*por Luísa Giraldo
As capivaras são estrelas pop! Os bonecos dos roedores competem com os bebês reborn pelo título de “febre do momento” no Brasil, visto que estão sendo mega procurados em pelúcias, camisetas estampadas a comidas inspiradas em sua forma. Nas redes sociais, registros de capivaras atraem milhões de visualizações e geram bastante engajamento. O amor por esses animais é uma das primeiras tendências da Geração Alpha (2010-2024), grupo super jovem que sucede a Geração Z (1997-2009) e antecede a Beta (2025-2039), composto por bebês nascidos a partir deste ano.
Apesar de aparentemente fofa, a espécie é selvagem. A recomendação dos especialistas é clara: não ter capivaras nos ambientes domésticos – nem sempre, elas se comportam calma e carinhosamente. Não são pets e, portanto, devem viver em espaços grandes para correr, nadar e se reunir com outros animais.
A popularidade do animal começou em 2020 e, desde a pandemia da Covid-19, cresceu exponencialmente. Em 2023, a espécie viveu o auge, porém, o Google Trends indica um alto índice de pesquisas por capivaras na internet até hoje. Conteúdos e, em especial, memes e vídeos bombam – o que elas fazem de tão especial? Nada. Os bichinhos encantam apenas pela aparência fofa e são um perigo ao tornarem-se pets em algumas lares.
Acredite ou não, mas a adoração pelos bichinhos impacta, até mesmo, a diplomacia internacional do Brasil. Em um texto publicado pela Folha de S.Paulo em 2024, o presidente chinês, Xi Jinping, destacou, entre várias influências culturais brasileiras que impactam seu país, “as fofinhas capivaras”.

Pesquisas no Google Trends sobre “capivaras” entre 2024 e 2025 (Reprodução)
Atualmente, elas são celebridades globais apelidadas como “capys”. A canção “Cabybara”, publicada pelo criador de conteúdo Habitually Henry no YouTube, tem mais de oito milhões de visualizações. O vídeo foi compartilhado há cerca de dois anos, mas o engajamento não para de crescer. E esse é apenas um exemplo do sucesso, já que são centenas de publicações criativas no Instagram e no Tik Tok.
A analista de Mídias e de trends do mundo digital Isadora Sanfins reconhece se deparar, cada vez mais, com conteúdos sobre capivaras na timeline. “Tem algo hipnotizante. É um animal gigante, tranquilo, que parece não se abalar com nada. É quase um alívio visual no meio do caos do feed”.
O sucesso das capivaras é uma dessas viradas inesperadas, que a internet adora. Mas ao olharmos com um pouco mais de atenção, faz todo sentido: estamos em uma era em que o meme virou linguagem afetiva, e as redes sociais são espaços para buscar respiro, identificação e pertencimento. A capivara, com o jeito zen e seu andar despretensioso, virou símbolo dessa vontade coletiva de desacelerar – Isadora Sanfins.
Por outro lado, algumas capivaras são influenciadoras digitais de sucesso, cujo público fiel conta com milhares de seguidores. Os roedores viralizam em vídeos aceitando carinho, usando roupas humanas e vivendo “normalmente” dentro de casa. Conheça algumas delas:
- Capivara Filó – resgatada ainda filhote pelo criador de conteúdo Agenor Tupinambá, a capivara ganhou destaque por ser um animal silvestre, que não pode ser criado como pet. Hoje, o roedor vive em uma fazenda, sob os cuidados de veterinários e biólogos.
- Cheesecake e Pumpkin – Vivem em um santuário nos Estados Unidos, onde visitantes pagam para enviar mensagens que elas “comem” em vídeos personalizados.
- Frankie – Famosa no Tik Tok tailandês, onde tem mais de três milhões de curtidas. Ela aparece em vídeos fofos com roupinhas e recebendo carinho.
O fenômeno das “capys-influenciadoras” contribui, é claro, para o consumo exacerbado. No Brasil, a imaginação é o limite: estampas de camisetas, pelúcias, bonecos, garrafinhas, quadros e… comidas. O “capistel”, um pastel em formato de capivara, é vendido em várias feiras no país, assim como a “capixinha”, que é a coxinha de capivara e o “pãopivara”, populares em São Paulo.
“Tem também o fator ‘incomum, mas carismático’, que funciona muito bem no digital. A capivara é diferente, engraçada, mas também fofa. E essa mistura é combustível pra viralizar: um vídeo vira figurinha, que se torna produto e surge um personagem. As redes amplificam tudo rapidamente. Sucesso na certa!”, opina Isadora.

Pastel em forma de capivara (Reprodução/Instagram)
Popularidade das capivaras
Um dos aspectos que podem explicar a fixação pelas capivaras é a nova mentalidade contemporânea sobre o meio ambiente. As gerações mais jovens demonstram crescente preocupação com a natureza e os animais, impulsionadas por uma combinação de fatores como o aumento das mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e o acesso facilitado à informação por meio da internet e das redes sociais.
A febre pode ser uma forma de abrir os olhos do mundo para a espécie e a necessidade de proteção dela. Além de uma moda passageira, cuja duração se estende desde 2020, a adoração pelos animais representa uma oportunidade valiosa para despertar a consciência ambiental e promover a proteção da espécie.

Materiais escolares de capivaras bombam entre as meninas mais jovens (Reprodução/X)
Queridas pelo público, essas interações podem gerar empatia e interesse em preservar não só o animal, mas os ecossistemas onde vivem, como manguezais, savanas, lagos e pântanos. O fascínio coletivo pelo roedor permite, então, uma porta de entrada para debates mais amplos sobre conservação da biodiversidade e a necessidade de coexistência entre seres humanos e a fauna silvestre.
Brincadeira perigosa ter capivara em casa
Diferentemente do que apontam o senso comum e as pelúcias felpudas nas lojas de brinquedos, as capivaras não são pequenas e nem têm pêlos macios. Na verdade, são os maiores roedores do mundo, além de classificados como uma espécie nativa da América do Sul, encontrada em regiões do Panamá e Argentina. Fora do continente, sua presença é considerada exótica, geralmente resultado da ação de criadores locais.
“As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) são semi-aquáticos e os maiores roedores do mundo, chegando a medir 130 cm e pesar mais de 90 kg. Possuem hábitos alimentares herbívoros e roem as cascas de árvores para desgastar os seus grandes dentes incisivos”, pontua o vice-presidente do Conselho Regional de Biologia do Espírito Santo, Daniel Motta.

As capivaras são o momento e estão em produtos de todas as lojas, inclusive pelúcias fofas (Reprodução/X)
As capivaras estão se tornando mais presentes nos ambientes urbanos devido a fatores como a urbanização desordenada, a perda de habitat natural, a falta de predadores e a disponibilidade de alimento. A expansão das cidades, que geralmente invade áreas naturais onde os roedores vivem, faz com que elas se adaptem a ambientes urbanos em busca de alimento e abrigo.
O avanço da expansão imobiliária é o principal motivo para o aumento desses animais em áreas urbanas. Os empreendimentos ficam próximos aos habitats delas, como rios, lagoas e alagados. Quando perdidas ns áreas urbanas, elas ficam muito estressadas e procuram o melhor lugar para fugirem: a água. Por isso, há alguns registros desses animais dentro de valões ou em praias distantes de seus habitats – Daniel Motta.
Nesse contexto, vale lembrar que manter animais silvestres como domésticos é crime. A legislação brasileira ainda proíbe a exploração comercial de animais silvestres mantidos irregularmente.
Frequentemente flagradas nas cidades, o contato direto com os animais pode gerar riscos, segundo especialistas. O cuidado deve, então, ser cada vez maior, visto que a busca por fotos e interações próximas cresceu nos últimos anos, sobretudo em áreas urbanas, onde as capivaras estão cada vez mais presentes – e também, pela iminência dos bichos para a Geração Alpha, crianças e jovens de até 15 anos.

Capivaras parecem dóceis e calmas, mas podem ser perigosas para os seres humanos, alertam especialistas (Reprodução)
Mestre Biologia Animal, Daniel alerta que “qualquer interação com um animal silvestre é muito perigosa” por conta da imprevisibilidade do comportamento dele, sobretudo se sentir ameaçado. No caso da capivara, o biólogo destaca, as “mordidas muito fortes e com grande poder de lesão”.
Além da Febre Maculosa Brasileira, a capivara também é responsável por outras zoonoses (doenças infecciosas transmitidas entre animais e pessoas), em caso de consumo da carne dela, como a leishmaniose, leptospirose e algumas doenças fúngicas – Daniel Motta.
Mesmo assim, as “capys” são estrelas mundiais. Em zoológicos, santuários e, até mesmo, cafeterias asiáticas, as capivaras atraem visitantes que pagam para vê-las, alimentá-las ou receber vídeos personalizados. Já em países como o Japão e a China, circulam livremente entre os clientes, que podem acariciá-las enquanto tomam café.
No fim, acho que a gente se apegou às capivaras porque elas representam exatamente o oposto do caos. Em um mundo que não para, esse jeito “manso” virou algo que queremos conquistar, como seres humanos – Isadora Sanfins.
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