Brain Rot: personagens bizarros causam saturação digital no cérebro de jovens e preocupam pais por teor violento


“Brain rot” se tornou um fenômeno global em meio à crescente sobrecarga digital, impulsionada pelos chamados “bain rots italianos”, memes gerados por inteligência artificial (IA) que retratam criaturas bizarras, com nomes italianos, trilhas sonoras próprias e narrações surrealistas. Cappuccino Assassino, Tralalero Tralala, Ballerina Cappuccino e Tung Tung Tung Sahur são os personagens mais conhecidos da febre “Brain Rots”. Uma das histórias envolve os interesses amorosos de Ballerina Cappuccino — uma bailarina que, em vez de uma cabeça, possui uma xícara de cappuccino — com Cappuccino Assassino — um copo de cappuccino “humano”, com braços que seguram katanas e pernas. A neuropsicóloga Gleyna Lemos tem inúmeras ressalvas em relação a esse movimento digital. “O fenômeno é preocupante especialmente pelo potencial impacto no desenvolvimento cerebral e emocional dos jovens. Trata-se de um consumo acelerado e superficial de conteúdo digital que, embora inicialmente possa parecer inofensivo ou até engraçado, promove uma espécie de deterioração das capacidades cognitivas

Cappuccino Assassino, Tralalero Tralala, Ballerina Cappuccino e Tung Tung Tung Sahur são os personagens mais conhecidos da febre “Brain Rots" (Reprodução/Inteligência Artificial)

*por Luísa Giraldo

“Brain Rot” (em tradução livre, “podridão cerebral”) foi definida como a palavra do ano passado pela Oxford University Press, editora do “Oxford English Dictionary”, no Reino Unido. Em todo o mundo, a sobrecarga digital se faz ainda mais presente, já que a onda do momento são os “bain rots italianos”, memes gerados por inteligência artificial (IA). São personagens bizarros e, até mesmo assustadores, que estão invadindo as telas dos jovens da Geração Alpha (2010-2024). Os conteúdos de baixa qualidade estão viralizando nas redes sociais e assustando os pais.

“Tralalero Tralala” foi o primeiro “brain rot” italiano a fazer sucesso, impulsionado por um vídeo viral de um tubarão calçando tênis da Nike. Logo, surgiram inúmeras narrativas absurdas dentro desse universo, como a história de Ballerina Cappuccino, que tem uma xícara, e é casada com o criminoso Cappuccino Assassino. Todos os dias, são gerados novos personagens pela IA.

A expressão informal é símbolo da saturação digital contemporânea. O termo é usado para descrever conteúdos sem valor informativo, artístico ou educacional, tais quais vídeos curtos, memes absurdos e postagens sem sentido. Define, assim, a sensação de desgaste mental após longos períodos on-line, associada à dificuldades de concentração, lapsos de memória e redução da capacidade de desenvolver pensamento crítico diante de conteúdos mais complexos.

A popularização aconteceu quando quando passou a circular no X (antigo Twitter), segundo o site especializado“Know Your Meme”. No entanto, vídeos com animais híbridos, roupas e comportamentos humanos começaram a viralizar no Tik Tok no início de 2025. E estão em milhões de feeds ao redor do mundo. Gerados por IA, as publicações apresentam uma série de criaturas estranhas com nomes italianos, que têm trilha sonora própria e a narração de suas histórias.

Tralalero Tralala e Tung Tung Tung Sahur participam de inúmeros vídeos virais dos italianos "Brain Rots" (Reprodução/Inteligência Artificial)

Tralalero Tralala e Tung Tung Tung Sahur participam de inúmeros vídeos virais dos italianos “Brain Rots” (Reprodução/Inteligência Artificial)

Muitos internautas acreditam que as músicas e a narração são fonemas do idioma, porém trata-se, na verdade, de um conteúdo sem sentido ou significado real. Paródias geradas por inteligência artificial, como versões dos hits“Waka Waka”, de Shakira, “Havana”, de Camila Cabello, e “Billie Jean”, de Michael Jackson, ganharam popularidade no Tik Tok e no Instagram. Além das montagens com funks e músicas eletrônicas, foram criados memes com figuras como o jogador de futebol Lionel Messi e o Presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump.

A neuropsicóloga Gleyna Lemos tem inúmeras ressalvas em relação a esse movimento digital. “O fenômeno é preocupante especialmente pelo potencial impacto no desenvolvimento cerebral e emocional dos jovens. Trata-se de um consumo acelerado e superficial de conteúdo digital que, embora inicialmente possa parecer inofensivo ou até engraçado, promove uma espécie de deterioração das capacidades cognitivas. Isso ocorre por reduzir a capacidade de concentração, prejudicar a memória, e estimular uma busca constante por estímulos rápidos e superficiais”.

Ressalta ainda que “conteúdos como esses favorecem uma redução na habilidade de lidar com informações complexas e podem levar ao enfraquecimento da capacidade crítica e reflexiva dos jovens”. Os danos ao desenvolvimento intelectual e ao equilíbrio emocional são severos, avalia ela.

Esse tipo de conteúdo pode impactar profundamente a saúde mental infanto-juvenil. Crianças e adolescentes estão em fases cruciais do desenvolvimento neuropsicológico, onde habilidades como atenção sustentada, memória de trabalho, e controle de impulsos ainda estão amadurecendo. Exposição excessiva a vídeos superficiais e repetitivos pode prejudicar essas habilidades cognitivas e levar ao aumento de sintomas ansiosos, dificuldade em manter o foco em atividades escolares ou sociais mais complexas, além de potencializar comportamentos impulsivos. O impacto acumulativo pode ser ainda mais prejudicial, dificultando o desenvolvimento saudável e equilibrado das funções executivas – Gleyna Lemos.

Dados do Google Trends obtidos pela Folha de São Paulo revelaram que o interesse continua crescendo. A plataforma de busca divulgou, ao portal TechTudo, que as pesquisas por Tralalero Tralala, o personagem mais conhecido da trend, aumentaram +350% no Brasil e fisgaram a curiosidade de pessoas de praticamente 80 países. Atualmente, são mais de 1,5 milhão de posts “#brainrot” no Tik Tok e incontáveis visualizações.

A especialista em Mídias Digitais Isa Sanfins entende que a sociedade contemporânea precisa de policiar em relação ao uso exagerado das telas – um tema que não é novidade, ressalta. “Entendo que há camadas muito mais profundas. Para algumas pessoas, as redes sociais são o único refúgio. Às vezes, a vida delas é tão difícil e dura que, nas plataformas, encontram um meio de ter uma nova realidade. Elas acabam passando muitas horas ali”, atenta-se.

Está ligado principalmente à falta de qualidade de vida das pessoas no mundo real. Muitas não têm dinheiro para sair, para fazer algum tipo de esporte etc. Na mente delas, a única alternativa de “descansar” dessa vida real é estar nas redes sociais consumindo conteúdo, consumindo memes, acompanhando (determinados) influenciadores. Infelizmente, são conteúdos rasos, sem cunho educacional, mas sim uma forma que as pessoas encontram de se desligar da realidade – Isa Sanfins.

Personagens bizarros e não são brincadeira

 Tralalero Tralala foi o primeiro “brain rot” italiano a bombar. O sucesso veio a partir de um vídeo do personagem, um tubarão que usa tênis da Nike, com o efeito de explosão e abriu espaço para muitas outras criaturas. Logo, inúmeras narrativas bizarras sobre o universo foram criadas. 

 Uma das histórias envolve os interesses amorosos de Ballerina Cappuccino — uma bailarina que, em vez de uma cabeça, possui uma xícara de cappuccino — com Cappuccino Assassino — um copo de cappuccino “humano”, com braços que seguram katanas e pernas  —, Tung Tung Tung Sahur — pedaço de tronco com rosto, braços e pernas —  e o tubarão. Não demorou para que vários países entrassem na febre, como a Indonésia, que criou a criatura de madeira.

Personagens como Tralalero Tralala, Ballerina Cappuccino e Tung Tung Tung Sahur bombam nas redes socias (Reprodução/Inteligência Artificial)

Personagens como Tralalero Tralala, Ballerina Cappuccino e Tung Tung Tung Sahur bombam nas redes socias (Reprodução/Inteligência Artificial)

 A trend alcançou perfis de grandes clubes internacionais de futebol, como Paris Saint-Germain Football Club (PSG), Bayern de Munique, Juventus. Os brasileiros Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Flamengo também participaram da brincadeira usando o áudio “Tung Tung Tung Sahur”.

 “Parece brincadeira, mas não é. Esses vídeos usam o absurdo, repetitivo e visualmente caótico para prender a atenção das crianças e dos adolescentes por horas. Alimenta um comportamento compulsivo e, muitas vezes, inconsciente”, explica Delegada Sheila (PL),  deputada estadual de Minas Gerais, em um vídeo que viralizou sobre a trend.

É uma estratégia de vício digital baseado em estímulos contínuos e lavagem sensoriais. Quanto mais o seu filho assiste, mais o algoritmo entrega. Por trás, da estética divertida e bizarra, muitas vezes, estão escondidas mensagens racistas, misóginas ou violentas. Tudo disfarçado como piada” — Delegada Sheila

 “Se você é pai, mãe ou responsável, precisa se atentar”, destaca. A deputada se refere a vídeos como o do personagem Bombardino Cocodrilo, um avião de guerra com cabeça de crocodilo, que bombardeia a Faixa de Gaza, na Palestina. Outros conteúdos fazem menção à morte, ao assassinato e à violência.

A neuropsicóloga Gleyna Lemos alerta os perigos ao consumir esse tipo de conteúdo. “Vídeos que contêm preconceito ou violência têm potencial não apenas de causar dano emocional imediato, mas de moldar negativamente comportamentos e valores sociais, especialmente em públicos jovens que ainda estão desenvolvendo habilidades de julgamento crítico e empatia”, atesta.

Do ponto de vista neuropsicológico, exposição frequente a esse tipo de material pode reduzir a sensibilidade emocional e empática, favorecer a normalização da violência e do preconceito, e reforçar comportamentos agressivos e discriminatórios. Por isso, é essencial que haja supervisão dos responsáveis e políticas de conscientização mais amplas para promover um uso saudável e crítico das redes sociais —  Gleyna Lemos.

Mercado brasileiro

 O sucesso dos “brain rots” italianos chegou ao mercado brasileiro. Em um primeiro momento, os vídeos a migrarem para outras plataformas digitais, como o Instagram e o X. Playlists de músicas do universo foram criadas no Spotify, com remixes diversos e canções feitas especialmente para os funks e dancinhas dos personagens. A playlist “☠️Brainrot FUNKs☠️” já foi baixada por mais de dez mil ouvintes.

Os comerciantes viram, na febre, uma oportunidade de faturar: em sites de e-commerce, camisetas com a estampa dos personagens estão à venda. Na Shopee e no Mercado Livre é possível encontrar miniaturas deles.

Cappuccino Assassino, Tralalero Tralala, Ballerina Cappuccino e Tung Tung Tung Sahur são os personagens mais conhecidos da febre “Brain Rots" (Reprodução/Inteligência Artificial)

Cappuccino Assassino, Tralalero Tralala, Ballerina Cappuccino e Tung Tung Tung Sahur são os personagens mais conhecidos da febre “Brain Rots” (Reprodução/Inteligência Artificial)