A histeria é um transtorno psicológico caracterizado por sintomas físicos e emocionais intensos sem causa orgânica aparente, como desmaios, paralisias e crises emocionais. Historicamente associada às mulheres, foi reinterpretada no fim do século XIX por Sigmund Freud (1856-1939) como expressão de conflitos inconscientes. Hoje, é entendida como parte dos transtornos dissociativos.
*por Luísa Giraldo
A literatura ganha cada vez mais espaço nas redes sociais: o nicho “Booktok” – junção das palavras “book”, livro em inglês, e Tik Tok – é reflexo desse movimento. Obras literárias com narrativas femininas complexas têm conquistado milhares de jovens da Geração Z. O interesse deu origem à trend “livros de mulheres doidas”, que incentiva o compartilhamento de indicações de romances, biografias e ensaios com protagonistas em atos de descompasso. A postura da Gen Z colabora para a quebra de preconceitos relacionados ao estigma da loucura feminina, a exemplo da histórica histeria.
Na internet, a ideia de “loucura” é frequentemente usada de forma irônica para recomendar obras de autoras como Rosa Montero, Sylvia Plath (1932-1963) e Virginia Woolf (1882-1941). As escritoras jogam luz sobre temas polêmicos, dolorosos e e tabus sobre o universo feminino, como sexo, desejo, angústia e assim por diante. No entanto, a tendência exige cautela: há uma diferença entre transtorno mental – a Geração Z, em especial, coloca o bem-estar emocional como pilar para uma vida saudável – e a “loucura” romantizada nas plataformas digitais.
A ascensão de obras centradas em protagonistas femininas densas e multifacetadas reflete uma mudança no olhar do público leitor – sobretudo de leitoras –, que agora valoriza enredos marcados por conflitos internos, ambivalências e subjetividades profundas. Além disso, as personagens permitem o acesso a experiências antes silenciadas ou marginalizadas ao desafiarem caricaturas antigas sobre a “loucura” e abrirem espaço para interpretações mais empáticas da condição feminina.
Mais do que entretenimento, essas leituras funcionam como instrumentos de reconhecimento e validação emocional. Ao acompanhar trajetórias que expõem fragilidades, rupturas e desejos reprimidos, jovens leitoras encontram não só espelhos de suas próprias vivências, mas também uma crítica às normas que historicamente limitaram as mulheres. Esse movimento aponta para uma literatura mais inclusiva, que legitima a complexidade como parte essencial da narrativa feminina.
Não são apenas as redes sociais que revelam a mudança no olhar literário. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita em 2024 pelo Ibope para o Instituto Pró-Livro, aponta que o maior número de leitores brasileiros está entre 11 e 13 anos. A Geração Z também lidera a frequência em bibliotecas, representando cerca de 16% do público. Apesar da naturalidade digital, esses jovens valorizam o livro físico e os espaços culturais, como bibliotecas, que se tornaram pontos de convivência social. O movimento “BookTok”, presente em muitas outras redes, impulsiona ainda mais o interesse pela leitura contemporânea e a valorização cultural da literatura brasileira, sobretudo produzida por mulheres.
Livros populares da trend

“Livros de Mulheres Doidas” conquistam jovens da geração Z e ressignificam a “loucura” feminina (Divulgação)
- “A Redoma de Vidro” (1963), de Sylvia Plath
Neste romance semi-autobiográfico publicado semanas antes da morte de Sylvia Plath, acompanhamos Esther Greenwood, uma jovem promissora que deixa o subúrbio de Boston para trabalhar em Nova York e se vê imersa em uma espiral de depressão. Ambientado nos anos 1950, o livro expõe as tensões vividas por mulheres diante das expectativas sociais da época — entre carreira, casamento e sanidade —, ao mesmo tempo que mergulha com sensibilidade e franqueza nas dores do amadurecimento. Com uma prosa elegante e incisiva, a obra permanece atual ao abordar os dilemas femininos, a solidão urbana e os limites da saúde mental.
- “Paixão Simples” (2023), de Annie Ernaux
Trata-se de um relato autobiográfico sobre um relacionamento intenso e obsessivo com um homem casado, um estrangeiro que Annie Ernaux apelida de “A”. A obra explora a paixão de forma crua e honesta, sem pudores, focando na experiência da narradora, já divorciada e com filhos adultos, que se entrega totalmente a essa relação.
- “A Hora da Estrela” (1977), de Clarice Lispector
Nesta obra, acompanhamos Macabéa, uma jovem nordestina que se muda para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa. A personagem é marginalizada e solitária, vivendo uma vida simples e sem grandes ambições. A narrativa é conduzida por um narrador, Rodrigo S. M., que reflete sobre a existência de Macabéa, abordando questões de marginalização, solidão e a busca pelo significado da vida.
- “Pessoas Normais” (2018), de Sally Rooney
Sally Rooney conta a história do relacionamento complexo e apaixonado de Connell e Marianne, dois adolescentes irlandeses que se conhecem na escola e depois na universidade. O livro explora o primeiro amor, as dificuldades da adolescência, as diferenças sociais e as inseguranças que moldam os personagens.
- “Tudo que eu Sei sobre o amor” (2022), de Dolly Anderson
O livro autobiográfico de Dolly Alderton retrata, com humor e sinceridade, os desafios e descobertas da autora em seus vinte e poucos anos. Entre encontros desastrosos, desilusões amorosas e vínculos profundos com amigas, a obra mistura memórias pessoais e reflexões sobre identidade, amadurecimento e as várias formas de amor que moldam a vida adulta.
- “As Meninas” (2009), de Lygia Fagunde Telles
O romance narra a história de três jovens universitárias durante a ditadura militar no Brasil. Lorena, Lia e Ana Clara vivem em um pensionato em São Paulo e suas trajetórias são marcadas por suas experiências individuais e pela repressão política da época. O livro também aborda temas como a liberdade de expressão, a emancipação feminina e a busca por identidade.
- “Cleopatra e Frankenstein” (2022), de Coco Mellors
Acompanhamos a história de Cleo, uma jovem pintora inglesa que, após se mudar para Nova Iorque, encontra Frank, um publicitário mais velho e de sucesso. A decisão impulsiva de se casarem muda suas vidas, a de seus amigos e familiares de maneiras inesperadas, explorando temas como amor, casamento, identidade de gênero, doença mental e as escolhas que moldam a vida adulta.
- “Talvez você deva conversar com alguém” (2020), de Lori Gottlieb
Neste livro, a terapeuta Lori Gottlieb compartilha, com sensibilidade e humor, sua experiência dupla como profissional e paciente, revelando como a escuta — tanto a que oferecemos quanto a que recebemos — pode transformar vidas. Alternando entre suas próprias sessões de terapia e os atendimentos a seus pacientes, a obra lança luz sobre angústias comuns e mostra o poder da vulnerabilidade, do autoconhecimento e da mudança real.
Estrelas que entraram na onda dos “livros para mulheres doidas” foram Olivia Rodrigo e Taylor Swift. Durante sua passagem pelo Brasil, no início desse ano, a autora de “Sour” recomendou a leitura “A Hora da Estrela”, de Clarice. Já Taylor, muito antes da trend, indicou “Pessoas Normais”, de Sally Rooney, para uma fã.

Taylor Swift disse para uma fã em uma secret session de “Lover” que ama o livro “Pessoas Normais”, de Sally Rooney. (Reprodução/X)

A cantora Olivia Rodrigo revelou ter lido “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, e elogiou a autora brasileira (Reprodução/YouTube)
Loucura feminina na história
Ao longo da história, figuras como louca, bruxa e prostituta refletiram tentativas da sociedade de controlar o comportamento das mulheres. Em contrapartida, do ponto de vista feminista, a loucura passou a simbolizar resistência: alguém que desafia o modelo imposto. Esse olhar crítico aparece, por exemplo, em obras como as de Virginia Woolf, que propôs, em 1931, que a escritora precisava “matar o anjo do lar” para alcançar liberdade criativa.
Especialista em saúde mental da mulher, o psiquiatra Rafael Lopes reconhece que “a associação entre o feminino e o descontrole emocional foi naturalizada por séculos”. O profissional destaca que isso não se deu por critérios clínicos, mas principalmente por construções sociais.
A ideia absurda de que o útero “passeia” pelo corpo causando sintomas físicos e emocionais vem desde a Grécia Antiga – daí, o termo ‘histeria’, de hystéra, útero. Ao longo da história, comportamentos que fugiam do esperado para as mulheres, como recusar o casamento, expressar raiva ou sofrer perdas, foram rotulados como distúrbios mentais. Muitas foram internadas injustamente em instituições psiquiátricas não por doença, mas por serem consideradas incômodas à ordem patriarcal. A loucura feminina, nesse contexto, era vista não como um sofrimento legítimo, mas como uma ameaça – Rafael Lopes.
Com o avanço das autoras no século 19, surgem personagens femininas mais complexas. Em “A Louca no Sótão” (1979), Sandra Gilbert (1936-2024) e Susan Gubar analisam como a literatura oscilava entre idealizar a mulher submissa e marginalizar a “louca”. Em consonância, o conflito feminino também se desloca do lar para o mundo, à medida que aumentam as exigências sociais. Autoras como Stela do Patrocínio (1941-1992) rompem com o ideal burguês ao escrever a partir das margens, sem amenizar a dor.
Para mulheres negras e pobres, no entanto, a representação da loucura ganha outro contorno. A exemplo de Conceição Evaristo, inúmeras escritoras contemporâneas mostram que, diante da exclusão social, a angústia feminina se revela como sintoma real, muitas vezes diagnosticado como transtorno.
O psiquiatra pontua que a “loucura” feminina ainda é rodeada por preconceitos no século XXI. “Diria que a loucura só foi “repaginada”. É muito comum mulheres chegarem no consultório depois de terem seus sintomas minimizados ou mal interpretados – principalmente em contextos como TPM (Tensão Pré-Menstrual), puerpério, menopausa ou dores emocionais ligadas a relacionamentos. Hoje, o estigma aparece quando se diz que é “hormônio”, “carência” ou “drama”. Mulheres sofrem em silêncio, duvidam da própria percepção e, muitas vezes, não buscam ajuda por medo de serem invalidadas”, opina.
Segundo Lopes, o processo de desconstrução de preconceitos e estigmas relacionados ao tema se dá pela “validação do sofrimento feminino”. Não é exagerar, mas reconhecer, identifica ele.
“A primeira chave é escuta. Escutar de verdade, sem pressa de rotular. A segunda é contextualizar: compreender que a saúde mental da mulher está atravessada por múltiplas camadas – biológicas, sim, mas também sociais, culturais e psicológicas”.
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