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Em entrevista ao Financial Times, Riccardo Tisci conta como transformou a Givenchy em uma grande fênix da moda

Estilista comenta sobre a dificuldade financeira em que encontrou a grife e como deu apelo mais popular a uma das mais chiques e tradicionais maisons do mundo: "Sei muito bem o que é viver à margem da sociedade!"

Publicado em 03/12/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por Júnior de Paula

Já faz alguns dias que uma reportagem com Riccardo Tisci, o estilista responsável por ressuscitar a Givenchy, foi publicada pelo Financial Times. O resultado é tão bom que HT resolveu comentá-la por aqui. Para ser mais exato, a matéria escrita por Jo Ellison saiu no jornal no dia 28 de novembro e já chamou a nossa atenção no título: “O samaritano gótico”.

A ideia – bem sucedida – era de mostrar a evolução de Riccardo e da marca que ele ajudou a refundar nos dez anos em que está à frente de sua direção criativa. Tisci, aliás, conta que a empresa estava à beira da falência quando chegou. “Eu tinha que atravessar a rua para usar uma máquina pública de fotocópia, porque não tinha nenhuma funcionando no escritório. A gente não tinha dinheiro para consertá-las”, contou.

Riccardo Tisci fotografado por Steven Klein (Foto: Interview)

Riccardo Tisci fotografado por Steven Klein (Foto: Interview)

A reportagem ainda conta que ele sofreu um bocado para contornar as desconfianças da imprensa e até de gente de dentro do grupo LVMH, que não acreditava muito naquele garoto italiano vestido com tênis e jeans, recém-saído da Central St Martins, em Londres, e que só tinha desfilado duas coleções de sua própria marca em Milão.  “Eles me chamavam de gótico. Tom Ford estava fazendo aquele sexy e glam e eu fazendo roupa gótica. Era tudo muito escuro. E a imprensa queria me matar. Mas tudo bem, seis anos depois, as mesmas pessoas que me odiavam passaram a me amar!”, disse Tisci, que hoje tem livre trânsito entre as grandes estrelas do tapete vermelho, como Cate Blanchett e Rooney Mara, assim como entre os maiores nomes da música, como Rihanna, Madonna e Kanye West, além de ter apadrinhado a maior personalidade da mídia atual, Kim Kardashian, que escolheu o estilista para assinar seu vestido de casamento.

Riccardo Tisci com seus queridinho da Givenchy: Liv Tyler, Karolina Kurkova, Kanye West, Florence Welch e Liya Kebede (Foto: Annie Leibovitz | Vogue USA)

Riccardo Tisci com seus queridinho da Givenchy: Liv Tyler, Karolina Kurkova, Kanye West, Florence Welch e Liya Kebede (Foto: Annie Leibovitz | Vogue USA)

Outro ponto importante da matéria é quando se chama atenção para a tentativa de, mesmo supervisionando uma grife de luxo, Tisci ter emprestado seu trabalho a produtos mais acessíveis, como a recente parceria com a Nike, na qual ele criou um modelo de Air Force 1, tênis que o próprio usa desde jovem. “Givenchy sempre foi uma das mais chiques entre as marcas de luxo. Mas Hubert [de Givenchy, o criador da grife] tinha um lado escuro. E eu descobri isso quando fucei os arquivos. No anos 1950, ele não podia expressar tão livremente esse lado dark, mas era possível ver pinceladas dessa ideia e eu me apeguei a isso. A gente trouxe a rua para a marca, e fizemos uma Givenchy mais honesta e real”, afirmou, antes de continuar. “A verdade é que você precisa fazer peças que vão ser usadas no dia a dia. É claro que elas são caras, mas feitas com o compromisso de ter produtos acessíveis para mulheres como as minhas irmãs, que trabalham numa fábrica e ganham cerca de 1800 euros por mês. Se elas quiserem, elas podem comprar os tênis ou as camisetas que eu faço questão de criar por um preço menos impraticável”.

Tisci segura Joan Smalls enquanto a modelo veste o tênis feito pelo designer com a Nike (Foto: Inez and Vinoodh | Vogue USA)

Tisci segura Joan Smalls enquanto a modelo veste o tênis feito pelo designer com a Nike (Foto: Inez and Vinoodh | Vogue USA)

A marca, para quem não sabe, tem seus lucros divididos em termos de 40% vindos das roupas e 60% dos acessórios. “Eu não acredito no modelo de negócios que sugere criar o sonho e vender o perfume. É uma fórmula, mas eu não quero fazer isso. Eu quero que a Givenchy seja como a Ralph Lauren ou a Armani, com um branding integrado com livros, revistas, colaborações artísticas, música e novas linhas de produtos. Eu quero fazer da Givenchy um lifestyle. Eu consigo ver a versatilidade da marca, dos jovens nos clubes às mulheres glamourosas nos vetados. Quando eu assinei com a marca, disse: ‘não vou sair daqui enquanto a companhia não estiver onde ela deve estar: uma marca de lifestyle’. Eu adoraria fazer móveis Givenchy e uma linha para crianças, por exemplo. As pessoas, aliás, não entendiam isso no começo. Eles achavam que toda temporada tinha que lançar uma tendência nova. Eu não quero ser um designer de tendências. Quero uma identidade”, enfatiza.

Claro que a reportagem não ia se omitir em relação a perguntar sobre aspectos mais polêmicos, como a escalação de Lea T. para estrelar a campanha da marca em 2010. “Eu ouvi muita merda por ter escalado a Lea. Ela tinha sido deixada de lado pela família e dando a campanha para ela eu poderia, pelo menos, facilitar sua vida, já que ela teria a grana para fazer a operação. Por muitos meses, eu ouvi as piores coisas das pessoas… Mas as coisas mudaram. Ela foi na Oprah, esteve em programas ao redor do mundo, e as pessoas se apaixonaram por ela. E agora, temos uma transexual na capa da Time Magazine”, disse o estilista que, além de Lea, colocou no centro dos holofotes fashion os mais diversos tipos de pessoas, como albinos, foi o primeiro a escalar a hoje supermodel negra Joan Smalls, e ainda descobriu Lara Stone e a chinesa Ming Xi.

Lea T. em campanha da Givenchy (Foto: Divulgação)

Lea T. em campanha da Givenchy (Foto: Divulgação)

“Normal é uma palavra estranha. Para mim, a palavra diferente não existe. Somos todos iguais. Eu luto para colocar no centro da sociedade o que ela insiste em deixar à margem”, declara o criador. A reportagem do Financial Times ainda conta um pouco do lado não muito conhecido de Tisci: sua infância difícil e de muitas dificuldades no interior da Itália, em uma cidade chamada Cermenate, ao sul de Como. O único menino de uma família de oito irmãs mais velhas, que viram a vida desmoronar quando o pai morreu. Ele tinha só quatro anos e aos nove começou a trabalhar, mas ao contrário das suas irmãs, ele foi o único encorajado por sua mãe, dona Elmerinda, que hoje tem 86 anos, a estudar. Aos 17 saiu da Itália para ir a Londres, onde ganhou uma bolsa para estudar na Central St. Martins. Em 2005, quando assinou com a LVMH, a primeira coisa que fez com o dinheiro foi salvar a casa da família.

“Eu sei muito bem o que é ficar à margem da sociedade. É nojento. Quando eu era criança, eu só podia tomar banho quente na sexta-feira à noite. Comida era pouca e eu sofria bullying na escola porque usava roupas que um dia foram das irmãs. A sorte é que, apesar de ter uma mãe que não sabe ler nem escrever, ela é muito inteligente. Ela sempre me ensinou que se eu fizer algo ruim, eu não devo esquecer nunca, mas se eu fizer algo bom, é para esquecer”. Ele pode até esquecer, mas a gente vai lembrar por muito tempo das coleções geniais que o estilista vem fazendo temporada atrás de temporada.

Tisci por Mert & Marcus (Foto: W)

Tisci por Mert & Marcus (Foto: W)

* Junior de Paula é jornalista, trabalhou com alguns dos maiores nomes do jornalismo de moda e cultura do Brasil, como Joyce Pascowitch e Erika Palomino, e foi editor da coluna de Heloisa Tolipan, no Jornal do Brasil. Apaixonado por viagens, é dono do site Viajante Aleatório, e, mais recentemente, vem se dedicando à dramaturgia teatral e à literatura

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