*Por Brunna Condini
Na última semana, um comentário feito pelo humorista Maurício Meirelles no X (antigo Twitter) acendeu um debate que já borbulhava nas entrelinhas do comportamento contemporâneo: até que ponto o ato de ‘maternar’ seres não humanos revela afeto — e onde começa a projeção emocional? Ao comparar ‘mães de pet’ com mães de ‘bebês reborn’, Meirelles foi acusado de desrespeitar formas alternativas de cuidado, mas também trouxe à tona uma discussão delicada sobre solidão, pertencimento e a necessidade humana de criar vínculos afetivos em um mundo cada vez mais desconectado. A polêmica expõe mais do que opiniões: escancara o encontro (e o confronto) entre diferentes formas de preencher o vazio do afeto — ou seria ampliar as formas de estabelecer laços afetivos? Como por aqui, gostamos de abrir debates e reflexões, chamamos a psicanalista Luiza Scarpa para uma conversa sobre o tema.
Essa comparação entre ‘mães de pet’ e ‘mães de bebê reborn’ se aplica de forma direta ou justa? “Do ponto de vista da psicanálise, tanto as ‘mães de pet’, quanto as ‘mães de bebês reborn’, têm algo em comum, expressam o desejo de cuidado e do laço afetivo. Mas essas práticas revelam posições distintas diante do outro. O pet, embora não seja humano, é um ser vivo, com demandas próprias, que exige da cuidadora uma certa abertura à alteridade, porque impõe limites, frustra, exige escuta, tem o tempo dele. Já o bebê reborn, como é um objeto inanimado, tende a funcionar mais com uma projeção do desejo materno idealizado, permitindo assim, um vínculo sem contradição, sem perda, sem conflito. Isso pode tornar o ‘reborn’ um substituto simbólico que frequentemente é ligado à vivência do luto, dos traumas, à impossibilidade de maternar”, esclarece.

Em meio às críticas sobre a normalização do inumano como ‘filho’ e à ‘humanização’ de animais de estimação, a especialista pondera.
Ambas as formas de maternar são válidas, enquanto tentativas subjetivas de lidar com a falta, com a solidão, com a necessidade de significar o afeto. Dentro da psicanálise, nos interessamos menos pela aparência desse vínculo, e mais na função que ele ocupa na economia psíquica do sujeito. Então, quando o cuidado com o outro, seja um animal ou um boneco, se torna um modo de negar a falta ou evitar o contato com a alteridade, aí ele pode se cristalizar como sintoma – Luiza Scarpa

Mães de pet X mães de bebê reborn: a linha tênue entre cuidado e projeção
E ressalta: “Quando esse cuidado abre espaço para o desejo, para o reconhecimento das diferenças, para elaboração do sofrimento, ele pode operar como um recurso legítimo de simbolização e subjetivação. A linha entre cuidado e projeção é tênue, mas sempre atravessada pela estrutura do inconsciente”.
A diferença entre o saudável e o nocivo
A psicanalista elucida, que tanto a maternagem com um pet, quanto a com um bebê reborn, pode tanto se dar em função da promoção de um laço simbólico, como também pode apresentar fatores nocivos. “O cuidado com os animais de estimação, por exemplo, embora seja uma forma legítima de laço afetivo, porque mobiliza o aspecto do desejo, da empatia, a de uma função materna simbólica, já que a cuidadora é aquela que acolhe, que cuida, que reconhece o bicho como uma alteridade; também pode apresentar um vínculo nocivo ou sintomático. Isso acontece quando o animal é investido como um substituto direto, seja de um filho, seja de um parceiro, de um objeto amoroso perdido, quando não é mais reconhecido como um ser diferente, um animal e é tratado como humano. Neste caso, estamos falando de uma situação complicada, porque está muito mais em função de uma extensão narcísica do sujeito, podendo escorregar para uma forma de controle absoluto”.

Nesse panorama, o pet acaba servindo como uma forma de não entrar em contato com a castração do sujeito que trata o bicho como um ser humano. É uma forma de evitar a solidão, a dor psíquica. Pessoas que humanizam excessivamente os animais, projetam neles seus medos, desejos e fantasias não elaboradas. Isso acaba cerceando a liberdade do animal, quando o próprio desenvolvimento emocional do sujeito é que precisa lidar com essas questões. O bicho não pode entrar no lugar de tamponar tudo, porque acaba saindo por alguma via, não dá para ficar segurando – Luiza Scarpa
Sobre o tema, ela diz ainda. “Quando o animal é reconhecido como um outro, e não como um semelhante, ele promove um laço simbólico transformador e isso pode ser muito saudável. Para uma criança, por exemplo, desenvolver a afetividade, conviver com um animal é um prato cheio, pode ser muito positivo”.

Ao falar da comparação entre uma ‘mãe de pet’ e uma ‘mãe de bebê reborn’, Luiza destaca a personificação de um boneco como ‘bebê’, em um comportamento que beira o exagero, com exemplos em casos reais noticiados recentemente, como o de Aparecida de Goiânia (GO), quando divorciados brigaram para ficar com o brinquedo; ou quando bebê reborn são levados para creches com pagamento de mensalidades, como os bebês humanos. “O bebê reborn não é um pet, por isso a coisa é um pouco mais delicada. Ele não é um ser vivo, então resiste às projeções. O pet adoece, envelhece, morre. O bebê reborn não impõe alteridade alguma, está totalmente à disposição do desejo de quem cuida”. E conclui:
Embora também seja uma forma de maternagem simbólica, o ‘bebê reborn’ tende a funcionar como um objeto transicional cristalizado, que impede a elaboração do luto ou do desejo. Se é uma brincadeira, até pode ser positivo, mas se você chega em uma emergência pediátrica com o boneco, tirando a vez de uma criança ser atendida aí é um lugar bem complicado e um comportamento que pede atenção – Luiza Scarpa
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