De Los Angeles, Suzana Pires relata consequências dos incêndios e revela que abriu uma produtora em Hollywood


A atriz e roteirista, que mora há três anos em L.A. relata como anda a vida, após os incêndios florestais que devastaram a região, as vendas do seu livro em inglês com prefácio de Sharon Stone, e anuncia sua própria produtora em Hollywood, trabalhando em salas de roteiro para grandes estúdios, como a  Amazon, Sony, Eone, Avalon Studios e Mermaid Studios. No olho do furacão da indústria cinematográfica, comenta a repercussão de ‘Ainda estou aqui’ com a performance arrebatadora de Fernanda Torres. Opina sobre as chances na corrida pelo Oscar em três categorias. “A Fernanda está abrindo uma porta gigante para todas nós, colocando a atriz brasileira em uma qualidade artística gigante e mostrando isso para o mundo. Desta maneira, ficamos menos exóticas para o mercado e mais palatáveis. Quando uma artista brasileira brilha no mundo, brilhamos todas!”

*Por Brunna Condini

O cenário é devastador e os rescaldos dos incêndios florestais que atingiram a região de Los Angeles, na Califórnia, comovem o mundo. Conversamos com a atriz, escritora e roteirista Suzana Pires, que mora em L.A. há três anos, trabalhando em salas de roteiro para grandes estúdios, como a  Amazon, Sony, Eone, Avalon Studios e Mermaid Studios. Ela continua morando próximo das regiões afetadas pelos incêndios, e nos relata o que vivenciou: “Em um primeiro momento, o fogo estava em um bairro bem distante do meu, mas, em menos de 24 horas, atingiu Hollywood Hills, que é próximo de onde moro. Recebemos a ordem amarela para ficarmos atentos à evacuação. Preparamos a mochila com documentos, duas roupas e água. Esperamos 48 horas e os bombeiros conseguiram conter aquele fogo específico. Hoje, está tudo mais calmo na minha área. Mas, para sair na rua muitos usam máscaras e o cabelo e as roupas ficam com cheiro fortíssimo de fumaça. O momento mais assustador foi quando a fumaça do incêndio em Hollywood Hills tomou o bairro inteiro, tivemos que fechar tudo e ligar os purificadores para respirar”, lembra.

Somente nos últimos dias, Suzana conseguiu voltar a focar no trabalho. “Mas com ressalvas, porque muitos colegas perderam suas casas e é hora de ajudar com o que for: roupas, água, escuta ativa. Está difícil para toda a cidade, mas a resiliência e a tenacidade das pessoas daqui me inspiram. É hora de reconstruir tudo: materialmente e emocionalmente”, afirma. Na conversa a seguir, Suzana também relata como viver e trabalhar na meca do cinema norte-americano mudou sua percepção como artista e realizadora; e também das vendas do seu livro em terras estrangeiras com o luxuoso prefácio de Sharon Stone, além de anunciar a abertura de sua própria produtora por lá. Analisa ainda a repercussão do filme ‘Ainda estou aqui’, com a performance arrebatadora de Fernanda Torres, opinando sobre suas reais chances na corrida pelo Oscar. E divulga os projetos entre L.A. e o Brasil, já anunciando que virá ao nosso país em março para lançamento de filme.

Suzana Pires anuncia vinda ao Brasil em março, relata consequências de incêndios em Los Angeles, onde vive, e avalia chances de Fernanda Torres no Oscar (Reprodução/Instagram)

Suzana Pires anuncia vinda ao Brasil em março e avalia chances de Fernanda Torres no Oscar (Reprodução/Instagram)

Suzana segue empolgada ao comentar sobre o roteiro que escreve da série ‘As Panteras‘ para o Brasil, a partir de uma parceria entre as produtoras Sony Pictures Television e Floresta. “Tem sido uma experiência sensacional, de muito aprendizado. Trabalhar com a Sony Brasil e Sony US juntas, preservar a essência da propriedade intelectual, mas trazer para os dias de hoje, tem sido incrível”, analisa.

Com saudades do seu país, ela vem para palestras, e lançar um filme que fala alto ao seu coração: ‘Câncer com ascendente em Virgem’, que chega aos cinemas dia 27. No longa dirigido por Rosane Svartman, a atriz interpreta Clara, uma professora e influencer educacional, que atravessa o tratamento de um câncer. A atriz divide a cena com Marieta Severo, no filme baseado na história real da produtora Clélia Bessa, que, durante o tratamento que a curou de um câncer de mama em 2008, lançou o blog ‘Estou com câncer, e daí?’, no qual dividia suas experiências. Além de ter passado por uma transformação externa, em que raspou o cabelo e emagreceu; revela que se transformou de forma profunda e considera esse trabalho o mais importante da sua trajetória até aqui. “Me preparei para ele minha carreira inteira”.

Marieta Severo e Suzana Pires em ‘Câncer com ascendente em virgem’ (Reprodução/Instagram)

Marieta Severo e Suzana Pires em ‘Câncer com ascendente em virgem’ (Reprodução/Instagram)

“Tudo foi sensacional. Desde a leitura de todo o material que a Clélia havia escrito no blog dela, passando por fazer as escolhas, e desenhar a estrutura do roteiro com Martha Mendonça, Pedro Reinato, sob a supervisão da Rosane”. E reafirma que a experiência que viveu com o próprio pai, João Felippe, que passou por um tratamento de câncer, a inspirou. “Meu pai teve câncer de pulmão. Depois de 8 anos e de muitos tratamentos, o câncer zerou. Hoje ele está bem e sempre muito divertido”.

Escrever esse roteiro foi uma experiência de trazer também muitas situações que vivi com meu pai durante a experiência dele com o câncer. O humor que você vê no filme, eu digo que veio dele, o Felipão! Que entrou em um tratamento atrás do outro e permaneceu de pé e positivo. Nas filmagens, já na chave da atriz, aí dei tudo, todas as minhas emoções. Pra você ter uma ideia eu não lembro direito do set… de tão inteira e mergulhada que estava. Nas folgas não conseguia sair … foi uma catarse – Suzana Pires

A atriz e roteirista e as diferentes caracterizações para o filme ‘Câncer com ascendente em virgem’ (Reprodução/Instagram)

A atriz e roteirista e as diferentes caracterizações para o filme ‘Câncer com ascendente em virgem’ (Reprodução/Instagram)

 

Vida e a arte em Los Angeles

Suzana se sente acolhida por Los Angeles e divide como a experiência do trabalho por lá tem agregado na sua percepção da própria atividade. “Tenho trabalhado com profissionais inacreditáveis, aprendendo muito, mas também contribuindo demais para a narrativa dentro da sala de roteiro. Existe espaço para roteiristas brasileiras aqui, mas é preciso entender o game, as relações e como o americano trabalha; o que eu gosto muito. Não tem muita pessoalidade, o foco é no projeto e as picuinhas, ou não existem ou vão ficando pelo caminho. São muitos milhares de dólares em jogo. Agora eu tenho também a minha própria empresa aqui, a Spiritus Entertainment, e daqui a pouco irei anunciar muitas coisas legais. Não estou fazendo nada aqui pensando só em mim. Meu objetivo é abrir espaço para as próximas brasileiras que virão para cá”.

"Não estou fazendo nada aqui pensando só em mim. Meu objetivo é fazer espaço para as próximas brasileiras que virão pra cá” (Reprodução/Instagram)

“Não estou fazendo nada aqui pensando só em mim. Meu objetivo é fazer espaço para as próximas brasileiras que virão pra cá” (Reprodução/Instagram)

Vibrando por cada conquista, a artista celebra as vendas do seu livro ‘Dona de Si’ (‘Unleashed‘ por lá). A obra em inglês contou com um prefácio luxuoso escrito por Sharon Stone. Qual é a sua relação com a atriz norte-americana?  “Sharon e eu nos falamos quando estamos nos mesmos eventos, claro, mas não somos amigas íntimas. Somos mulheres no mesmo lado da trincheira feminista e isso é uma conexão muito profunda. Sobre o livro, as vendas estão indo bem. Têm gerado um dindin bom”.

"Quando uma artista brasileira brilha no mundo, brilhamos todas!" (Reprodução/Instagram)

“Quando uma artista brasileira brilha no mundo, brilhamos todas!” (Reprodução/Instagram)

Ela comemora também as conquistas do nosso cinema mundo afora, em específico as do filme ‘Ainda estou aqui’, de Walter Salles, e as de Fernanda Torres, que acaba de levar o Globo de Ouro por sua performance no longa, que também foi indicado em três categorias do Oscar: Melhor Atriz, Melhor Filme e Filme Estrangeiro. “Acho que a Fernanda está abrindo uma porta gigante para todas nós, colocando a atriz brasileira em uma qualidade artística gigante e mostrando isso para o mundo. Desta maneira, ficamos menos exóticas para o mercado e mais palatáveis”, analisa.

Acrescenta ainda que “Fernanda tem condição de levar o Oscar. Quando uma artista brasileira brilha no mundo, brilhamos todas! Fui a uma sessão linda do filme no Hollywood Brazilian Film Festival da Thalize Sayeg, mas precisei voltar para casa, porque o longa me acertou em cheio e eu não conseguia parar de chorar. Falei com a Fernanda pelo Whats App. Com Selton Mello eu falo mais e estamos para jantar juntos aqui”.