*por Luísa Giraldo
Aos 31 anos, Dora Figueiredo está de volta com tudo. Ícone do movimento de valorização de corpos diversos no Brasil, a criadora de conteúdo digital anunciou que voltaria a produzir vídeos no YouTube após um hiato de três anos. Ao longo da vida, a paulista atravessou uma complexa trajetória de autoaceitação, em que sofreu com a bulimia e a anorexia, transtornos alimentares ainda considerados tabus, o ganho de peso e o emagrecimento – tudo isso diante de milhões de seguidores, que opinaram em cada mudança corporal. Depois de perder cerca de 20 quilos, ela revelou as questões que a levaram a emagrecer de maneira não saudável. Em conversa com o site, a criadora de conteúdo refuta as críticas e afirma ainda estar à favor do movimento “Body Positive”.
Em uma série de vídeos publicada no Instagram em janeiro, a influenciadora narrou os desafios do processo de auto-aceitação.
“Mesmo sendo padrão, me odiava. Odiava o meu corpo. Odiava quem eu era. Me sentia insuficiente. Foi depois de vários relacionamentos abusivos que resolvi abrir o jogo sobre o que estava vivendo. Enquanto me curava, comecei a me sentir livre da pressão de ser padrão para ser amada, principalmente pelos homens. Para além disso, estava vivendo um momento muito feliz da minha vida, em que tinha descoberto, de verdade, o que era autoestima”, começa.

Dora Figueiredo engordou 20 quilos durante a Pandemia da Covid-19 (Reprodução/Instagram)
Aos poucos, ela constatou que havia engordado. Dora atribuiu o ganho de peso a sensação de “liberdade”, quando parou de reproduzir crenças e comportamentos vinculados a transtornos alimentares.
Comecei a engordar porque ser padrão não era mais a coisa mais importante da minha vida — Dora Figueiredo.
As críticas sobre ter engordado a levaram a abrir o jogo com os seguidores sobre a nova fase. A influenciadora reconhece ter se sentido compelida a expor o corpo. A pandemia da Covid-19, que veio logo em seguida, acelerou o processo de ganho de peso. “Como a minha autoestima não dependia mais do meu corpo, mas de quem eu era, não liguei nenhum pouco para isso. Muito pelo contrário. Pela primeira vez, estava vivendo feliz”, relata.
“Aprendi a não esperar pelo ‘corpo perfeito’, só me afastava de viver plenamente. Engordei, sim, mas também foi quando encontrei a felicidade mais real. A fase mais difícil se transformou na mais importante, porque foi ali que comecei minha jornada de recuperação, de aceitação e de transformação pessoal. Essa etapa moldou minha autoestima e me ensinou o verdadeiro significado de amor-próprio. Mesmo que ela tenha sido interrompida por razões muito difíceis, não apagou tudo o que me ensinou. Agora, recomeço. Com cicatrizes, mas com coragem”, escreveu nas redes sociais.
Após a pandemia, ela perdeu o cachorrinho, que estava com sua família há quase 20 anos, um amigo se suicidou e o irmão perdeu a audição por um erro médico. Foram situações que afetaram profundamente a saúde mental dela, que está em tratamento até hoje. “Aí, comecei o meu processo de emagrecimento. A minha depressão piorou e comer se tornou impossível”, relembra.

Dora Figueiredo abre o jogo sobre o engorda e emagrece (Reprodução/Instagram)
“Sim, eu emagreci. Mas o que levou a isso não foi fácil, nem algo que eu escolheria passar novamente. Meu corpo está saudável de novo, e provavelmente não mudará muito daqui para frente. Mas quero deixar claro: isso não significa que meus valores sobre positividade corporal mudaram. Não significa que eu acredito que a magreza traga felicidade”, completou na legenda.
Saúde mental e retorno à internet
Após três anos sem publicar vídeos no YouTube, Dora Figueiredo desabafa sobre a pressão de voltar para o ambiente digital. Aos seguidores, ela prometeu estar presente e produzir mais conteúdos. “Fiquei um tempo fora. Me sinto muito estressada voltando para a internet, ao mesmo tempo que estava com muita saudade. Mas é estressante porque você nunca é o suficiente”, lamenta a paulista.
Parece que, para estar presente na internet, você tem que estar presente em todas as redes sociais todos os dias, senão não vai ganhar nada e não vai trabalhar. Em parte, às vezes, é real. Dá uma sensação de insuficiência, que deveria estar fazendo outra coisa. É bem estressante, por mais que eu tenha diversos privilégios. Tudo tem seu lado ruim – Dora Figueiredo.
Dora lida com o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e depressão desde os 9 anos. Ela foi uma das primeiras pessoas a abordar vulnerabilidades e transtornos mentais na internet, o que despertou empatia em grande parte do público.
A influenciadora abre o coração sobre como se sente hoje em relação aos transtornos. “Atualmente, a minha saúde mental está boa, até porque, se estivesse ruim, já estaria muito pior depois dessa mudança. Estou fazendo uma mudança que demorou cerca de duas semanas para conseguir terminar. As coisas ainda estão todas em caixas. Tive que fazer a reforma; pintei parede, apliquei massa, essas coisas que a gente faz quando está mais apertada. Mas deu tudo certo. A saúde mental, está okay, estou tomando remédio e estou [com acompanhamento] da minha psiquiatra”.
Body Positive
Além de ter conquistado o público pela transparência em relação aos desafios com a saúde mental, Dora Figueiredo se consolidou como agente do movimento “Body Positive” no Brasil, também encabeçado pelas influenciadoras Ellora Haonne e Alexandra Gurgel. A iniciativa, cujo início data o meio da década passada, visa espalhar mensagens de amor próprio e acolhimento aos diferentes tipos de corpos.

Dora Figueiredo emagreceu, mas ainda sofre com críticas por isso (Reprodução/Instagram)
Embora tenha sido uma das pioneiras do movimento, a perda de peso repentina despertou a raiva de muitos internautas. “A mensagem que passo hoje é sobre você também se aceitar no processo. As pessoas entenderam que, com o ‘body positive’, têm que se aceitar e ficar do jeito que elas estão. Se quiser emagrecer, engordar, ficar forte, se quiser mudar, você está errada. ‘Porque você não queria se aceitar? Não era assim que você gostava?’”, exemplifica as críticas.
As pessoas não conseguem entender que tudo é mutável. Tudo é momento. Você se aceitar não significa que não quer mudar. Significa que, durante o processo, não vai se odiar, não vai querer parar e não vai ter vergonha de ir para a academia porque o corpo não está perfeito – Dora Figueiredo.
A criadora de conteúdo refuta que o atual padrão corporal, que exalta a magreza extrema – mesmo que signifique ter problemas de saúde e transtornos alimentares –, tenha sido o motivo que a levou a emagrecer. Diariamente, ela recebe críticas de milhares de internautas, que a acusam de ser “traidora” do movimento após o emagrecimento.
“Já me incomodei mais com as críticas. Hoje em dia, fiz meus vídeos e expliquei. Quem não quiser entender que não entenda. Chega uma hora que você se explica várias vezes e nada adianta. Você fala e as pessoas fingem que não entenderam. Se não entendeu, é falta de interpretação de texto. Está lá no vídeo. Se não entendeu, muito é hater“.
Apesar de lamentar a postura odiosa de parte dos usuários das plataformas digitais, ela ressalta estar bem-resolvida consigo. A influenciadora reforça, é claro, que ainda defende o “Body Positive”.
Quer me odiar? Pode me odiar, não tem problema. As pessoas vão inventar tudo porque querem confirmar o viés da informação e a opinião delas. A pessoa já te odeia e você acha que ela vai te entender e compreender o que aconteceu com você? Não, ela quer te odiar, quer continuar te odiando e quer ter motivo [para isso]. Estou bem tranquila em relação às pessoas que não entenderam. Quem entendeu é para quem devo a minha atenção e o meu reconhecimento – Dora Figueiredo.
Magreza extrema
A magreza extrema voltou e está por todo lado: nas passarelas, nas campanhas publicitárias, nas redes sociais e, até mesmo, nos produtos audiovisuais. Com ressalvas ao comportamento de mulheres jovens que incentivam a perda de peso a qualquer custo, Dora Figueiredo opina sobre o novo padrão de beleza.
“A volta do movimento da magreza extrema é uma tristeza. Vivi isso na minha adolescência e, agora, tenho uma enteada que está vivendo isso. Vejo o tempo que isso toma na vida das mulheres, esse nervoso sobre emagrecer e não pode engordar. É muito triste”.
Felizmente, o processo de cura de Dora está cada vez mais potente, o que a permite olhar para si com mais carinho e paciência.

Dora Figueiredo ressignifica o movimento “Body Positive” (Reprodução/Instagram)
Hoje, o padrão irreal não me afeta muito, mas vejo [a influência que ele tem no comportamento e na mente das mulheres] e fico meio revoltada. Fico brava. Às vezes, penetra na minha cabeça. Às vezes, não. Na prática, não muda a minha vida. Não faz com que eu deixe de comer. Não faz com que eu me ame menos. Mas é óbvio que, em certo aspecto, afeta. Fazia tempo que não tinha que pensar sobre isso – Dora Figueiredo
Cada vez mais perto de atingir uma relação saudável com o corpo, Dora compartilha um conselho para superar a questão da magreza.
“Não espere que você vá amar o seu corpo completamente assim de uma vez. Vou ser bem sincera: nunca espere amar o seu corpo completamente. Ele vai mudando. A gente engravida, cresce, envelhece, engorda e emagrece. Às vezes, tem um problema de saúde e não pode fazer exercício. Às vezes, vem uma pandemia”, pontua, acrescentando: “O seu corpo vai mudar. Aceite que, no processo, você pode estar fazendo as coisas porque se odeia ou porque gosta do seu corpo e ama ele de maneira completa (e não só a estética). Olhar para você de forma carinhosa, como olharia para uma amiga, é a chave”.
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