*por Vítor Antunes
Diante dos desafios da vida, ela foi levantadora. E suas manchetes, quase sempre, terminaram em ponto vitorioso. As referências ao voleibol não são gratuitas. Virna Dias tornou-se sinônimo de um Brasil que aprendeu a se enxergar campeão também na rede, em um país acostumado a se reconhecer apenas no gramado. Integrante da primeira geração da Seleção Feminina a conquistar medalhas olímpicas, ajudou a consolidar o esporte como potência nacional. Agora, é vencedora em outra quadra: a da palavra. Atua como palestrante motivacional, depois de ter sido obrigada a se reinventar mais de uma vez: a gravidez precoce, o afastamento das competições, a aposentadoria antecipada. Divide com plateias as estratégias que desenvolveu para atravessar turbulências pessoais. A mulher que compartilha a própria vulnerabilidade, especialmente após o fim de um relacionamento de quase 20 anos. “Tive que buscar muita força para superar. Vivi meses de luto, e acho que todo mundo que se separa tem que viver esse luto, mas eu ganhei muita força. Direcionei todas as minhas angústias, dores, para fazer atividade física. E dei essa volta por cima”, frisa.
Segundo Virna, um dos estopins para repensar a própria relação foi a morte da também atleta e amiga Walewska Oliveira (1979–2023), que praticou morte autoinfligida, em meio a um relacionamento tóxico. “Aquilo mexeu muito comigo. Ele era amigo de um ex-namorado meu. Aquilo me fez entrar numa terapia intensa, ainda que eu já fizesse análise há muitos anos. E essa análise me fez reparar que o meu relacionamento não era mais saudável. Esse reconhecimento me fez perceber que eu precisava tomar uma atitude definitiva”. O divórcio aconteceu há cerca de um ano. É a primeira vez que ela fala publicamente sobre o assunto. A ex-atleta, no entanto, faz questão de sublinhar o presente: “Hoje eu não estou namorando ninguém. Estou bem comigo. Mas, obviamente, eu quero encontrar alguém bacana, porque eu sou bacana”.
Separar-se não é fácil. É desconstruir uma família. Eu, filhos e hoje eu sou avó… Sempre fui aquela mulher sonhadora, que acredita no casamento eterno, nos relacionamentos. Eu sou muito transparente, eu sou muito verdadeira. Chegou um momento de minha vida que eu me vi e falei: “Eu me amo acima de tudo. Eu tenho que me cuidar. Temos que buscar o que nos completa, mas realmente, me dei conta que sou uma mulher f*d#! – Virna Dias

Virna Dias agora é palestrante motivacional (Foto: Lennon Silva)
QUANTO AO TEMPO
Ainda que o ano esteja só no aquecimento, Virna Dias já tem agenda carimbada até 2028. Será embaixadora do Comitê Olímpico do Brasil nos Jogos de Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Paralelamente, desenha um projeto pessoal: percorrer o país entrevistando mulheres brasileiras, como quem mapeia um território ainda subestimado. “É sempre bom a gente lembrar, fortalecer as mulheres, e eu acho que o esporte me deu força, reinvenção, vontade de querer lutar, contribuir para o meu país, de querer ajudar. É porque a gente ainda percebe as mulheres muito invisibilizadas”.
Para ela, atuar como palestrante motivacional é a continuação de um percurso. A quadra virou plateia, e a rede, conversa. “Eu adoro estudar a mente humana, estudar o que as pessoas pensam, por que as pessoas pensam diferente de mim”. Neste momento, diz viver uma fase de plenitude. Quer leveza seletiva. “Amigos balões. Que voem comigo, que estejam comigo. De pessoas âncoras, estou fora”, pontua.

Virna Dias: Quero pessoas balão, que impulsionam (Foto: Lennon Silva)
Vivendo em Campinas (SP), mantém o Rio como espécie de pátria afetiva. Veio para cá aos 14, quase 15 anos, quando a carreira começava a ganhar altitude nas seleções de base. “Vim morar no Rio com 14 para 15 anos. Estava começando a carreira e a decolar nas seleções. Fui para a seleção infanto, depois seleção juvenil e era uma das promessas da seleção adulta. Porém, ainda muito jovem, me vi grávida. Chegou aí o primeiro desafio: ter de parar de jogar. Ainda que temporariamente, tive de voltar para Natal, virar funcionária do meu pai numa construtora. O técnico da seleção, o Zé Roberto, me chamou na época, mas não pude ir às quadras em razão da cesariana. Só voltaria anos depois a ser convocada para a Seleção Brasileira, já adulta. Sendo mãe de Vítor e já atleta, tive que me redescobrir. Eu não sabia sequer fritar um ovo”.
Tinha um mundo avassalador à minha frente. Eu não vi o Vítor andando, nem aprendendo a falar. Minha vida era o esporte. Mas, graças a Deus, a maternidade me deu maturidade – Virna Dias
A maternidade lhe ensinou improviso e resistência. “Eu tinha que me virar nos 30. Ganhei esse amadurecimento ao mesmo tempo em que fui me tornando uma grande jogadora. Eu não sabia recepcionar quando fui cortada de uma seleção”. Depois de um intervalo mais largo na vida esportiva, vieram Pedro e Maria. Vieram também as palestras, a função institucional, a reinvenção contínua.

Virna Dias e a família (Foto: Acervo pessoal)
A dinastia, ao que tudo indica, ensaia continuidade em Maria, a filha mais nova, que já se descobre no vôlei com 1,82m aos 12 anos. “Maria tem 12 anos, 1,82m, está jogando vôlei, e sempre reforço que ela não deve se sentir pressionada a ‘ser a Virna’, mas a ser a Maria. Eu falo: ‘Filha, você tem que ser a Maria, não a Virna. A mamãe pode te dar conselhos, te dar dicas, te orientar, mas busque a sua história’”.
Para além da atleta e da mãe, há a avó. “Ela não tem meus traços, mas tem minha simpatia. E com a minha neta eu tento ser a vovó mais legal do mundo. É um coração que pula fora do nosso. É meio inexplicável a beleza de vê-la descobrindo o mundo”.

Virna Dias (Foto: Lenon Silva)

Virna Dias (Foto: Lenon Silva)
NA QUADRA
Os Jogos Olímpicos de 1996 entraram para a história como a estreia das brasileiras do vôlei no pódio olímpico. Também ficaram marcados por uma rivalidade que transbordou a rede. Brasil e Cuba disputavam cada ponto como se fosse declaração de guerra. Em quadra, houve empurrões, provocações e um entrevero que virou símbolo daquela tensão. Virna Dias e Mireya Luis eram rostos dessa disputa. Rivais ferozes naquele verão de Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, hoje falam como amigas. “Nós somos amicíssimas. Éramos adversárias em 96, teve toda aquela guerra, aquelas brigas. A rivalidade da época se deu por uma questão do próprio técnico cubano, que as instigava na rivalidade contra nós a fim de nos desestabilizar. Hoje a seleção de Cuba não tem o mesmo impacto de antigamente, de modo que contrataram um técnico brasileiro para tentar recuperar o prestígio da seleção cubana”, comenta.
O tempo, como se vê, é especialista em mudar o placar das memórias. Depois de pendurar as joelheiras, Virna migrou para a cabine de transmissão. Tornou-se comentarista esportiva, uma das primeiras mulheres a ocupar o posto na emissora que a convidou. “Quando a Globo me chamou, eu fui uma das pioneiras como comentarista. E aí eu fui aprendendo. Depois eu tive oportunidade de presenciar as duas medalhas das meninas. Em 2008, eu estava em Pequim, com o Luciano do Valle, e essa cena não me sai da cabeça. A gente tinha perdido aquela Olimpíada para a Rússia. E as meninas viraram o jogo contra a Rússia, fomos para a final e ganhamos a medalha de ouro. O jogo foi lindo. O Luciano começou a chorar. A chorar, eu comecei a gaguejar. Eu desci, abandonei-o na transmissão. Desci por impulso de ex-atleta, que esqueceu que estava como jornalista. O Luciano falou: ‘Vem, a gente está ao vivo. Você está louca?’ Mas foi muito marcante aquele título das meninas. O nosso voleibol é uma referência no mundo”. Ela se refere aos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, quando o ouro enfim coroou uma geração que aprendera a perder antes de aprender a vencer.

Virna Dias e Ana Moser na Olimpíada de Atlanta 96 (Foto: Acervo pessoal)
Hoje, como palestrante, Virna organiza a própria trajetória em capítulos pedagógicos. Fala de disciplina, frustração, liderança e maternidade como quem comenta uma partida em câmera lenta. “Com o esporte temos uma vida com muitos sacrifícios. Tem muitos treinamentos. Quando eu falo que eu ganhei a melhor recepção do mundo, eu treinava mais que todo mundo. E na vida, se você quer ser um bom executivo, uma boa líder, você tem que se esforçar. Você tem que saber lidar com os seus liderados. O esporte me deu muito essa excelência, essa força. Às vezes, é nas derrotas que você tem que se superar. Eu tenho uma frase: ‘a gente não pode procrastinar. A gente tem que fazer sempre hoje. O amanhã é um outro dia’. Eu sempre falo que o esporte é uma arte que não engana. Ou você faz, ou você faz. Não tem replay. Então, você tem que se preparar sempre para hoje. E, perdendo, você tem que se reinventar numa velocidade muito rápida, porque amanhã é outro jogo. Amanhã é um outro dia”.

Virna Dias e o time de bronze em 1996. Trinta anos (Foto: Acervo pessoal)
Ela prossegue a sua analogia: “No mundo corporativo está assim também: as concorrências, a busca de resultados, as pressões. Tem tudo a ver com o nosso mundo esportivo. Eu adoro, porque conto a história da maternidade também, que muitas mães se cobram, se preocupam. Executivos também, que às vezes entram um pouco em casa. Toda essa lição que eu tive no esporte eu tento passar para motivar as pessoas, para não desistir. Saber lidar com as diferenças e tentar sempre extrair o melhor do seu companheiro, da sua companheira de trabalho. Eu amo falar em público, amo falar com mulher, amo falar com criança. Vou falar com executivo, dependendo do que a empresa quer: ‘Quero que fale sobre liderança, quero que você fale mais sobre vendas’. Aí a gente vai contando as histórias que eu vivi na minha trajetória, na minha carreira, no mundo corporativo”.
A ex-ponteira segue fazendo o que sempre fez: recebendo, organizando e devolvendo a bola. Só mudou o cenário. A quadra agora é auditório. E o ponto, quando vem, é silencioso, mas ecoa.