*por Vítor Antunes
“Muitas marcas parecem menos comprometidas. É como se apoiar nossas causas tivesse saído de moda. Mas nunca foi uma questão de moda. Nunca foi tendência lutar por nossos direitos ou gritar com orgulho quem somos.” É com essa declaração contundente que Bianca Dellafancy — artista drag e uma das principais vozes do movimento LGBT contemporâneo, sobretudo nas redes sociais — resume o sentimento predominante dentro da comunidade ao fim de mais um mês do orgulho, que se encerra nesta segunda (30).
A percepção é de retração. O apoio institucional, que antes se manifestava com mais visibilidade, especialmente em junho, agora parece escasso. Segundo Bianca, há uma crescente sensação de que o papel de aliado, para muitas empresas, tem se reduzido a um gesto protocolar, uma simpatia sazonal. “Felizmente, trabalho bastante fora do mês do orgulho, inclusive com marcas que não atuam diretamente com o público LGBT. São empresas voltadas ao público geral, mas que mantêm parcerias constantes. Ainda assim, percebo que houve uma mudança. Muitas marcas têm demonstrado desinteresse. Apesar de ainda existirem parcerias sólidas com pessoas LGBT ao longo do ano, há um desânimo perceptível no mercado”.
Na avaliação da artista, esse cenário se conecta ao avanço de pautas ultraconservadoras no cenário global, intensificado a partir da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.“Isso tem a ver com a onda conservadora que cresce no mundo – especialmente quando potências como os Estados Unidos assumem posturas extremistas. Isso acaba encorajando outras pessoas, empresas e empresários a também se posicionarem contrários a nós”.
Acredito que muitas das marcas que antes nos apoiavam o faziam por conveniência, por retorno de imagem ou lucro. Não necessariamente por acreditar em nossa causa. E agora, sem a mesma pressão social, deixam claro que nunca houve um compromisso real. Apenas faziam o que julgavam necessário, o que lhes rendia algo em troca. Hoje, sem sentirem essa obrigação, se afastam. O que é uma grande decepção. É como se tivéssemos deixado de existir. Mas não deixamos. Continuamos a consumir, a trabalhar, a lutar por nossos direitos. O que está acontecendo é triste – e sintomático de um tempo em que aparentemente muitos apenas nos apoiavam por interesse e não por acreditar de verdade na importância de fomentar a nossa existência – Bianca Dellafancy

Bianca Dellafancy: “Muitas marcas têm demonstrado desinteresse” (Foto: Divulgação)
Bianca também sinaliza da necessidade de se fiscalizar com mais cuidado a segurança das pessoas que fazem uso dos aplicativos de encontro – especialmente o Grindr, voltado a encontros gays. Não são raros os casos de rapazes que passam por violência ao se encontrarem com pessoas mal intencionadas. Mas Bianca faz um mea-culpa das próprias pessoas que não zelam pela sua segurança. “Acho, sim, que os aplicativos de encontros deveriam ter algum tipo de monitoramento mais efetivo, algo que contribuísse para a segurança dos usuários. Isso é um fato. Mas também não podemos esquecer das nossas próprias atitudes para nos precavermos. Eu, por exemplo, sempre investigo. Pergunto às minhas amigas quando elas têm algum amigo em comum com aquela pessoa que vou sair, compartilho o perfil, peço opiniões. Sempre marco encontros em locais públicos. É claro que há responsabilidade nos aplicativos, mas não podemos confiar plenamente neles. Temos que fazer a nossa parte. Tem gente que mal conversa e já convida o outro para casa. Não dá para contar com a sorte. Precisamos estar atentos”.
NOVO DIA
Bianca Dellafancy está às vésperas da estreia uma nova temporada do programa Dando Duro, que coapresenta ao lado de Rafa Chalub na Dia TV — canal FAST de streaming e multiplataforma acessível tanto em televisores conectados quanto no YouTube. “Nesta nova fase conseguimos entregar uma temporada mais extensa. A última teve seis episódios, e agora conseguimos praticamente dobrar esse número. Foi muito especial. Para esta segunda fase, voltamos com a nova temporada de Dando Duro, na Dia TV. Já começamos a gravar os episódios e a estreia será em breve.”
Com uma programação voltada majoritariamente ao público LGBT, a Dia TV consolida-se como um espaço de expressão e representação da diversidade. Bianca reconhece o impacto dessa liberdade criativa e da autonomia narrativa conquistada nos meios digitais. “Durante muito tempo, estivemos à mercê de como os outros queriam nos mostrar. Hoje, com a Dia TV e com plataformas como o YouTube, conseguimos nos apresentar da maneira que queremos. Não dependemos mais da imagem que os canais de televisão construíam sobre nós. Inclusive, noto que esses mesmos canais, que antes nos retratavam de forma caricata e estereotipada, hoje demonstram preocupação em se educar. Passaram a nos permitir aparecer como realmente somos. No passado, as pessoas riam de nós. Hoje, nós rimos entre os nossos. A Dia TV acabou se tornando um canal voltado à diversidade. É, na prática, um canal gay. Um espaço de representatividade muito forte. Considero, de fato, que a Dia TV é uma porta-voz da comunidade LGBT no campo do entretenimento. Todas as letras da sigla estão representadas ali. É um canal LGBT mesmo. Vejo isso como um avanço.”
Em vez de ficarmos esperando que a televisão ou os streamings nos deem espaço, temos agora um ambiente próprio de representatividade. E eu me sinto bem ali, acolhido, livre para expressar minha arte. Tenho certeza de que outras pessoas sentem o mesmo. É algo realmente importante – Bianca Dellafancy

Bianca Dellafancy: “Temos agora um ambiente próprio de representatividade” (Foto: Divulgação)
Nascida em Santos, no litoral paulista, Bianca Dellafancy enfrentou diversos obstáculos para se afirmar além de Felippe — o homem que dá vida à personagem. Vinda de uma cidade conservadora e de uma família igualmente rígida, precisou desafiar convenções desde cedo para simplesmente existir como era. “Meu primeiro ciclo de amizades me acolheu. Eu era muito efusivo, algo muito visível. Na época em que comecei a me entender e me aceitar, a minha forma de existir era sendo quem eu era. Eu não era drag ainda, mas me maquiava, usava salto alto — salto 15 — mesmo para ir à praia. Sempre ouvi comentários na rua, piadas, mas nunca abaixei a cabeça. Continuei. E, na minha cabeça, nem era sobre lutar por um direito. Eu só queria ser. Eu não conseguia conceber outra forma de existir. As alternativas eram muito limitadoras.”
Durante algum tempo, Bianca também tentou se moldar às expectativas do que se considera “normal”, inclusive abrindo mão de si mesma para agradar alguém. “Houve um momento em que tentei mudar. Estava morando em Santos e me apaixonei por um rapaz. Achei que, para ele gostar de mim, eu precisaria ser diferente. Fiz uma limpa no meu guarda-roupa, troquei tudo por roupas que eu considerava mais ‘masculinas’: camisas polo, calças mais discretas. Mas não funcionou. Ele não ficou comigo. E eu fiquei com um monte de roupas que não gostava de usar. Além disso, meu pai também era muito conservador. Foi difícil lidar com a tentativa constante de apagamento, com a pressão para me encaixar em uma performance de masculinidade. Isso é algo muito comum. Seria mais fácil se não precisássemos disso. Mas não apago a experiência que tive, porque ela me ensinou algo fundamental: não dá para ser algo que não somos.”
A gente evolui, muda algumas coisas, mas a essência permanece. Nossa essência é nossa. Não há como fugir dela – Bianca Dellafancy

Felippe Souza é o nome por trás da persona Bianca (Foto: Divulgação)
AMAR E ENVELHECER
O tema da Parada do Orgulho LGBT deste ano tocou num ponto ainda sensível dentro da própria comunidade: o direito de envelhecer. Em um meio frequentemente marcado pelo culto à juventude e à aparência, falar sobre maturidade é quase um ato de resistência. “O meio LGBT, especialmente o gay, é muito ligado à juventude e ao corpo. Às vezes esquecemos que, com sorte, vamos envelhecer — e eu espero ter essa sorte. Também esquecemos daqueles que vieram antes. E, pior, muitas vezes essas pessoas são desvalorizadas. Como se, ao envelhecer, perdessem o valor. Quando, na verdade, é justamente o contrário: sem essas pessoas, que abriram caminhos, que começaram tudo, nós não estaríamos aqui. Eles têm uma importância imensa — os que ainda estão entre nós e os que já se foram. Nós não queremos apenas envelhecer. Queremos viver o suficiente para envelhecer — e viver bem. Com nossos direitos assegurados. Queremos o direito de ir e vir, de trabalhar, de ter um salário justo, um teto, comida na geladeira. É essencial falar sobre isso porque é falar sobre o direito à vida, e também sobre as pessoas que vieram antes, que pavimentaram o caminho para que estivéssemos aqui hoje”.
Falar sobre envelhecer é falar sobre o inevitável, se tivermos sorte. Lutamos para poder envelhecer, para conseguir chegar lá neste país. Entre heterossexuais, envelhecer é algo natural, esperado. Para nós, é uma conquista – Bianca Dellafancy
Entre os assuntos que raramente são direcionados a pessoas LGBT — em especial a artistas drag e pessoas trans — está o desejo de formar família. Bianca não foge do tema. “Penso em casar, em construir uma família. Quero ter filhos — um ou mais, não sei ao certo. Só não entendi ainda quando isso pode acontecer. Pensando no que aprendemos e no que vemos, pessoas com 35 ou 36 anos já estão nesse momento. Tenho 35, farei 36 este ano. E o que eu mais quero agora são meus projetos de trabalho. Quero viajar para a Europa de novo. Casamento, neste momento, está longe dos meus planos. Só não sei se quero morar junto”.
A relação entre Bianca e Felippe se dá em camadas. São duas entidades que coexistem, aprendem e se fortalecem mutuamente — como um CPF e um CNPJ que compartilham o mesmo corpo. “Bianca ensina Felippe a ter coragem. Felippe é muito tímido em muitos momentos, carrega traumas. Ele se trata na terapia, mas às vezes enfrenta crises de auto-sabotagem, sente o chamado ‘síndrome do impostor’. Nessas horas, Bianca aparece e diz: ‘Você está maluco? Olhe para você, veja tudo o que conquistou, lembre do seu passado, da sua história. Olhe no espelho. Veja como você é lindo.’ Bianca traz essa segurança para ele. Houve uma época, alguns anos atrás, quando comecei a fazer drag, em que eu sentia essa força ao estar montado, mas não a sentia na minha versão masculina. Lembro que, ao enfrentar situações difíceis no cotidiano, pensava: ‘Imagine que você está montado. Imagine que é a drag que vai enfrentar isso.’ E assim eu conseguia. Hoje em dia, não preciso mais imaginar isso. Quando estou mal, apenas me lembro que essa força também é minha. Não se trata de estar montado ou não — é a sensação de força, de poder. E isso me impulsiona a fazer o que precisa ser feito. Bianca ensina Felippe a ter força e coragem. E Felippe ensina Bianca a relaxar, a curtir a simplicidade dos momentos. Nem tudo precisa ser grandioso. Às vezes, a simplicidade carrega uma beleza enorme. Gosto muito disso no Felippe. Os momentos dele são simples: os encontros com amigos, as trocas nos relacionamentos, tudo muito tranquilo e sincero. Felippe valoriza isso. Bianca, por outro lado, é mais explosiva, intensa. E Felippe a ensina a valorizar também a simplicidade da vida.”
No fim, talvez seja sobre isso mesmo: seguir sendo, apesar de tudo. Apesar dos silêncios das marcas, dos retrocessos travestidos de opinião, dos algoritmos que esquecem, das vitrines que já não refletem. Continuamos aqui: ocupando espaço, fazendo barulho, construindo pontes com as próprias mãos quando os atalhos nos são negados. Bianca — ou Felippe, ou ambos — já não pede licença. Entende que existir é, antes de tudo, um gesto político, mas também profundamente humano. E se o mundo insiste em nos empurrar de volta aos bastidores, a resposta é simples: inventamos novos palcos. Porque ser quem se é, sem disfarces, sem data marcada, é um ato contínuo — e essa, sim, é a verdadeira temporada que nunca se encerra.
Artigos relacionados
Com humor e crítica social, atriz Aquela Miranda lança livro sobre crise, ansiedade e dores dos millennials na web
Cíntia Chagas estreia no 'Domingo Espetacular' e leva debate sobre Língua Portuguesa para a TV aberta
Jorge Henrique, professor de inglês com quase 2 mi seguidores, fala sobre vontade de atuar na cena artística