Fábio Bibancos é o dentista fundador da ONG Turma do Bem, que atende mais de 65 mil crianças carentes: “Beleza não é bobagem. Ter os dentes é um direito de todos”


O profissional tem consultórios no Rio de Janeiro e em São Paulo e é o novo colunista do nosso site: “Estou feliz de escrever, espero me fazer entendido, vou trazer informações novas de forma engraçada para pensarmos e discutirmos juntos. Mas os textos vão abrir a cabeça das pessoas e do mercado”

“O sorriso é a expressão mais gostosa que o ser humano tem”. A frase dita por Fábio Bibancos já explica a motivação de todo o seu trabalho como dentista. Tanto no Instituto Bibancos de Odontologia como na ONG na qual é presidente voluntário, batizada Turma do Bem, o objetivo de vida de Fábio é “sempre devolver a possibilidade de sorrir, de a pessoa abrir sua alma, seu melhor cartão”, garantiu. Apaixonado pelo ofício, é difícil acreditar que Fábio quase não foi o cirurgião-dentista especialista em Odontopediatria, Ortodontia e Mestre em Saúde Coletiva que é hoje.

“No colegial havia especificação em exatas, ciências biológicas, humanas ou arquitetura. Eu optei por arquitetura. Desenhava superbem, tinha todo o material, mas, quando cheguei ao último ano antes do vestibular, não quis mais ser arquiteto. Resolvi fazer um teste vocacional e o resultado apontou que eu tinha aptidão para ser um assistente social. Eu era jovem e não conseguia dimensionar, mas não queria isso. Pensei: ‘tenho habilidade manual para desenhar, a tal aptidão para ser um assistente social… então, que tal cursar Odontologia?’. Era uma soma entre habilidade manual e manter um contato próximo do público. Prestei vestibular e passei para o curso de Odontologia. Um percurso de uma carreira com muito estudo estava pela frente”, lembrou ele, que, logo de cara, se apaixonou pela profissão. “Amei por sorte. Concluí que a área da saúde tinha muitos atrativos. A habilidade manual ajudou muito. Pude desenvolvê-la bastante e fiquei encantado com o novo horizonte. Estudei na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a escolha foi acertada”, destacou.

Foto: Chico Cherchiaro

Foto: Chico Cherchiaro

Logo que concluiu a faculdade, Fábio montou seu consultório na Vila Mariana – onde trabalha até hoje – e, em cinco anos, se estabeleceu como um dos grandes dentistas de São Paulo. Depois veio a filial no Rio de Janeiro. Sorte? “Na verdade, a minha diferença foi a preocupação com o outro”, garantiu. De fato. Explicamos: Bibancos sempre pensou no momento da vida de seus pacientes. E até hoje é assim. “Tudo aconteceu rápido para mim e, olhando para trás, entendo o porquê. Normalmente, a formação do profissional de saúde é o conhecimento, os diferenciais tecnológicos, mas eu não foquei só nisso. Pensei na tecnologia, que eu conheço e sei utilizá-la e como aplicá-la para o outro, respeitando seu momento de vida. Nem sempre uma pessoa que precisa de ortodontia está no momento de usar aparelho, por exemplo. Tudo é pensando e pautado no indivíduo”, explicou ele, que vai além. “Também não adiantava querer abrir consultório das 8h às 18h, porque meus pacientes não podiam estar lá no horário de trabalho. Eles tinham uma rotina de vida e de sobrevivência. Então, eu comecei a trabalhar de noite. Ficava até tarde. Comecei a ter um número alto de clientes, porque eles gostavam do meu horário. Obviamente tem que ter também um trabalho bom, mas isso é obrigação de qualquer pessoa que conquistou um diploma”, disse.

Trabalho bom, aliás, ele tem de sobra. O motivo? Fábio humaniza ao máximo todas as suas consultas. “Percebi que tinha que atender as demandas do outro e a minha filosofia sempre foi: ‘fazer pelo outro o que eu faria pelo meu filho’. Esse é melhor olhar que você pode ter para outra pessoa. Para que as questões econômicas e de tempo não corrompam esse profissional, sempre deve-se pensar: ‘faria no meu filho se fosse a boca dele?’. É aí que a gente consegue achar o justo, o certo”, ensinou ele, que tem, nesse questionamento, seu norte. “É uma forma de ter freios éticos. Nós, integrantes da área de saúde, recebemos tantas informações que queremos arriscar técnicas inovadoras sempre, mas eu gosto de investir no seguro”, disse ele, que disponibiliza horários especiais para cada um de seus pacientes. “Por exemplo: eu percebi que as pessoas não tinham tempo e montei o ‘day clinic’. No Rio de Janeiro, por exemplo, uma pessoa que trabalha na Zona Sul não vem no dentista na Barra da Tijuca às 15h. Mas, se eu falar: ‘vem quinta-feira, fica das 10h às 19h e nós vamos mergulhar em várias frentes e terminar muitos trabalhos’, a pessoa marca o horário. Tem que dimensionar o tempo. Temos que entender que os problemas para ir ao dentista são: tempo, dinheiro e medo. Não adianta eu saber só a técnica. Preciso me adequar ao momento de vida de cada paciente”, ensinou.

Foto: Chico Cherchiaro

Foto: Chico Cherchiaro

Foi assim, também, que ele começou a atender muitas celebridades. Fábio, aliás, não gosta dessa palavra. “Prefiro dizer que sou dentista de pessoas que têm visibilidade”. A relação com essas pessoas, aliás, é de extrema confiança. E Fábio faz questão de manter os nomes em sigilo. “Eu atendo todos esses famosos justamente porque preservo a intimidade. Se eles quiserem falar, ok, mas não entro naquela de selfie com o cara fazendo um clareamento, sabe? Olha, desculpe, todas as pessoas vão ao dentista. Famosos ou não, professores, advogados, jornalistas. Não vejo necessidade de comentar sobre a identidade dos clientes. Comigo isso não acontece, não faço esse papel, não acho justo”, disse ele, que também é avesso a marketing pessoal. “Até por que não acho que é um marketing. Você estabelece relações de confiança com as pessoas, ainda mais com um profissional que vai cuidar de sua boca”, afirmou.

Agora, quando os pacientes célebres o ajudam a divulgar sua ONG, ele assina embaixo. “É diferente. Eles estão emprestando a imagem e eu caneto em cima para que nós dois, juntos, consigamos um espaço para que pessoas carentes sejam beneficiadas. A ONG conta com a ajuda de muitos clientes”, reconheceu. E todos querem participar. O motivo é claro: a Turma do Bem já ajudou cerca de 65 mil jovens em 310 cidades de 10 países e reúne, hoje, mais de 16 mil dentistas voluntários. Mas tudo começou despretensiosamente. Na verdade, em 1995, Fábio escreveu seu primeiro livro, “Um sorriso feliz para seu filho” (CLA Editora), que tinha como foco a prevenção de problemas odontológicos.”Como odontopediatra, eu tinha um entendimento de que o problema do Brasil era a educação. Que as pessoas não sabiam escovar os dentes e não usavam fio dental. Era uma visão elitista sem muito raciocínio, do jeito que aprendi na faculdade. Eu achava que o problema do brasileiro era educação para saúde, que as pessoas tinham que saber escovar, passar fio e eu escrevi o livro para pais, mães, tutores e educadores. Um livro educativo e um supersucesso. Vendeu muito, pois é um bom manual”, contou. Na época, Fábio foi convidado a realizar palestras em escolas particulares e, depois, na rede pública. Foi daí que o estalo veio.

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“Fui proferindo palestras e aulas e o livro vendendo. Só que eu ia às escolas públicas e, toscamente, fazia o mesmo discurso das particulares. Nunca me passou na cabeça as questões das diferenças. Eu terminava a palestra e tinha falado ‘ah, a chupeta ideal é da tal empresa’, achando que estava arrasando. No final, as mães vinham com aquelas crianças com uma série de problemas bucais. Queriam saber onde poderiam levar os filhos. Nas universidades, a fila para atendimento gratuito é gigantesca. O que podia fazer por aquela mãe com aquele filho? Comecei a me questionar”, lembrou ele. “Eu morria de pena e alguns casos eu atendia na minha clínica. Não sei dizer qual era o critério. Comecei a convocar amigos e pedir para atenderem algumas crianças. Não sei exatamente o que aconteceu, foi uma situação de desespero. Assim nasceu a ONG”, contou.

Saiba mais sobre a ONG “Turma do Bem”

A demanda cresceu e Fábio continua à frente do trabalho. “Já estamos em diversos países e funciona assim: nós vamos às escolas públicas e verificamos o índice de prioridade nas crianças de 11 aos 17 anos. Atendemos as que estão com problemas mais sérios, as que são mais pobres e as com mais idade também. Só entra no projeto quem precisa mesmo. Um jovem de 17 anos entra na frente de um de 16 anos, porque imagina uma menina de 17 anos sem dente? Ela está muito mais perto do mercado de trabalho, precisa de atendimento urgente. A lista funciona mais ou menos assim. Com ela em mãos, tenho um número X de dentistas do município que deram espaço na clínica para atender essas crianças. Faço a distribuição. Os voluntários entram com seus trabalhos e clínicas e é tudo municipalizado. O profissional de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, atende a criança de lá”, explicou ele que, atualmente, tem um escritório com 36 funcionários envolvidos com o projeto. “Não contamos com verba pública. Só de empresas. Então, é tudo na base de trabalho e colaboração”, disse.

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Para Fábio, o Brasil tem políticas de saúde “incríveis”, mas ainda há muitos problemas. “Quem ganha Bolsa Família como compra escova de dente, pasta e fio dental para a família inteira?”, questionou ele, o responsável por um verdadeiro “exército do bem”. “A condição financeira das pessoas é muito ruim. O que podemos fazer para mudar essa história? Mobilizei 16 mil dentistas que, como eu, querem transformar um pouquinho o cenário. Tive um espaço de visibilidade e isso me ajudou muito também. O grupo de Dentistas do Bem do Rio de Janeiro, por exemplo, é fortíssimo. Isso desmonta um monte de ideias de que as pessoas não são solidárias. Elas são. Só precisam ter oportunidade de participar de algo que é realmente sério. Quando a pessoa vê as contas auditadas, não tem dinheiro de governo, é de empresas que de fato querem ter projetos de responsabilidade social e investem, claro que o dentista adota uma criança. Todo dentista já deve ter atendido alguém de graça, mas não de uma forma organizada, e a ONG ajuda isso”, ressaltou.

banner-nosso-fundadorE como será que Fábio Bibancos, autor também de “A Guerra dos Mutans”, “Boca!” e “Sorrisos do Brasil”, eleito Empreendedor Social 2006 pela Schwab Foundation (ligada ao Fórum Econômico Mundial de Davos) e integrante do Fellow Ashoka (uma rede de empreendedores sociais presente em 65 países) se sente ao ver seu nome virar uma marca desse tamanho? “Acho legal pegar isso e levar para o lado bom. Tem quem vira uma marca e transforma em uma grande vaidade, a minha questão foi fazer, de fato, ações positivas. Ser conhecido e famoso, tirar foto, quem fica feliz? Sua mãe. E por meia hora também. Mas transformar em algo maior é lindo. Eu não trago nada disso para o meu umbigo. Sou conhecido? Então, agora vou ajudar”, garantiu ele, que mantém a rede alimentada com eventos anuais. “Elegemos os melhores dentistas do mundo. E quem são? Os que mais ajudaram sua cidade. Aí tem os critérios de avaliação, auditoria, juri, para chegar naquele resultado. É bem legal. O evento acontece em cidade do interior, onde se levam os 500 melhores resultados do ano. Vai gente do mundo todo, fazemos palestras de humanistas”, contou. Por fim, o resultado do teste vocacional para assistência social até que tinha razão, não? “Verdade. A clínica tem o desafio de compreender o momento pessoal do paciente considerando vontades e necessidades. Já na ONG os desafios são enormes, é tanta gente… necessidade…”, analisou.

E haja gente querendo atendimento com Fábio. Por isso, hoje, ele continua com a clínica paulistana e a filial do instituto no Rio de Janeiro, em um local super confortável no 02 Corporate & Offices, na Barra da Tijuca. “Fico entre as duas cidades. São dez dias do mês no Rio e os outros em São Paulo, mas tenho supertimes lá e cá e estamos o tempo todo online. O paciente faz a primeira consulta aqui e, imediatamente, abrimos tudo lá e vice-versa. A tecnologia nos permite estar em qualquer lugar”, contou ele, que escolheu o Rio como “segunda casa” por diversas questões. “Todos esses anos meu lugar de lazer era o Rio. A escolha pela cidade para o segundo consultório foi por isso e também por que, agora, o Rio me dá o frescor, relax. Meus pacientes cariocas tinham dificuldade enorme para chegar em São Paulo, porque precisam de um dia todo. Isso coincidiu com minha necessidade pessoal de querer morar perto do mar. Foi providencial”, garantiu.

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Veja aqui o vídeo “Frame do Bem”, um dos grandes projetos da ONG

Falando na cidade maravilhosa, aplicar a Turma do Bem por aqui é um desafio ainda maior do que o normal. “As crianças nessas condições estão no morro, mas não nos da Barra e da Zona Sul, as piores situações encontramos longe. E o dentista está aqui, na Barra, em Ipanema”, disse. banner-missao

Mas nem as dificuldades abalam a vontade de realizar a causa de sua vida. “O povo começa a dar valor à questão da saúde bucal. Para paquerar se sorri, em uma entrevista de emprego é preciso conversar…. Imagina ter que travar o tempo inteiro essa expressão que é a mais gostosa que o ser humano tem . Não dá”, disse, acrescentando: “Ter dentes é estar inteiro. É saúde e beleza, claro. Temos a tendência de colocar a beleza em um lugar menor, fútil. A escravidão, sim, é ruim, mas a beleza em si é muito importante. Começamos a atender na Turma do Bem mulheres vítimas de violência e elas me ensinaram algo que eu não entendia: a relação com batom. Toda mulher passa. Eu sempre reparei que a mulher quando come, sai, vai ao banheiro e passa o batom. Fui entender isso com as vítimas da violência. Elas não passavam o tal do batom, e, depois que tinham um dente consertado, era a primeira atitude. Essa relação do sorrir, de falar, está tudo ligado à boca da mulher. Fui entender isso há quatro anos”, afirmou.

Até agora, a Turma do Bem já acumula 900 atendimentos a vítimas de violência doméstica. “Fizemos uns vídeos muito interessantes nos quais colocamos a câmera atrás do espelho e gravamos as mulheres se vendo pela primeira vez com os dentes. É lindo, só os olhares já é de morrer. E o que elas fazem? Depois que veem já ajeitam o cabelo. É bem do feminino, né?. Beleza não é bobagem. Ter os dentes é um direito. As pessoas só precisam zelar por ele”, disse Fábio, destacando que entende a beleza como altamente necessária e não é fútil. “É importante para o indivíduo se sentir feliz, bem, ter relações sociais, profissionais, em qualquer nível social. Não está reservado nem dividido entre ricos e pobres. É necessidade de todos, sem gênero, cor ou qualquer outra característica. Todo mundo quer se sentir inteiro e bem”, comentou. Assinamos embaixo.

Foto: Chico Cherchiaro

Foto: Chico Cherchiaro

Fábio Bibancos e HT:
Fábio terá uma coluna todas as quintas-feiras no site HT. Uma grife que chega para somar ao conceito do site, com a chancela de um dos maiores e mais importantes nomes do universo da saúde bucal e da filantropia no Brasil, à frente do projeto Turma do Bem, a maior rede de voluntariado especializado do mundo: o dentistas do bem. Em sua coluna semanal, Fábio vai abordar assuntos relacionados à odontologia e ao seu trabalho beneficente de forma atual, moderna e com linguagem acessível aos leitores. A intenção é movimentar o espaço com um conteúdo único, contemporâneo, fomentando a curiosidade do público em busca do que há de mais importante sendo produzido no Brasil e no mundo na área.

“Entendo essa parceria com HT como algo muito próximo com o que eu faço, tanto na clínica como na ONG. Tudo tem moda, comportamento e saúde e eu quero trazer essa discussão”, contou ele. “Estou feliz de escrever, espero me fazer entendido, vou trazer informações novas de forma engraçada para pensarmos e discutirmos juntos. Não são textos técnicos, todo mundo sabe isso, um bom dentista já domina, é obrigação. A diferença entre os profissionais não está na técnica, mas em traduzir para o consumidor o que os dentistas podem fazer e como ele pode usar isso a seu favor. Eu entendi que o grande desafio é trabalhar o equilíbrio estético. Existem profissionais com olhar estético maior e outros, menor. O recurso técnico é o mesmo, mas o bom gosto do profissional é o que varia. O trabalho é muito mais do que vender técnica. Isso eu falo em congresso de odontologia”, assegurou ele. Nós já estamos ansiosos.