*por Luísa Giraldo
Se estivesse viva, Clarice Lispector (1920-1977) completaria 105 anos em dezembro de 2025. Assim como a personalidade imortalizada, seus livros intimistas continuam impactando leitores e, sobretudo, de gerações novas. A partir do nicho “bookTok”, no TikTok e no Instagram, jovens brasileiros das Gerações Z (nascidos entre 1997-2012) e Alpha (nascidos a partir de 2013) se encantaram por obras como “Perto do coração selvagem” (1943) e “Felicidade Clandestina” (1971). O sucesso atravessou fronteiras linguísticas, geográficas e culturais, alcançando celebridades ícones para a Gen Z.
O movimento não deixa dúvidas: Clarice Lispector é fenômeno pop mundial, e aclamada como escritora de referência sobre as angústias femininas, acompanhando Annie Ernaux, Sylvia Plath (1932-1963) e Virginia Woolf (1882-1941). A autora nascida na Ucrania e naturalizada brasileira teve duas obras entre os títulos mais vendidos da Bienal do Livro de 2025, realizada no Rio de Janeiro em junho passado: “A Hora da Estrela” e “Água Viva” (1973), publicadas pela editora Rocco.
A comoção atingiu o auge quando a norte-americana Olívia Rodrigo revelou carregar um exemplar na bolsa a obra consagrada da autora “A Hora da Estrela” (1977). A cantora revelou a curiosidade no quadro Whats in my bag, da “Vogue”, onde mostrou o que ela carrega no cotidiano. “Esse é o livro que estou lendo agora, “A Hora da Estrela“. Minha amiga Annie St. Vincent comprou para mim no Brasil, quando estávamos fazendo shows juntas. Estou marcando e anotando no livro inteiro. Ele tem palavras muito bonitas,” avaliou a artista, que se apresentou pela primeira vez no Brasil em março, no Estádio Couto Pereira, em Curitiba.

A cantora Olívia Rodrigo revelou ao mundo que adora os livros de Clarice Lispector (Reprodução Youtube)
Estrela alternativa da Geração X (Milleniuns), Lorde também é adepta aos escritos de Clarice Lispector. Ao Estadão, a artista revelou ter começado a compor as músicas de seu recém-lançado álbum, “Virgin”, a partir de leituras profundas. “Quis ler mulheres autoras que tivessem aquele tipo de intensidade, sem remorso, fisicalidade e estranheza. Li Annie Ernaux, Rachel Cusk e Clarice Lispector”. E continuou: “Em ‘Virgin’ tentei criar um retrato preciso de mim mesma, independentemente de achar que era bonito ou não.”
Em 2021, com as músicas bombando na internet, Luísa Sonza produziu o videoclipe do hit “Penhasco“, inspirado em uma famosa entrevista de Clarice Lispector. A autora participou do programa Panorama, da TV Cultura, em 1977, cena que foi reproduzida pela cantora. A música com a letra melancólica levou os fãs a conectarem a composição desiludida com o término do casamento com Whindersson Nunes. “Quando segurei sua mão você soltou a minha e ainda me empurrou do penhasco”, diz um trecho.

A cantora Luísa Sonza produziu o videoclipe da música “Penhasco” inspirada em uma famosa entrevista dada por Clarice Lispector (Reprodução Youtube)
Por trás do encantamento de Olívia Rodrigo, Lorde, Luísa Sonza e da legião de fãs, as obras carregam reflexões profundas, frases dolorosas e epifanias angustiantes. Muitos da Gen Z, mais adepta ao cuidado da saúde mental e à valorização dos sentimentos, sentem-se representados. A persona “Clarice”, em si, tornou-se símbolo de jovens e, principalmente, das dores da mulher contemporânea. O motivo: as obras, embora escritas há mais de 30 anos, continuam perturbadoramente atuais.
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