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Estrela do “Zorra”, Renata Castro Barbosa diz: “Mulher pode ser linda, gostosa e fazer rir, sim”

A atriz avalia o humorístico e elogia: "Acho que a mudança principal é a liberdade de se falar de política, de racismo, de preconceito e de assuntos factuais sem restrições"

Publicado em 25/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

Renata Castro Barbosa sabe: o humor tem poder. “Qualquer assunto pode ser abordado através da comédia. É a melhor forma de se botar o dedo na ferida. O humor é a mais antiga das artes para se criticar o absurdo do nosso mundo. Sem ele estaríamos só sendo planetários e nem conseguindo fazer com as pessoas entendam os absurdos. Quando você leva a questão com humor, as pessoas já têm mais boa vontade de ouvir uma crítica. E esse é o primeiro passo: se fazer ouvir”, diz a atriz, enfatizando: “O humor é para ser libertador. Não falaria de nada em que o oprimido fosse piada. Na minha opinião, humilhar ou reforçar preconceitos não tem graça nenhuma”.

A atriz acredita que, com humor, é possível abordar as mais diversas questões (Foto: Rodrigo Lopes)

Em 2015, o tradicional humorístico do sábado deixou de ser “Zorra Total” e virou apenas “Zorra”. Depois disso, muito mudou e, no ano seguinte, foi indicado ao Emmy. “Acho que a mudança principal é a liberdade de se falar de política, de racismo, de preconceito e de assuntos factuais sem restrições. Hoje, no ‘Zorra’, não há personagens fixos, nem bordões. O que não é nem melhor, nem pior. É apenas uma outra forma de humor. É um programa bem ousado e, mesmo que uma cena tenha três segundos, tudo é feito com o maior capricho, cuidado e atenção. Acho que isso nos levou ao Emmy. Hoje, ganhamos um público mais jovem, que não via o ‘Zorra Total'”, comemora.

Os 37 anos de carreira deram propriedade e Renata garante: Há algum tempo, muita gente dizia que mulheres “engraçadas” não costumavam ser bonitas. Com uma leva que tem belas como Miá Mello, Monica Iozzi, Ingrid Guimarães, Tatá Werneck entre outros nomes, aparentemente o estigma acabou. “Na verdade mudou, mas ainda falta muito. Acho que esse estigma era algo mais antigo que a arte e a força da mulher está ajudando a mudar. Aliás, não só na arte: mulher pode fazer o que quiser, inclusive fazer rir. Foi-se a época em que mulher só atuava em humorísticos para aparecer como a gostosa. Mulher pode ser linda e gostosa e fazer rir, sim”, frisa. Mas a batalha vem de longa data. “Nas redações, a maioria dos profissionais que escreve sobre humor é homem, mas já vemos a presença feminina. Além do que, esse conceito de mulher  feia engraçada, não tem nem como se manter. Uma mulher que faz rir é sempre bonita, não é?! Eu pelo menos acho”.

Renata Castro ensina o filho a respeitar as mulheres desde cedo: “Sou quase fanática com isso” (Foto: Rodrigo Lopes)

Mãe de um menino de 14 anos, fruto do casamento com o ator Bruno Mazzeo, Renata ensinou o filho a respeitar mulheres desde cedo. “Sou quase fanática com isso! Não acho possível ter um filho e não tentar, pelo menos, fazer dele um ser humano melhor para o mundo. Não só em relação às mulheres, mas em relação a qualquer preconceito. Sou muito rígida com o João, com regras, com leis, com respeitar os mais idosos, como não seria em relação às mulheres?”, revela.

“Eu realmente espero um novo horizonte na trajetória de vida das pessoas na idade do meu filho. E para isso, eu vou ter que estar atenta para mais do que dizer, mostrar em atitudes o que é não ser um cara babaca em todos os sentidos. O mais legal é que estou conseguindo. Ele é um adolescente já consciente. É mais feminista que eu até”, conta. Renata afirma que quer igualdade. “Não quero ser questionada pelas roupas que eu uso, pelas escolhas que eu faço! Quero trabalhar e ganhar o mesmo que um homem na mesma função que eu. Desejo ser respeitada independente do que visto, ou de quem eu beijo, ou de como eu danço. Quero ter o direito de não querer mais estar em um relacionamento e não apanhar por isso. Porque quero poder voltar para casa à noite, a pé e não morrer de medo de passar por um grupo de homens e ser violentada… Enfim, se isso é ser feminista, então eu sou e de carteirinha”.

“Amo estar no Zorra e adoraria voltar a fazer novela” (Foto: Rodrigo Lopes)

A última vez que Renata atuou em novela foi em “Amor à vida“, em 2015. Será que ela ainda pensa em voltar? “Eu gosto desse formato de programa semanal, mas amo fazer novela também e trabalhar a composição de uma personagem”, analisa. “São duas formas bem diferentes de atuação… Gosto da possibilidade de poder interpretar várias personagens num mesmo dia como acontece no “Zorra”. Dá para brincar com caracterizações, sotaque… Já na novela é uma personagem do começo ao fim, o que me obriga a estar sempre atenta em seguir com as características e coerência dela. Um outro tipo de desafio”, explica. “Sinto saudade de fazer novela. Eu ia amar interpretar uma vilã. Seria um mega desafio fazer algo diferente do humor depois de tanto tempo”, diz a atriz, que, com quase quatro décadas de atuação, já esteve além da TV, em dez longas-metragens.

Renata Castro ainda sonha em fazer vários longas: “Espero que nosso governo ainda me permita fazer muita arte no nosso país” (Foto: Rodrigo Lopes)

“E sabe que eu acho que fiz pouco cinema? Fiz mais participações. Esse é um lugar que eu adoraria explorar mais, sou uma apaixonada por cinema, louca para fazer um filme de ação, fugir pelo meio do mato. Ou uma comédia romântica…”, cogita. “É, pelo visto eu ainda tenho muito para viver no cinema. Espero que nosso governo ainda me permita fazer muita arte no nosso país”, diz.

Renata faz um balanço sobre a vida profissional: “Olhando pra trás, acho que tive muitas conquistas. Até os fracassos ou momentos de escassez de trabalho foram importantes para eu me tornar a pessoa que sou hoje. Não foi fácil. Pensei em desistir várias vezes. Mas o amor pelo meu ofício sempre me fez seguir adiante. Me sinto privilegiada de viver de arte. Ainda mais em um país onde arte é considerada supérflua! Espero poder ajudar a mudar essa realidade, porque a arte é fundamental! E eu já caminhei até aqui. Não é agora que vou desistir”. Ainda bem.

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