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Exclusivo! Karol Conká narra episódios dos assédios que sofreu e defende a luta feminista: “Não é questão de ser coitadinha”

Karol lembra que o primeiro caso aconteceu quando ela ainda tinha 11 anos. Nessa entrevista, ela ainda fala sobre ter chegado ao mainstream com seu rap e critica - nas entrelinhas - aborto. Tudo antes de pousar no Rio de Janeiro para cantar na festa Heavy Baile

Publicado em 15/01/2016 | Por Lucas Rezende

Karol Conká tinha 11 anos de idade quando vivenciou seu primeiro caso de assédio sexual. Ela brincava de boneca na casa de uma amiga. “O pai da menina pegou minha Barbie, tirou o elástico do cabelo dela, fazia gestos sexuais e dizia que era aquilo que faria comigo. Eu saí correndo. Nunca mais o vi”, contou em entrevista exclusiva ao HT. O caso, infelizmente, não foi isolado. “Uma vez fiz uma confusão no bairro onde morava porque um cara estava me assediando. Chamei um gueto para ir atrás dele. Com medo, correu para a favela e só saiu de lá no dia seguinte”. Quem dera se esses fossem os últimos relatos de assédio desse texto. A rapper curitibana de 29 anos é tácita ao afirmar: “De dez amigas minhas, oito já sofreram assédio”.

Karol Conká

Na família, inclusive, ela também tem história para contar. “Descobrimos há pouco tempo um caso que aconteceu com a minha cunhada, que conhecemos há anos”, contou sem entrar em mais detalhes. Karol, bom citar, não narra esses episódios de forma gratuita. Ela, como militante do movimento feminista, encontra no grito e na elucidação dos fatos uma das maneiras de colocar fim ao machismo e aos casos de assédio e abuso. Mas sabe que o caminho é longo. “Uma menina foi ao Facebook narrar que foi estuprada e, ao chegar na delegacia, o delegado disse que não era para tanto já que ela era uma gata. Não podemos confiar nem na polícia mais”, lamentou.

O feminismo, segundo dá a entender Karol, está caminhando em linha tênue e a largos passos. “Não é questão de ser coitadinha. A gente não quer mulher melhor que homem. Queremos igualdade e respeito. A mulher e o homem sob as mesmas condições na sociedade. Ninguém é melhor que ninguém”, esclareceu. Discurso – como não poderia ser diferente – de tom semelhante ao da música “Sandália”, faixa do álbum “Batuk freak”: “Tá cheio de ilimitados querendo te limitar”. Um exemplo real? “Quando, em Brasília, eles fazem uma lei em que a mulher não pode decidir sobre seu próprio corpo”, disse, se referindo ao aborto.

E não só. Na mesma tarde em que concedia essa entrevista, Karol Conká emitiu uma carta aberta criticando as festas que vendem ingressos mais baratos para mulheres. “Acredito que esse sistema aconteça para que homens tenham interesse de ir num ambiente recheado de mulheres (que estarão em maioria, pois pagaram mais barato), e assim a festa virar uma espécie de feira, onde somos usadas como iscas para atrair um público masculino (que gastará com muitas bebidas)”, alarmou, pedindo: “Não afastem as mulheres sábias do rolê. São elas que ajudam a abrir os olhos de tantas outras”.

No caso de Karol, os olhos se abriram sozinhos, por volta dos 17 anos, quando ela, cansada da “dor de ser mina, negra, MC, pobre e curitibana”, caiu no rap. Ela passou a escrever no papel e posteriormente colocar melodia no que gostaria de ouvir e, na falta no mercado, resolveu cavar seu espaço. Daí saíram versos como “um povo com crise de abstinência procura explicação para existência num mundo onde dão mais valor para aparência” e “justamente por ser mulher, e não ser uma qualquer minha atitude carrega vitória, vou te lembrar disso sempre que eu puder”. Ela, que para a “Revista Trip” já disse ter começado num lado “alternativo” da música, hoje concorda com o repórter: caiu nas redes do mainstream.

“A galera do rap dizia que quem aparecia na TV era vendido. Mas eu queria me ver lá. A gente (do rap) não se enxergava nos programas de TV, na grande mídia. Esse foi um rumo que eu quis dar para a minha carreira. Acho importante sim a gente estar lá, passando a nossa mensagem de forma séria, propagando o que pensamos e levando nossa música”, se posicionou. Agora, Karol se prepara para entrar em estúdio e entregar um novo álbum, ainda no primeiro semestre deste ano, depois de um hiato desde 2013. Nesse meio tempo, veio o sucesso de “Tombei” e agora o novo single, “É o poder”. O clipe deste, aliás, ela garante: está chegando por aí antes que a gente imagina. Enquanto isso, os cariocas podem encontrar com Karol na festa Heavy Baile, no próximo dia 16, no Raízes da Lapa. O badalo, criado por Leo Justi, marcou a noite do Rio ao misturar o funk tradicional das comunidades ao hip-­hop, kuduro, moombahton, trap e dubstep. Mistura boa para todas as tribos, da Rocinha à Barra. Como Karol bem nos disse: “Ninguém é melhor que ninguém”.

Serviço

Heavy Baile com show da rapper curitibana Karol Conká e DJ sets com Leo Justi, Johnny Ice, Ulyverse e Dorl

Quando: Dia 16, às 23h

Onde: Raízes da Lapa, Avenida Mem de Sá 21, Lapa (Tel.: 96958-8877).

Preço: ingressos a R$ 35 (1º lote), R$ 45 (2º lote) e R$ 55 (3º lote)

Ingressos Antecipados: goo.gl/FKzMto (Taxa de conveniência de 10%)

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