*por Luísa Giraldo
Uma rotina diária marcada por flores, café na cama e portas abertas: o que parecia roteiro de série de época virou realidade na timeline da Geração Z (nascidos entre 1997-2012). Entre memes, desabafos frustrados na web, reels e hashtags, o “tratamento de princesa” se tornou uma febre nas redes sociais, despertando debates sobre romantismo, feminismo e o que a juventude moderna realmente espera dos relacionamentos. Esse comportamento, diretamente associado ao cavalheirismo histórico, reúne gestos cotidianos de cuidado e mimos que variam da manicure paga pelo parceiro aos bilhetes carinhosos e jantares planejados à luz de velas.
Ainda inexperientes no mundo amoroso, muitos jovens se contentam com o básico, como responder mensagens e lembrar datas importantes. Esse fenômeno está viralizando justamente ao mostrar uma estética aspiracional e, ao mesmo tempo, engraçada, que mistura romance vintage com humor digital. Nas plataformas como TikTok e Instagram, milhares de vídeos e publicações com a #PrincessTreatment (em tradução livre, “tratamento de princesa) celebram esse tipo de atenção especial, criando uma nova linguagem afetiva para o século 21 e, é claro, objeto de desejo de milhões de mulheres no mundo.
A pergunta do momento: por que a Geração Z se interessa tanto por esse tipo de tratamento cavalheiresco quando seus antecessores, os Millenniuns (nascidos em entre 1981-1996), lutaram tanto para estabelecer relacionamentos mais fluídos e abertos? Parte da resposta está no fascínio pelas séries de época, como “Bridgerton”, “The Crown” e “A Idade Dourada”, que romantizam cortesias e rituais de um passado aristocrático. Além disso, em um mundo onde as relações parecem cada vez mais digitais e “transacionais”, a busca por cuidado emocional ganha ainda mais força. A ironia e o humor das redes permitem que esse desejo seja manifestado de forma leve, com uma pitada de crítica ao ritmo acelerado e superficial dos apps de namoro e desabafos sobre os desafios da solteirice, sobretudo para a mulher heterossexual. Pode-se dizer que é uma espécie de “desaceleração afetiva”, isto é, um convite para reduzir o ritmo de envolvimentos líquidos, conforme pontuou o intelectual polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) em dezenas de obras consagradas, e valorizar pequenos gestos.
A terapeuta de casais e sexóloga Mari Williams entende o “tratamento de princesa” como uma resposta emocional a um cenário de esgotamento e sobrecarga. O desejo de que “o outro decida tudo por mim” pode, muitas vezes, ser reflexo de um estado de exaustão mental.
As mulheres estão tão cansadas pela constante carga mental e pressão social que não ter que decidir nada pode soar como um alívio — e até pode ser. O que transforma uma noite relaxante e sem preocupações em uma vida de castração é a impossibilidade de manifestar livremente seus desejos — Mari Williams.

Viih Tube e Eliezer construíram uma relação amorosa que encantou o Brasil e deu fruto à Lua e ao Ravi (Reprodução/Instagram)
Alguns casais da cultura pop e das redes sociais acabam virando referência para esse imaginário. Conhecida pela troca constante de parceiros e polêmicas com os ex-namorados, Taylor Swift e Travis Kelce, por exemplo, destacam-se com demonstrações públicas de carinho que viralizam e inspiram fãs. Já Zendaya e Tom Holland, queridinhos da Gen Z, são vistos como um casal discreto, mas cheio de respeito e apoio mútuo, enquanto Hailey e Justin Bieber reforçam a ideia do mimo romântico com gestos e declarações que chamam atenção. No Brasil, Viih Tube e Eliezer também ganham destaque ao mostrar uma rotina real com cuidado, maternidade e afeto em evidência, conectando esse ideal ao cotidiano da Geração Z nacional.
Mari destaca o quanto o romantismo pode ser saudável, desde que não comprometa a autonomia da mulher. “Presentear o outro nunca deveria ser um problema. O problema é quando isso vira uma cobrança que impacta a dinâmica de poder na relação”, esclarece. Sexóloga, a especialista descreve que “o romantismo está a serviço de uma relação saudável quando não impossibilita a liberdade e as decisões do outro”. Em outras palavras, a fantasia da vida de princesa só é válida quando não silencia quem está por trás da imagem encantada.
Uma pesquisa da plataforma de namoro Bumble, que ouviu mais de 40 mil pessoas, revelou que as jovens mulheres estão cada vez mais claras sobre o que desejam e menos dispostas a fazer concessões que não as representem. Apesar da fama de “desapegadas”, 52% delas se definem como românticas. Mais do que isso: 37% afirmam que a ausência de romance impacta diretamente sua vida amorosa. Ou seja, o tal “tratamento de princesa” pode até vir em tom de meme, porém atende a um desejo real de afeto, atenção e intenção.
Mas, claro, o fenômeno não escapa da crítica. O “tratamento de princesa” levanta o debate sobre até que ponto esses gestos reforçam papéis tradicionais de gênero ou se tratam de uma nova forma de cuidado compartilhado. Muitas mulheres que aderem à tendência parecem ressignificar o poder dentro do relacionamento, assumindo o protagonismo de cobrar esse carinho e atenção do jeito delas. A discussão se amplia para o equilíbrio entre expectativas, autonomia e empoderamento nas relações modernas, em que romantismo e independência podem coexistir.

Tom Holland e Zendaya são o casal do momento para a Geração Z, mas preservam a intimidade da mídia (Reprodução/Instagram)
Como reforça Mari Williams, “não tem problema em querer que te abram a porta, desde que você não se esqueça como abrir sozinha”. Esse desejo por atenção e mimos também pode ser potencializado pelas redes sociais, onde “exibir como somos amadas” virou um status. “Com o aumento das influenciadoras mostrando caixas e presentes, cresceu o desejo de ser mimada, e de postar esse mimo”, pontua.
No fim das contas, o “tratamento de princesa” talvez não seja só uma volta ao passado, mas uma maneira desses jovens lembrarem que, em tempos de relações líquidas e digitais, pequenos gestos de atenção ainda são poderosos. Talvez a verdadeira princesa seja quem sabe cobrar esse carinho — do seu jeito, com personalidade e sem abrir mão da própria liberdade.
A musa do TikTok e o “manual da princesa”
A influenciadora norte-americana Courtney Palmer criou uma playlist com 29 vídeos no Tik Tok ensinando como conseguir o tão desejado “tratamento de princesa”. Entre os conselhos, ela compartilha experiências como ir jantar com o marido e não abrir nenhuma porta, não falar ou sequer olhar para os garçons… e nem mesmo pedir a própria comida. A ideia, descreve a criadora de conteúdo, não é ser rude, mas “permitir que o marido lidere e exerça sua masculinidade”. Courtney descreve esse comportamento como “uma brincadeira do tratamento de princesa”.
Com praticamente oito milhões de visualizações, o vídeo ultrapassou 110 mil curtidas. “Eu quando sou prisioneira”, ironizou uma usuária, “comprando” as dicas da influenciadora. Mas nem todos estavam brincando. Outra comentou: “Se visse isso, pensaria seriamente que era um caso de violência doméstica”.
A criadora de conteúdo também se define como “tradwife” (esposa tradicional, em inglês). No vídeo “How to get Princess Treatment Lesson One” (Lição 1 de como receber um tratamento de princesa). Palmer ensina que é preciso “falar palavras positivas” aos homens para conseguir o que se quer. “Precisa fazê-lo sentir que o que ele fez é a melhor coisa do mundo, que ele é um cara incrível”, afirma Courtney. Em outras palavras: o segredo do mimo é bajular. Como diria a Geração Z: “Could never be me” (jamais poderia ser eu).
Mesmo com as críticas, os conteúdos seguem sendo tratados como aspiração por muitas seguidoras. Uma usuária, por exemplo, postou um vídeo do namorado tirando areia dos seus tênis com a legenda: “Quando você trata ele bem, o tratamento de princesa vem naturalmente”.
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