*Por Brunna Condini
Conhecida do grande público como a irreverente Krica de ‘Malhação – Seu Lugar no Mundo’ (2015-2016) e ‘Malhação: Pro Dia Nascer Feliz’ (2016-2017), Cynthia Aparecida — antes apresentada como Cynthia Senek — dá um salto criativo e existencial ao lançar sua primeira série solo, ‘Monólogos de Auto-Reconhecimento’. Gravada entre as Pirâmides do Egito, a Amazônia e o Rio de Janeiro, a produção autoral mistura filosofia pop, humor ácido, teatro e espiritualidade para abordar temas como autossabotagem, ancestralidade, prazer feminino, vícios emocionais e a busca por sentido em tempos de excesso. No roteiro, assinado pela própria atriz, que no momento também filma ‘Nosso Lar 3‘; duas versões de uma mesma mulher — a inconsciente e a consciente — dialogam nos 15 episódios. “Não é uma série para quem quer se esconder. É para quem quer rir da própria dor e transformar ela em arte”.
Se a Cynthia de Malhação divertia o público com a espontaneidade de Krica, a de ‘Monólogos de Auto-Reconhecimento’ entrega uma versão radicalmente corajosa e, por vezes, desconcertante. “Todo autoconhecimento verdadeiro começa com um colapso”, afirma. E é exatamente esse ponto de ruptura que guia a narrativa da série; não como algo a ser evitado, mas como um portal de transformação. A seguir, a artista reflete sobre autenticidade e revela se já sofreu algum tipo de preconceito no meio artístico por sair do papel esperado. Pensando também sobre casos como o de Juliana Marins, que, assim como ela, se lançou ao mundo em uma jornada de buscas, Cynthia comenta como enxerga o preconceito disfarçado de preocupação com mulheres que escolhem viver fora dos padrões. Além disso, diante de episódios como o da turista chilena Loreto Belen, que relatou ter sido estuprada durante uma vivência espiritual na Amazônia, compartilha como lida com os medos e apreensões de ser uma mulher que transita sozinha pelo mundo, inclusive por territórios que misturam espiritualidade, desconhecido e relações de poder.

Fazendo série sobre autoconhecimento, Cynthia fala dos ganhos de ser autêntica, sobre preconceito no meio artístico e riscos de ser uma mulher livre no mundo (Foto: Pupin e Deleu)
Nascida Cynthia Aparecida Senek Finkensieper, em Curitiba há 33 anos, ela usou em boa parte dos 22 de carreira o sobrenome ‘Senek’ artisticamente. Recentemente decidiu adotar o ‘Aparecida’, nome que antes procurava esconder. “Sentia vergonha porque tinha uma referência da minha infância e do quanto esse nome estava em mim ligado a religiosidade. Assumir o ‘Aparecida’ foi uma cerimônia de conexão com a minha própria brasilidade. É recente, faz apenas dois anos que lembrei da minha origem. Nome é frequência, ‘Aparecida’ vibra a minha verdade. Quando entendi isso, assim como se devolve uma espada para uma guerreira, devolvi esse nome para o palco da minha carreira com orgulho”.
Com uma trajetória marcada por trabalhos em produções como ‘3%’ (Netflix), ‘Deserto Particular’ (HBO) e ‘A Dona do Pedaço’ (Globo), Cynthia mergulha em sua fase mais autoral na série que costura arte, filosofia, espiritualidade e humor ácido em episódios com lançamentos semanais no YouTube. “A produção é absurdamente performática e teatral de uma maneira over, para que o público se veja refletido em um espelhamento que não seria possível enxergar sem a encenação. Essa estratégia de tornar os absurdos extremamente gigantes faz com que o público olhe para o mínimo dentro de si e pense: “isso pode facilmente se transformar naquilo ali”. A série é um convite pra parar de fingir que a gente já entendeu tudo”, define.
Mergulhada em uma jornada pessoal, espiritual e artística nos últimos anos, ela frisa que todo autoconhecimento verdadeiro começa com um colapso, e divide qual foi o seu:
Quando penso nos meus colapsos, me vem à mente alguns certos momentos de crise. Mas hoje com a maturidade que tenho percebo que foram momentos em que eu não me sentia pertencente. Tudo que buscava, acreditava e via, ninguém entendia. Me sentia sozinha, desamparada. Sentia como se eu fosse um problema. Eu nunca fui o problema, só estava inserida no ambiente errado – Cynthia Aparecida

“Eu nunca fui o problema, só estava inserida no ambiente errado” (Foto: Pupin e Deleu)
Com a série, ela traz ‘verdades incômodas’ para o centro da roda de discussão, exercitando o direito de ser uma mulher que “não finge que está tudo bem”, e ainda fala disso abertamente: “Isso significa ser vista como chata, difícil ou agressiva. Principalmente quando você faz isso em voz alta e sem culpa”. Já sofreu algum tipo de preconceito no meio artístico por sair do papel esperado, seja por se posicionar demais, ou não se encaixar nas ‘prateleiras’ que tentam impor às mulheres? “Com certeza. O famoso, “Não fala muito”, “não posta isso”, “vai queimar tua imagem”. Esse tipo de coisa”. E conclui:
Queria muito ser calminha e agradar todo mundo, mas sou mais do tipo que prefere ser fogo do que fumaça – Cynthia Aparecida

A atriz Cynthia Aparecida no Egito (Foto: Reprodução/Instagram)
Ser mulher pelo mundo
Ao longo de sua trajetória, Cynthia Aparecida também tem desafiado normas sociais ao se lançar em jornadas pelo mundo com coragem e autonomia, atitude que, segundo ela, ainda incomoda quando parte de uma mulher. A artista reflete sobre o julgamento velado que recai sobre corpos femininos livres, ao pensar no caso da brasileira Juliana Marins, que morreu após uma queda em uma trilha na Indonésia. “Se uma mulher ousa existir fora da ‘bolha’, a sociedade corre pra transformar sua coragem em uma irresponsabilidade. Mas ninguém julga o homem que escalou o Everest e morreu de hipotermia. Estranho, né?”, provoca.
Ela também fala sobre os riscos de transitar sozinha por territórios que misturam espiritualidade, desconhecido e relações de poder, especialmente após casos como o da turista chilena Loreto Belen, que denunciou ter sido estuprada durante uma vivência na Amazônia. “Existe uma curiosidade que observei no meu processo de habitar os espaços que prometem cura: às vezes eles também reproduzem violências sutis (ou nem tão sutis)”, afirma. A artista conta que aprendeu a olhar para mestres, xamãs, pastores e gurus com respeito, mas sem deixar de lado o próprio instinto. “Viajo sozinha confiando que minha alma também sabe me proteger. Ouço atentamente ela”.

“Se uma mulher ousa existir fora da ‘bolha’, a sociedade corre pra transformar sua coragem em uma irresponsabilidade” (Foto: Pupin e Deleu)
Ao compartilhar o momento atual na carreira e os planos, Cynthia completa: “Estamos filmando ‘Nosso Lar 3‘ e ainda não posso dar detalhes sobre o projeto, mas posso afirmar que está sendo muito prazeroso estar entre esse elenco incrível (Carol Castro e Fábio Assunção são alguns dos nomes envolvidos). Meus próximos passos são em Los Angeles, onde vou estudar atuação e cinema. Quero me aprofundar como artista e como diretora da minha própria vida. Também pretendo facilitar workshops de auto-iniciação artística e talvez ajudar na organização de um festival indígena na Amazônia. O tempo da floresta é outro mas meu plano, sempre, é compartilhar o que vivo e sinto em todos os formatos e maneiras possíveis”.

“Queria muito ser calminha e agradar todo mundo, mas sou mais do tipo que prefere ser fogo do que fumaça” (Foto: Olivia Nachle)
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