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Em Gramado para a Zero Grau, Silvero Pereira desfila, debate sobre sexualidade e defende liberdade sem rótulos: “Não tenho necessidade de definições”

O ator, que brilhou em "A Força do Querer", participou do evento que é referência no setor calçadista da América Latina e conversou sobre a repercussão da novela, passado de necessidades no sertão do Ceará, relação com a família e comentou a situação política do Brasil. "Na minha opinião, ainda não temos ordem e progresso e, sim, uma chacina muito grande"

Publicado em 21/11/2017 | Por Julia Pimentel

“Eu saí do sertão central cearense sem ter o que comer e beber”. Filho de pedreiro e lavadeira de roupa, ele partiu de Mombaça, no Ceará, com 13 anos para se tornar uma das maiores revelações recentes da televisão brasileira. Em Gramado para a Zero Grau – Feira de Calçados e Acessórios, promovida pela Merkator Feiras e Eventos, Silvero Pereira desfilou no Spot Fashion Pluriverso e participou do Papo Legal ao lado de Lilian Pacce. Entre um compromisso e outro no evento que é referência do setor na América Latina, o ator conversou com o site HT, contou das lembranças da infância e comentou questões como sexualidade e política brasileira.

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Silvero Pereira e Lilian Pacce no Papo Legal, em Gramado (Foto: Henrique Fonseca)

Um dos principais nomes de “A Força do Querer”, última novela de Gloria Perez na qual interpretou um transexual que precisava trabalhar vestido de homem durante o dia, Silvero Pereira hoje colhe alguns frutos dos últimos anos de luta e dedicação à arte. Para ele, o momento de conquista ainda não é sinônimo de sucesso, mas já é algo a ser comemorado para o ator. Com a boa repercussão do folhetim, o ator está tendo oportunidades plurais na carreira. Uma delas, por exemplo, ontem em Gramado. Na Zero Grau, ele desfilou e debateu sobre questões como transgêneros, millenials e ageless. “Eu venho de uma experiência de 15 anos em que essa discussão de gênero e diversidade ainda estava muito nebulosa. E também, de um período em que nas universidades esses conceitos estavam surgindo. Então, hoje, 15 anos depois, as ideias saíram das faculdades e começaram a atingir de fato a sociedade. Para mim, é por isso que eu acho que nas artes o movimento tem ido mais para frente e falado sobre isso porque as pessoas estão entendendo melhor”, disse Silvero em bate-papo exclusivo antes de sua palestra no Papo Legal.

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No debate, que ainda teve a participação da jornalista Lilian Pacce, o ator apresentou sua opinião sobre a questão da sexualidade e preconceito em nossa sociedade. Como ele disse, para quem está neste cenário há 15 anos, os tempos atuais trazem mudanças. No entanto, este ainda é um panorama longe do ideal, de acordo com Silvero Pereira. “O preconceito diminuiu por conta do conhecimento que as pessoas já têm. Eu sinto que as ideias estão um pouco mais claras para a sociedade, ainda não 100%. Mas já melhorou um pouco”, avaliou.

Roberta Pletsch, diretora de Relacionamento com o Mercado, da Merkator Feiras e Eventos, empresa promotora da Zero Grau (Foto: Henrique Fonseca)

Porém, mesmo com esta luta engajada na temática sexual, Silvero Pereira revelou que este não foi seu principal sofrimento pessoal. Na vida, o ator contou que acumula experiências negativas por causa de sua origem humilde. Nascido em Mombaça, no sertão do Ceará, Silvero destacou as barreiras geográficas e econômicas como as principais nestes anos de caminhada. “Como eu trabalho há 15 anos envolvido neste movimento, eu acho que as pessoas têm a tendência de achar que essa relação com diversidade e sexualidade me deixou muito sofrido. Mas o que mais me marcou na minha infância e adolescência é o preconceito com a pobreza e xenofobia. Eu saí do interior do sertão cearense sem ter o que comer e beber. Então, o fato de você ter estudado em uma escola pública, ser pobre e nordestino foi uma grande dificuldade para que eu conseguisse romper histórias e me tornar um artista”, lembrou.

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Mas ele fez isso. Ou melhor, está fazendo. A cada dia, Silvero Pereira vem honrando um dos ensinamentos mais importantes que ganhou de seus pais, como nos contou. Com a mãe lavadeira de roupas e o pai pedreiro, ele aprendeu que o amor pelo ofício deve ser uma das maiores motivações para celebrar o nascer do sol todos os dias. E, no seu caso, a arte é este combustível. “Eu sempre tive a ideia por parte deles de que a maior herança que eles poderiam me dar, ainda mais por serem pobres, era a educação, dignidade e amor pelo trabalho. Meu pai era pedreiro e minha mãe lavadeira de roupa e sempre foram apaixonados pelo que faziam. Isso me mostrou desde pequeno que não importa se você é advogado ou pedreiro, o importante é o prazer naquilo que você faz. Então, se hoje eu cheguei onde cheguei, que eu não acho que é um lugar de sucesso e, sim, uma posição confortável e que me deixa feliz, é por causa desse ensino de dignidade e respeito pelo ofício que eu ganhei”, contou.

Para Silvero Pereira, a boa repercussão de “A Força do Querer” ainda não é sinônimo de sucesso (Foto: Henrique Fonseca)

E isto foi longe de casa. Aos 13 anos, Silvero saiu de Mombaça para buscar uma vida melhor na capital, Fortaleza. Por lá, onde morou por 20 anos, ele estudou, se formou em Artes Cênicas e passou a enxergar o teatro pelos olhos de um profissional. “Até então, eu via como um hobby e um divertimento. Mas foi em Fortaleza que eu me graduei e formei dois grupos de teatro que são bem conhecidos na cidade”, disse o ator que, depois de Fortaleza, está há três anos no Rio. E foi na urbe onde ele teve sua grande oportunidade até o momento.

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No palco em um espetáculo de teatro, Silvero Pereira foi assistido por Gloria Perez e depois convidado pela autora para integrar o elenco de “A Força do Querer”. Com a novela, ele abriu portas, conquistou espaço e escreveu o seu nome entre a nata da teledramaturgia brasileira. “Dentro da novela, as pessoas conseguiram entender esse artista que faz homem e mulher. Que é um ator. Por isso, tenho recebido convites para trabalhos como homem, mulher, drag e, inclusive, para cantar. Afinal, dentro da novela, o público também conheceu esse outro lado”, apontou.

O ator destacou a pluralidade de possibilidades que possui como artista (Foto: Henrique Fonseca)

Aliás, outro lado é algo que Silvero Pereira tem em estoque. Como o motorista Nonato, a trans Elis Miranda, a cantora da noite ou qualquer outra faceta que ele explore, o ator tem honrado com a multiplicidade de trabalhos e investido neste momento profissional. Inclusive, em oportunidades como a Zero Grau, em que ele desfilou pela primeira vez fora da telinha e pôde falar sobre algo que defende e acredita há tanto tempo. Sobre o Papo Legal e a temática da diversidade e orientação sexual, Silvero comentou com propriedade, serenidade e maturidade esta questão em sua vida. “Hoje, com 35 anos, eu entendi que não tenho necessidade dessas definições. Eu passei por um período em que eu achei que fosse homossexual. Depois, comecei a me travestir no teatro e achei que fosse transexual. Porém, hoje, eu vejo que não sou nada disso. Eu sou uma pessoa livre, que tenho a necessidade de me vestir como eu me sentir bem e que pretende se sentir livre nos lugares que está. Eu demorei a chegar a este conceito, que eu vejo como uma não-definição em meio a essas ideias, e que é algo distante da sociedade em que vivemos. As pessoas ainda não compreendem que as diferenças não interessam para a felicidade do outro, mas hoje eu me sinto feliz assim. É assim que eu quero estar”, afirmou.

Neste sentido, ele volta às raízes quando comenta da atual relação com os pais. Mais de 20 anos depois de ter saído de casa em busca de uma vida melhor e de seu sonho como artista, Silvero Pereira disse que hoje entende a rotina que o pai tinha e que vive outro momento da relação com a mãe. Com a fama, o ator foi acusado de ter abandonado a família passando necessidades, o que já foi negado por ele. “Minha mãe me vê como o grande herói da família. Ela tem uma relação muito consciente de tudo o que aconteceu. Durante muito tempo ela achou que tivesse perdido esse filho e que tinha abandonado. Mas hoje ela enxerga que essa foi uma decisão dos dois para que isso acontecesse”, disse.

Após comentários na imprensa de sua relação com a mãe, Silvero contou que hoje ela o enxerga como o “herói da família” (Foto: Henrique Fonseca)

Em relação ao pai, Silvero contou que não possui muito contato. No entanto, hoje, com sua rotina agitada, compreende a falta de atenção paterna na infância. “Durante a vida toda eu e meu pai sempre fomos muito distantes. Ele trabalhava muito fora e ficava pouco tempo em casa. Hoje em dia ele fica mais em casa, mas eu que estou fora. Então, a nossa relação hoje se tornou bem mais próxima porque eu compreendo o que ele fazia naquela época e ele também. Pelo lado dele, meu pai compreendeu que, mesmo eu sendo um filho que ele não ajudou muito na criação, ele contribuiu porque eu sou um reflexo dele”, analisou.

Com tantas experiências e aprendizados na vida, Silvero Pereira busca trilhar um caminho de conhecimento e responsabilidade social. Nestes dois conceitos, o ator afirmou que alia sua arte com alguns engajamentos principalmente nos projetos de sua companhia de teatro. “Além do meu grupo de teatro, que é o Coletivo Artistas Travestidas, que já tem 15 anos, eu penso esta arte como um lugar de questionamento e provocação social. A nossa maior preocupação é tentar mudar um pouco a cabeça das pessoas sobre este universo dos travestis, transexuais e transformistas, que não necessariamente isso pode acontecer. Mas, pelo menos, tentar abrir uma porta, um diálogo e fazer com que as pessoas saiam dali com a mente aberta. Então, o meu objetivo é conseguir atrelar arte, entretenimento, indústria e responsabilidade social”, disse.

“o meu objetivo é conseguir atrelar arte, entretenimento, indústria e responsabilidade social” (Foto: Henrique Fonseca)

Por fim, às vésperas de um ano importante para a política brasileira, Silvero comentou o que acha dos últimos acontecimentos por aqui. Sem papas na língua, o ator foi categórico ao dizer que não enxerga o Brasil como um país de todos, com liberdade e oportunidades. Aliás, para ele, o cenário é bem diferente. “Eu acho que nós não somos um país democrático e nem libertário. O Brasil é um extremamente conservador com uma bancada bem maior, o que impede que existam políticas públicas para todos. Então, a gente não pode levantar essa bandeira. Na minha opinião, ainda não temos ordem e progresso e, sim, uma chacina muito grande, além de um país muito preconceito com a sexualidade, pobreza, xenofobia, racismo, religião e deficiência. Temos muito o que trabalhar nisso”, concluiu.

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