Gente & Comportamento

Com 25 anos de carreira, Kelzy Ecard mostra a força do artista brasileiro em sua estreia nas telenovelas como Nice, em Segundo Sol

A artista, que é estrela consagrada dos palcos, com mais de 30 peças no currículo, fala sobre seu primeiro papel de destaque na televisão, política, feminismo e a batalha de quem vive de arte no país: " Tenho sido muito bem sucedida em realização artística, mas minhas finanças são um fiasco!", desabafou. Além do papo, tem ainda as fotos incríveis e exclusivas do site HT feitas por Sergio Baia no Teatro Riachuelo, com beleza de Yago Maia e styling de Rafael Ourives. Vem ver!

Publicado em 24/10/2018 | Por Ana Clara Xavier

Kelzy Ecard é uma mulher extraordinária em todos os sentidos que esta palavra pode significar. Primorosa atriz, cidadã batalhadora e uma mãe cuidadosa e gentil. Ela representa todo o poder latente feminino de quem lutou a vida inteira pelo seu espaço. E, agora, no auge de sua vida adulta, ela foi apresentada ao grande público nacional, depois de anos de uma carreira vitoriosa no teatro, ao embarcar em sua primeira personagem em uma novela: a dona de casa Nice, de Segundo Sol, que, aliás, roubou a cena. “Está sendo mais potente do que eu esperava, na verdade. O alcance que o veículo tem é algo extraordinário”, contou Kelzy, que é a musa do editorial desta semana. Com cliques de Sergio Baia, a beleza assinada por Yago Maia e o styling poderoso de Rafael Ourives, a atriz é a estrela das fotos simbólicas e artísticas feitas no belíssimo Teatro Riachuelo, no Rio.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Vestido Rudge, Pulseira e colar Metally)

Alma de artista e coração de eterna estudiosa, Kelzy Ecard é uma atriz que transpira 24 horas a paixão pelo seu ofício. Entrou de cabeça nesta profissão no auge de sua juventude, mas quem disse que idade foi um problema para ela? Mesmo assumindo tardiamente o amor pela profissão, ela conseguiu transformar as coxias e palcos em sua segunda casa. É aquele típico caso de uma atriz que nasceu para brilhar e ser aplaudida de pé pelos teatros do mundo. Se fortaleceu no instável meio dos palcos e teve a confirmação de sua vocação ao vencer dois Prêmios APTR, dois Cenym e um Botequim Cultural, além do prêmio coletivo Questão Crítica. “Infelizmente nossa cultura tende a valorizar mais a celebridade do que o artista. Isso inverte o foco e faz com que jovens desejem, antes que tudo, ser famosos e não artistas de verdade”, definiu a atriz, que construiu sua carreira em mais de 30 peças e, só agora, como já contamos, faz sua estreia em uma novela.  Na trama, vive uma dona de casa que é o centro de um núcleo familiar conturbado, no qual acabou protagonizando cenas de amor e conflito com as filhas e de machismo e violência doméstica vindas do marido. Carismático e profundo, o seu papel acabou caindo no gosto dos espectadores. “Recebo diariamente mensagens com relatos de pessoas que participam ou participaram de relacionamentos abusivos e se vêem espelhadas na história dela, e são inspirados por ela. É lindo demais se sentir parte disso!”, contou.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Camisa Rudge, Body Sizély, Calça Citwar Sapato Sonho dos Pés e Brinco Zinc)

Empoderada, ela sempre fez questão de mostrar, através de suas palavras e atitudes, a força, o poder e a importância do lugar feminino na sociedade. “Estamos muito mais avançados do que já estivemos, mas ainda há um longo caminho pra que a nossa sociedade veja beleza nos mais diversos tipos e formas e cores e tamanhos… É uma jornada. Estamos nela! Eu pessoalmente sempre vi beleza onde há caráter, alegria e afeto!”, comentou em papo exclusivo, que você pode ler a seguir.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Camisa Citwar, Calça Leader,  Brinco Atelier Chilaze, Pulseira Zinc, Sapato Sonho dos Pés )

Site Heloisa Tolipan: No Brasil, participar de uma novela é visto quase como legitimar a profissão do ator frente ao grande público. Segundo Sol é a sua primeira teledramaturgia. Esta sendo como você esperava? Ou achou algo superestimado?

Kelzy Ecard: Está sendo mais potente do que eu esperava, na verdade. O alcance que o veículo tem é algo extraordinário. Mas o que legitima nossa profissão é nossa trajetória, nosso discurso artístico, nosso comprometimento. A novela só torna isto mais visível.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Blusa Heckel Verri, Calça Citwar, Colar Zinc)

HT: A sua personagem possui uma dinâmica familiar complicada. No início da trama, por exemplo, vimos que ela chegou a escolher pela carreira de uma das filhas e, ao mesmo tempo, mantém uma relação conturbada com o marido. Qual a importância de falarmos sobre estes casos de família?

KE: O meu núcleo familiar na novela mergulha em temas extremamente importantes e contundentes. Fala-se de machismo, homofobia, prostituição, relacionamento abusivo, uma explosão de assuntos fundamentais de serem discutidos. Muita gente se vê nos conflitos da Nice, por exemplo. Recebo diariamente mensagens com relatos de pessoas que participam ou participaram de relacionamentos abusivos e se veem espelhados na história dela, e são inspirados por ela. É lindo demais se sentir parte disso! E esta não foi a primeira vez, na verdade, que toco em temas delicados. Tenho tido a sorte de participar de vários trabalhos no teatro que abordam assuntos importantíssimos. Como artista, me sinto atraída e realizada de participar de projetos assim.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Blusa Heckel Verri, Calça Citwar, Colar Zinc, Sapato Sonho dos Pés)

HT: Segundo Sol foi uma novela que apostou muito em novos nomes. Você não é a única artista de lá que veio dos palcos ou de outras áreas da dramaturgia. Acha que é necessário que este fluxo de profissionais se mantenha para que possamos ver rostinhos de outros meios artísticos na TV?

KE: Isto não aconteceu por acaso em Segundo Sol. Foi fruto de intensa pesquisa da produtora de elenco, Vanessa Veiga, e do luxo que é ter um diretor que frequenta teatro. Antes mesmo de ter sido convidada pra novela, eu já tinha encontrado o Dennis Carvalho em diversas plateias. Ele ama teatro, e de lá ele me trouxe! Em resumo, acho fundamental. E creio que a teledramaturgia agradece! Seria lindo que esse intercâmbio se ampliasse. Tem muita gente maravilhosa por esse Brasil afora. Temos artistas extraordinários em todos os cantos esperando uma oportunidade. E isso só vai enriquecer o panorama geral.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Camisa Citwar, Calça Leader, Brinco Atelier Chilaze, Pulseira Zinc, Sapato Sonho dos Pés )

HT: Acha que, mesmo assim, existindo este intercâmbio, a televisão continua sendo um meio fechado?

KE: Eu tenho percebido uma preocupação do veículo com isso. Sei que eles (Rede Globo) pesquisam por aí em diversos festivais e escolas de teatro. Acho que com o tempo esse panorama vai mudar. É saudável e enriquecedor pra todos, tanto pro artista como pra indústria de entretenimento. Torço muito por isso!

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Camisa Citwar, Calça Leader, Brinco Atelier Chilaze, Pulseira Zinc, Sapato Sonho dos Pés )

HT: Na sua opinião, este preconceito do ator em só ser conhecido quando aparece na televisão acaba prejudicando a formação do artista?

KE: Infelizmente nossa cultura tende a valorizar mais a celebridade que o artista. Isso inverte o foco e faz com que jovens desejem, antes que tudo, ser famosos e não artistas de verdade. Tudo que a gente precisa é de artistas com formação e fundamento, que se comprometam com seu tempo e seu discurso artístico, que queiram produzir arte pra melhoria e transformação social e não só pra satisfação de seus egos. Mas a discussão é maior que só na nossa profissão…

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Camisa Rudge, Body Sizely, Calça Citwar, Sapato Sonho dos Pés e Brinco Zinc)

HT: A sua carreira no teatro é realmente extensa. Pode nos contar pouco sobre os seus trabalhos nos palcos?

KE: Já perdi as contas das peças que fiz, aliás tenho que fazer essa contabilidade. Tenho tido a sorte de participar de trabalhos incríveis.  Vou citar alguns que foram bastante desafiadores e de alguma maneira foram determinantes em minha história artística.  O primeiro foi Rasga Coração, de Vianninha, com direção de Dudu Sandroni, onde ganhei meu primeiro prêmio como atriz. Depois cito o Breu, de Pedro Brício, em que fiz uma deficiente visual e fiquei de olho fechado durante todo processo de ensaios e temporadas. Foi um mergulho intenso em outros universos. Incêndios, de Wadji Mowauad, com direção do Aderbal Freire-Filho e com a musa Marieta Severo encabeçando o elenco. E Tom na Fazenda, do Michel Marc Bouchard, com direção do Rodrigo Portella, um projeto do Armando Babaioff que, além de toda a importância fundamental em minha trajetória como artista de teatro, me abriu as portas para o audiovisual.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Camisa Citwar, Calça Leader, Brinco Atelier Chilaze, Pulseira Zinc, Sapato Sonho dos Pés )

HT: Sabemos que a vida de um artista é cheio de altos e baixos. Quando não se tem um vínculo com alguma emissora, a estabilidade fica ainda mais complicada. Como é viver e se sustentar do teatro?

KE: Eu não posso dizer que consegui me dar bem financeiramente. Eu vivo de teatro há 25 anos, mas aos trancos e barrancos – como todo artista que conheço. Tenho sido muito bem sucedida em realização artística, mas minhas finanças são um fiasco! A vida de um ator de teatro não é nada fácil. Trabalhamos muitas vezes sem nenhum tipo de incentivo e o investimento na cultura é cada vez mais escasso. Agora, depois de um filme e da novela, estou conseguindo começar a pagar dívidas!

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Blusa Heckel Verri, Calça Citwar, Colar Zinc, Sapato Sonho dos Pés)

HT: O movimento feminista está em um constante processo de evolução e ascensão. Como você vem enxergando este empoderamento feminino nos palcos, afinal, muitas artistas garantem ter problemas de se firmarem na carreira depois da juventude?

KE: Acho que é um problema mundial em relação ao envelhecimento (feminino principalmente), que se reflete na indústria do entretenimento. Em contrapartida, há personagens extraordinários na dramaturgia mundial que só podemos fazer ao envelhecer. De novo a dicotomia entre arte e indústria.

(Foto: Sérgio Baia/ Beleza: Yago Maia/ Styling: Rafael Ourives/ Créditos: Camisa Rudge, Body Sizély, Calça Citwar, Sapato Sonho dos Pés e Brinco Zinc)

HT: Estamos nos encaminhando para o fim de mais uma eleição para presidente, na qual o povo parece já ter escolhido o seu candidato.  Independente da escolha política, sabemos que no ano que vem o nosso país passará por diversas transformações. Positivas ou negativas. Sabendo disso, como você enxerga o teatro e a sua profissão a partir das mudanças que estão por vir?

KE: Eu ainda espero uma virada nesse quadro, e tenho lutado por isso. O que tenho percebido é uma onda crescente de desvalorização e culpabilização do artista, quando em tempos sombrios o que mais precisamos é de arte e cultura pra não sucumbirmos à barbárie. Fala-se em extinção do Ministério da Cultura, em acabar com leis de incentivo, estaremos em vigília pra que isso não aconteça! Nosso papel na sociedade é cada dia mais fundamental, na luta por dias melhores, mais amorosos, inclusivos e democráticos. Por mais respeito e solidariedade. Por mais justiça social. Todo artista comprometido com sua arte e seu tempo continuará lutando por isso.

Equipe:

Fotógrafo: Sergio Baia
Make: Yago Maia
Styling: Rafael Ourives
Assistente de styling: Renata Lamin

Agradecimentos:

Teatro Riachuelo
MNiemeyer
Sayonara Sarti
Nova Assessoria e RP

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