação constante, diminuir a ansiedade social e melhorar a qualidade de vida — Gleyna Lemos.

 Na contemporaneidade, cada ação online deixa rastros permanentes, que podem expor informações importantes e, até mesmo, íntimas dos internautas. O “grid zero”, ao prezar por movimentos que não deixam rastros digitais, permite que a Geração Z se desprenda de estereótipos e tenha mais liberdade para se reinventar e acessar à internet.

A psicóloga opina que “encorajar o equilíbrio no uso das redes, priorizando o bem-estar emocional, pode ser uma excelente estratégia para a promoção da saúde mental, especialmente entre jovens vulneráveis às influências negativas do ambiente virtual”.