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Exclusivo! Carlos Tufvesson analisa a indústria fashion no país e declara ao HT: “A moda está sendo estrangulada”

Presidente do Conselho de Moda do Rio de Janeiro, o estilista bateu um papo franco com o site, no qual discutiu a atual situação do Fashion Rio, a necessidade da criação de uma identidade carioca no setor têxtil e o que é necessário para alavancar o setor

Publicado em 13/05/2015 | Por João Ker

“Para a moda voltar à boa forma no Brasil, é preciso que o governo entenda primeiro o que é moda”. A frase foi dita por Carlos Tufvesson, presidente do Conselho Municipal da Moda do Rio de Janeiro, Coordenador Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio e estilista renomado, em entrevista exclusiva ao HT. A declaração foi feita por volta das 21h, após ele ter saído de uma reunião que começou às 17h, cujo intuito era discutir novas propostas para fomentar a indústria fashion na capital fluminense.

À mesa, sentaram-se Tufvesson, representantes da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de grandes conglomerados de moda no RJ, da Rio Negócios, além de nome respeitados do mercado nacional, responsáveis por assessorias de imprensa, produção de megaeventos e marketing. A pauta principal? A criação de um calendário de moda para o Rio de Janeiro e quais as alternativas possíveis para isso.

Carlos Tufvesson, Presidente do Conselho de Moda do Rio de Janeiro, diz que o Fashion Rio não foi devidamente cuidado (Foto: Reprodução)

Carlos Tufvesson, Presidente do Conselho de Moda do Rio de Janeiro, diz que o Fashion Rio não foi devidamente cuidado (Foto: Reprodução)

Dentre os assuntos debatidos, duas vitórias garantidas para o Rio de Janeiro: a chegada de uma edição carioca da Fenin, salão de negócios que é realizado em São Paulo e em Bento Gonçalves (RS), e aqui acontecerá entre os dias 28 e 30 de julho; e a criação do Fashion Inclusive, evento de moda, arte, gastronomia e sustentabilidade, na Gamboa, em junho, e parte integrante do calendário de comemoração dos 450 anos da cidade. Apesar das notícias positivas e otimistas, uma grande incógnita ia e vinha na sala de reunião: o que será feito do Fashion Rio?

Suspenso desde abril de 2014, o evento que servia como vitrine para a moda carioca ainda não tem data nem formato oficial para voltar à cidade. Apesar de Oskar Metsavaht, Coordenador do Fórum Empresarial de Moda da FIRJAN, ter declarado para HT que o evento volta e, provavelmente, na primeira semana de setembro e que irá agregar áreas como o design, a moda, a arte e a música, uma data e um formato específico ainda precisam ser decididos (por enquanto, não se sabe nem se haverá desfile tradicional). Com pouco mais de quatro meses até o evento, o estado embrionário do projeto não animou os presentes à reunião, que alegaram já terem perdido o Fashion Rio durante o verão deste ano e que estão no escuro em relação ao assunto.

A mudança de formato do Fashion Rio assustou uma parte dos que estavam ali e sentem a carência de um evento de moda que tenha desfiles com a cara do Rio, tanto para mostrar o poder das marcas cariocas quanto para fomentar a indústria. Afinal, nem todos os estilistas se animaram ou conseguiram acompanhar o fluxo de alguns, e apresentar as coleções durante a São Paulo Fashion Week. As alegações de que nenhum país tem duas semanas de moda em seu calendário também não parecem ter convencido os presentes.

“Você não pode comparar o Brasil com a França, por exemplo. Basta olhar para o tamanho dos dois países. Nós temos território e diversidade cultural suficientes para duas semanas de moda”, disse Tufvesson, durante a entrevista pós-reunião. “Estilistas como a Lenny [Niemeyer] foram desfilar em São Paulo, porque não tiveram opção. São marcas que se identificam com a cidade diretamente em seu DNA. Eu não estou sendo bairrista nesse aspecto, não acho que seja uma competição. Mas é preciso entender a força da identidade carioca nesse assunto”, ressaltou.

Carlos Tufvesson: "A moda está sendo estrangulada e quem paga são os consumidores" (Foto: Reprodução)

Carlos Tufvesson: “A moda está sendo estrangulada e quem paga são os consumidores” (Foto: Reprodução)

Filho da estilista Glorinha Pires Rebelo, Tufvesson já cresceu inserido no universo da moda e, além de frisar o prejuízo financeiro que resultaria do cancelamento do Fashion Rio, também lembra como a cidade ajudou a formar a identidade dessa indústria no Brasil, desde outras semanas, como a do Barra Shopping. Para ele, a ausência da semana de moda carioca foi um problema de preservação: “Foi acontecendo aos poucos. Primeiro, mudou o line up,depois as datas, e o evento se desintegrou. A verdade é que a gente não cuidou do que é nosso. Quem tornou a marca do Fashion Rio irrelevante? Quem não cuidou dela. E ninguém falou nada. Por muito tempo, o evento se viu como o patinho feio, mas não é a verdade: nós somos um cisne. Os compradores gostavam de vir ao Rio e o público tinha prazer em ver os desfiles aqui”, enfatizou.

Ele lembra um passado nem tão distante assim, quando nas décadas de 1970 e 1980, viu ainda criança a moda ser construída no Rio, por gente como Georges Henri, Gregório Faganello, Maria Cândida Sarmento, Marília Valls (criadora da Blu-Blu), Marco Rica e muitos outros que, juntos com o grupo Moda-Rio, ajudaram a lançar uma identidade carioca para ser absorvida pelo Brasil e pelo mundo posteriormente. “Eles jamais deixariam isso [o cancelamento do Fashion Rio] acontecer. Foram pessoas que lutaram pela moda no país, que enfrentaram a época em que o HIV dizimou a indústria, que foram lá e fizeram, mesmo sem dinheiro. Desfilavam na rua, se fosse preciso, e conseguiam vender depois. Falta passar adiante essa paixão pela moda”, lembrou Tufvesson.

Conta ainda que, desde que leu a notícia sobre o adiamento da edição de Primavera/Verão 2016 do Fashion Rio, a qual supostamente aconteceria em abril deste ano, se sente preocupado com o tamanho do desemprego que isso pode gerar, caso a indústria não se fortaleça. Pudera: dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) mostram que o setor sofreu uma queda de 20.774 trabalhadores no ano passado, contra um saldo positivo de 7.273 no ano anterior. Isso sem falar nas quedas em exportação e produção, em uma indústria que, em 2014, representou 12,3% do PIB nacional.

“O próprio poder público não reconhece a força da moda. É preciso uma maior compreensão por parte de todos. O estilista precisa ter crédito para conseguir capital de giro e, assim, poder se adequar ao calendário para pagar a matéria-prima para a próxima coleção, enquanto espera as vendas da anterior. A carga tributária também precisa diminuir. Desse jeito, a moda está sendo estrangulada e quem paga é o consumidor”, afirmou Tufvesson, acrescentando ainda que outra medida necessária é profissionalizar o ofício das costureiras.

Mão de obra especializada é, por sinal, um dos grandes motivos de reclamações dos players da moda, que vêem uma escassez de modelistas e costureiras experientes no mercado. Tufvesson comentou: “A indústria está péssima para novos profissionais! Se eu pudesse dar um conselho para eles seria: nunca parem de estudar. O mercado tem colocado estilistas para jogo, mas não há mão de obra para suprir essa necessidade”, comentou. E, com sua experiência no ramo, apontou outro fator problemático: “Vejo muita gente nova sem experiência teórica ou conhecimento de história da moda. Para fazer o futuro é preciso conhecer o passado. Ser estilista não é apenas ter bom gosto, você precisa saber cortar, saber quantas fibras um tecido tem etc.”.

Angélica, Arlete Salles, Christiane Torloni, Antonia Fontenelle e Lavínia Vlasak aplaudem o final do desfile de Carlos Tufvesson durante o Fashion Rio, diretamente da Fila A (Foto: Reprodução)

Angélica, Arlete Salles, Christiane Torloni, Antonia Fontenelle e Lavínia Vlasak aplaudem o final do desfile de Carlos Tufvesson durante o Fashion Rio, diretamente da Fila A (Foto: Reprodução)

Carlos Tufvesson está longe das passarelas desde 2010, quando realizou seu último desfile. Claro, a produção não cessou completamente, mas agora ele só atende clientes escolhidas a dedo. Ainda assim, os tempos em que sua fila A recebia nomes como Eduardo Paes, Sérgio Cabral, Angélica, Luana Piovani, Christiane Torloni, Baby do Brasil, Letícia Spiller e muito mais, ainda está vivo na memória de todos.  É com lembranças dessa época e o olhar voltado para o presente que ele analisa as atuais semanas de moda: “É preciso acreditar no dinamismo da criação. A moda não é binária, não é aquela coisa chata e certinha que muita gente acha. Ela é também ‘close’, é de quem gosta de dar pinta, porque ama a moda. Não entender isso, é subverter seu sentido. Uma das grandes falências dos desfiles de hoje em dia é fechar as portas para quem é apaixonado por design e moda. As semanas têm que voltar a ser de quem tem essa paixão, porque pertencem a elas. São essas pessoas que vão vibrar com um vestido, que vão entender seu verdadeiro significado”, enfatizou.

A expertise dos anos corridos em backstage, muitas vezes terminando vestidos 48h antes dos desfiles, faz com que, ao representar os estilistas em um órgão público, Tufvesson também entenda as maiores dificuldades da classe: “No Brasil, não há grandes empresários de moda, apenas um ou outro, aqui e ali. Esse é um entendimento fundamental para o mercado, que já levou grifes como Valentino e Yves Saint Laurent à falência. O que existe são estilistas que sabem muito bem fazer um vestido, mas não conseguem fechar a conta do mês depois”, declarou.

Carlos Tufvesson (centro), ao lado de Eduardo Paes, durante sua posse como Presidente do Conselho Municipal da Moda do Rio de Janeiro (Foto: Reprodução)

Carlos Tufvesson (centro), ao lado de Eduardo Paes, durante sua posse como Presidente do Conselho Municipal da Moda do Rio de Janeiro (Foto: Reprodução)

Ele conta que caiu na carreira política meio por acaso, quando foi convidado por Eduardo Paes para liderar o Conselho Municipal da Moda na cidade – “um ato pioneiro do prefeito” -, em 2013, dois anos após ter começado a sua jornada com a CEDS – Rio. Ao final da entrevista, quando foi pedido para avaliar o que é necessário para que a moda deslanche na cidade, ele falou na ponta da língua: “Um maior entendimento entre os polos; um salão de negócios que ofereça um motivo para o comprador estar aqui, como incentivos fiscais e redução de juros; e o fortalecimento de uma identidade carioca, como um ‘Made in Rio’”. E ainda fez alusão aos temas que foram conversados na reunião de horas antes. “Quero imaginar que conseguiremos realizar pelo menos 20% do que foi debatido aqui. Isso já seria um ganho. Tivemos resultados muito positivos com esse encontro, e vamos continuar tentando. Sabe aquela história do ‘não sabendo que era impossível, foi lá e fez’? É isso”.

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