Carol Solberg: “Usar ou não biquíni no vôlei de praia deveria ser uma escolha. A obrigatoriedade é machismo”


A atleta da seleção brasileira fala sobre a polêmica em relação ao uniforme nas Olimpíadas de Tóquio e também da sexualização dos corpos das atletas. Carol também aborda política, censura e as inseguranças da maternidade no meio: “Causa muita insegurança nas atletas. É sempre uma incógnita sobre como vai ser seu ano seguinte, sem patrocinador, apoio. Sobre como vai conseguir correr um circuito mundial com um bebê. No meu caso, depois do meu primeiro filho, um dos meus patrocinadores continuou comigo, o que fez toda a diferença. Mas existe uma regra de que você não volta com seus pontos totais a jogar, o que é um absurdo. Não existe nenhum benefício por você ter tido filho e estar querendo voltar ao circuito mundial. Fato é, que também no esporte, as mulheres não têm apoio em relação à maternidade e essa pausa”

*Por Brunna Condini

Não é porque não está nas Olimpíadas em Tóquio, no Japão, representando o Brasil, que a jogadora de vôlei de praia da seleção Carol Solberg não está com o coração por lá. “Estou torcendo muito daqui. Tem um sentimento de frustração por não ter conseguido classificar, porque o Brasil no vôlei de praia leva duas duplas, fiquei em terceiro nessa colocação. Queria muito estar participando, mas faz parte. O Brasil é muito forte no vôlei e estou na torcida pelas meninas que estão representando o país. Vou tentar a próxima, as Olimpíadas em Paris”, diz Carol, que continua a rotina de treinamentos.

"O Brasil é muito forte no vôlei e estou na torcida pelas meninas que estão representando o país. Vou tentar a próxima, as Olimpíadas em Paris” (Divulgação)

“O Brasil é muito forte no vôlei e estou na torcida pelas meninas que estão representando o país. Vou tentar a próxima, as Olimpíadas em Paris” (Divulgação)

Filha da jogadora de vôlei de quadra Isabel Salgado e irmã de dois jogares, Carol tem por hábito, estimulado na própria criação em casa, se posicionar sobre o que acontece no mundo. E segue daqui não só atenta às Olimpíadas, mas ao que anda acontecendo por lá em relação às outras atletas. Como o recente episódio com a seleção feminina norueguesa de handebol de praia que optou por jogar de short, em vez do tradicional biquíni, e por conta disso, recebeu uma punição de cerca de R$ 9,3 mil.

De acordo com as regras da Olimpíada, as atletas devem competir com o uniforme ‘pré-estabelecido pelo torneio’, que, no caso, é o biquíni. Para a jogadora, a ação é mais manifestação do machismo no esporte. “Você jogar vôlei de praia de biquíni é algo natural se está o maior calorão e você se sente confortável com o uniforme: o biquíni. O que acho um absurdo é quando uma mulher não se sentir confortável e escolher jogar com um short ou um biquíni um pouco maior, não poder”, opina.

“Porque ainda tem isso, o biquíni tem que ser de tamanho tal, não pode ser maior do que os centímetros estipulados, então acho ruim você estar dentro de quadra e se sentir desconfortável. Têm meninas que não gostam de estar de biquíni, acho que deveria ser uma escolha. Vejo machismo nisso. Essa regra surgiu muito pela visibilidade, achando que mulheres de biquíni na televisão, nos torneios, dariam mais audiência, um absurdo total. Os homens não precisam jogar de sunga, jogam de short, camisa. É querer ter esse olhar para o corpo da mulher. Me incomoda. Deveria ser uma questão de opção individual e não algo imposto e obrigatório. Se a gente esmiuçar essa história a fundo vai entender como é o machismo que impera”.

"Acho ruim você estar dentro de quadra e se sentir desconfortável. Têm meninas que não gostam de estar de biquíni, acho que deveria ser uma escolha" (Foto: Fernando Young)

“Acho ruim você estar dentro de quadra e se sentir desconfortável. Têm meninas que não gostam de estar de biquíni, acho que deveria ser uma escolha” (Foto: Fernando Young)

Ainda existe a sexualização do corpo das jogadoras, já se sentiu abusada pelos olhares ou comentários sobre o seu corpo quando estava jogando? “Já me senti desconfortável muitas vezes dentro do biquíni. Tem lugares que a gente joga em que a arquibancada é colada na área que você vai dar o saque, então sua bunda está literalmente na arquibancada, na cara das pessoas. Tem gente te fotografando até com câmera que dá zoom. E mais: sou brasileira. Tem determinados lugares em que está frio e o juiz diz se está suficientemente frio ou não para jogar de biquíni ou de calça. Acho isso absurdo, se estou com frio, deveria poder usar calça e me sentir bem durante a partida. Não deveria ser uma questão”.

E deixa claro: “Por acaso eu não tenho problema em jogar de biquíni. Jogo numa ótima, não me sinto desconfortável com o meu corpo, mas já vivi essas situações e gostaria de ter escolha de jogar de short em determinados lugares se eu quisesse. Não é sobre estar de boas ou não com o corpo, e sim com a roupa e com a exposição”.

"Por acaso eu não tenho problema em jogar de biquíni. Jogo numa ótima, não me sinto desconfortável com o meu corpo, mas já vivi essas situações e gostaria de ter escolha de jogar de short em determinados lugares se eu quisesse" (Divulgação)

“Por acaso eu não tenho problema em jogar de biquíni. Jogo numa ótima, não me sinto desconfortável com o meu corpo, mas já vivi essas situações e gostaria de ter escolha de jogar de short em determinados lugares se eu quisesse” (Divulgação)

Casada há 12 anos com o  diretor e fotógrafo Fernando Young com quem tem dois filhos, Salvador, de 4 anos, e José Araguaia de 9, Carol também comenta outro caso que chamou atenção recentemente sobre a nadadora artística espanhola Ona Carbonell, recordista de medalhas em mundiais da modalidade, que informou por meio de um vídeo nas redes sociais que não poderá levar seu filho Kai, de apenas 11 meses, em sua viagem a Tóquio para a disputa dos Jogos Olímpicos.

A capitã da equipe de nado sincronizado da Espanha questionou as condições impostas pela organização, que inviabilizam que ela continue amamentando seu bebê. “A maternidade causa muita insegurança nas atletas. É sempre uma incógnita sobre como vai ser seu ano seguinte, sem patrocinador, apoio. Sobre como vai conseguir correr um circuito mundial com um bebê”, desabafa. “No meu caso, depois do meu primeiro filho, um dos meus patrocinadores continuou comigo, o que fez toda a diferença. Mas existe uma regra de que você não volta com seus pontos totais a jogar, o que é um absurdo. Não existe nenhum benefício por você ter tido filho e estar querendo voltar ao circuito mundial. Fato é, que também no esporte, as mulheres não têm apoio em relação à maternidade e essa pausa”.

"Fato é, que também no esporte, as mulheres não têm apoio em relação à maternidade e essa pausa” (Arquivo pessoal)

“Fato é, que também no esporte, as mulheres não têm apoio em relação à maternidade e essa pausa” (Arquivo pessoal)

Esporte e política

Em outubro do ano passado após uma partida que valia o bronze na primeira etapa da temporada do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, em entrevista, a atleta expressou sua inconformidade com o atual presidente ao vivo. Pelo episódio, Carol enfrentou uma denúncia pelo Comitê Disciplinar do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, com sanções e uma advertência, da qual recorreu e foi absolvida em novembro.

Passado o ‘furacão’, ela contabiliza: “Não me arrependo nem um pouco de ter me posicionado. Falei algo totalmente espontâneo. E foi superimportante usar a minha voz para me manifestar”, declara, acrescentando que ter ido a julgamento “foi uma grande hipocrisia”. Tenho certeza que se eu tivesse me manifestado a favor, tivesse gritado um ‘Bolsonaro, mito’, nada disso teria acontecido. Além disso, pelo fato de eu ser mulher, isso também tomou uma proporção maior. Foi uma tentativa de censura. Fiquei feliz, de junto com meus advogados, ter acreditado que eu não deveria ter tido nenhum tipo de punição, branda ou não. No final das contas ser absolvida foi a resposta”.

“Não me arrependo nem um pouco de ter me posicionado sobre o que acredito” (Divulgação)

Para a jogadora é preciso desmistificar que esporte e política não se misturam. “É impossível separar, até porque ela está em tudo na nossa vida. No esporte, essa ‘mordaça’ fica só nos atletas, porque os dirigentes, os patrocinadores, as instituições podem usar o esporte para se promoverem politicamente. Políticos podem usar eventos esportivos como palanque, então acho que esporte e política sempre estiveram misturados, desde sempre”.

Aos 33 anos, Carol se dedica como nunca aos treinos e garante que pretende continuar jogando enquanto “sentir amor pelo jogo e sentir que seu corpo funciona legal”. E embora tenha ‘voz política’, não pretende se candidatar a cargos públicos. Sua praia é o esporte, mas sempre atenta ao mundo ao redor e usando sua visibilidade para se posicionar sobre temas que afetem os rumos em sociedade: “Cresci em um ambiente que me instigou, me puxou, me fez querer refletir e falar sobre. Mas também acho que mesmo quando você não teve isso, pode ter o desejo e correr atrás. Não acho que me posiciono porque estou validada a isso, pela minha história, acredito que a voz de todos têm importância, e quando você acredita em uma causa, se sensibiliza com aquilo e acha importante falar sobre isso, é fundamental ter a ação”.